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Foto: Eduardo Aigner/MDA
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Mulheres em alta, cresce o número de mulheres que desempenham funções na agropecuária

Cresce o número de mulheres que desempenham funções na agropecuária, mas é preciso romper algumas barreiras e avançar em oportunidades no campo.

O campo mudou. O perfil de quem atua no segmento agropecuário já não é mais o mesmo de décadas anteriores e tem evoluído ano após ano. Hoje, homens e mulheres exercem atividades semelhantes na lida diária na agricultura e pecuária. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que as mulheres do campo, por exemplo, são responsáveis por quase a metade da renda familiar rural, com 42,4%.

O agrônomo e consultor José Ney Vinhas confirma que as mulheres têm mesmo ocupado diferentes funções no meio rural, inclusive aquelas tidas como decisivas, ou seja, de gestão, coordenação e como líderes de outros profissionais – atividades que antes pouco desempenhavam. “Elas estão na linha de frente, tomando decisões e se responsabilizando pela gestão e administração do negócio, com importante papel ainda na articulação e harmonização familiar”. Segundo Vinhas, de 1991 a 1998, apenas 1% das propriedades rurais tinha uma mulher como responsável pela tomada de decisões. Atualmente, este porcentual chega a 10%.

Larissa Libório, 29, que hoje cuida da área administrativa da Fazenda Qualité, a 17 quilômetros de Bela Vista de Goiás (GO) Foto: Arquivo/Carlos Costa / revistasafra.com.br

Larissa Libório, 29, que hoje cuida da área administrativa da Fazenda Qualité / Foto: Arquivo/Carlos Costa / revistasafra.com.br

Um dos setores que têm conquistado as mulheres é o da pecuária leiteira, tendo Goiás como quarto colocado no ranking de produção de leite no Brasil. Para Larissa Libório, 29, que hoje cuida da área administrativa da Fazenda Qualité, a 17 quilômetros de Bela Vista de Goiás (GO), a atividade leiteira passou a fazer parte da sua vida por uma questão familiar. Formada em Administração de Empresas, ela trabalhou por vários anos na cidade, em indústrias e no segmento de shopping center. Mas, em 2015, a gerente da propriedade rural deixou o cargo e Larissa e o pai – que é o proprietário da fazenda – conversaram e decidiram que o melhor para os negócios seria ela assumir a gestão administrativa de lá. “Não era minha área de atuação e nunca tinha pensado nessa possibilidade, mas aceitei o desafio, pois sabia que teria uma equipe que poderia me auxiliar. Como meu pai trabalha em outro segmento, a fazenda também ficava nas mãos da gerente e não tínhamos o acompanhamento muito perto. Com essa decisão, ele viu a possibilidade de ter uma pessoa de confiança cuidando dos negócios da família”, revela.

Atualmente, Larissa tem o apoio, na gestão da fazenda, de um médico veterinário, que está na propriedade há quatro anos e é responsável pela parte técnica. Ela desenvolve atividades como gestão de pessoas – o que inclui contratação e demissão -, cotação de preços, negociação com fornecedores e demais parceiros, e aquisição de equipamentos e insumos, como pequenas peças, produtos de limpeza, de ordenha, itens para alimentação dos animais. “Toda essa gestão fica comigo, o que toma bastante tempo, porque sempre é preciso fazer investimento em algo ou manutenção. Tem a parte de pesquisa de mercado para encontrar os preços mais baixos, o planejamento para fazer a manutenção preventiva de máquinas, acompanhamento do mercado, busca de novidades etc”.

Larissa acrescenta que depende também das demandas repassadas pelo veterinário, que é quem fica mais tempo em contato com o campo e até mesmo com os 15 colaboradores da fazenda. Para a atividade de ordenha e cuidado com os bezerros, Larissa decidiu diversificar a equipe, com homens e mulheres. “Elas, por exemplo, cuidam melhor dos bezerros e da ordenha, porque são mais cuidadosas”.

Como não é desenvolvida nenhuma atividade de agricultura na propriedade, a administradora da Qualité é quem negocia com parceiros próximos da fazenda o fornecimento de silagem – na época certa para a alimentação das 330 vacas da raça jersey, em lactação. Segundo ela, tudo é feito com planejamento, inclusive com antecedência para fechar acordos antes mesmo do início do plantio. Ela também fecha a venda com os compradores. O leite produzido na propriedade é comercializado para a Nestlé. A média de produção é de 4.600 litros por dia.

De acordo com Larissa, apesar de esperar certa resistência, não houve dificuldade de relacionamento com os colaboradores da fazenda pelo fato dela ser mulher. “Fui bem aceita. Tive mais dificuldades com fornecedores e vendedores, talvez porque era minoria e eles achavam que poderiam negociar diferente comigo e colocar o preço mais alto. Realmente eu tinha pouco conhecimento da área, no início, e por isso eles jogavam os valores para cima. Mas isso foi sendo contornado com o tempo e agora percebo até o atendimento melhor. Quando a loja está cheia, por exemplo, eles dão prioridade e agilizam o atendimento pra mim”, destaca.

Em expansão

A socióloga e coordenadora da Rede de Inovação Rural da Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater), Elen Maria Pachêco Alves, explica que a atuação delas na bacia leiteira está em expansão no Estado, sendo que antes era uma atividade que, na maioria das propriedades, era sempre desenvolvida por homens.

Ela ressalta que a modernização, além de facilitar a vida dos produtores e garantir melhor preço do leite, também possibilitou o acesso da mulher na atividade leiteira. “Com isso, as mulheres têm mais uma facilidade para estar na atividade, enquanto o homem fica encarregado de cuidar do manejo dos animais. Aspectos de higiene e limpeza antes, durante e pós-ordenha são fundamentais para a qualidade do leite e saúde dos animais. E isso a mulher faz com muita propriedade”.

Foi exatamente isso que aconteceu com Lucilene Cordeiro França, 40. Ela iniciou na atividade leiteira há 15 anos, incentivada pelo marido, que já atuava no campo. Enquanto ele exerce funções ligadas ao manejo com os animais, Lucilene é responsável pela ordenha – mas ela garante que se for preciso, realiza qualquer trabalho ligado à atividade. Na chácara dos dois, localizada na região de Melancial, a 11 quilômetros de Gameleira de Goiás (GO), a rotina começa às 5h30, todos os dias, sem folga nos finais de semana ou feriados. São 60 animais na pequena propriedade, sendo que 30 são vacas leiteiras, cerca de 20 em lactação, atualmente. Em média, os animais produzem de 180 a 200 litros de leite por dia. A produção é entregue a um vendedor, que negocia com os laticínios.

Ela destaca que o litro do leite é comercializado, em média, por R$ 1,50. A produtora prefere não comentar quanto consegue com a atividade por mês, mas ressalta que do valor arrecadado, 60% são destinados para pagar despesas e 40% fica de lucro para a propriedade. “O que atrapalha no aumento do rendimento são os custos altos de produção. O preço da ração subiu, de insumos e do manejo também. E isso faz com que a gente não tenha como investir mais na produção e até em genética dos animais. Por isso a gente não ganha muito com a atividade. Mas dá para viver”, afirma. Para ajudar no rendimento familiar, o casal também produz hortaliças, galinhas e porcos na chácara – destinados ao próprio consumo -, o que contribui para reduzir gastos com alimentação.

Gestão e liderança feminina

Na Chácara Bella Napoli, localizada a 12 quilômetros de Bela Vista de Goiás (GO), a condução das atividades é realizada pela médica veterinária Daniela Sérgio Ribeiro, 39. Ela assumiu a gestão estratégica do local, que hoje atua exclusivamente com a produção leiteira. Daniela explica que vários fatores contribuíram para iniciar como produtora e para que ela assumisse a coordenação do trabalho. “Tinha um escritório em Bela Vista e trabalhava com as propriedades da região. Meu pai tinha o sonho de voltar a morar na fazenda quando se aposentasse, já que quando criança tinha morado. Então, em 2008, passamos a procurar uma fazenda. Mas nos questionamos o que íamos fazer. Como eu trabalhava com fazendas leiteiras, pensamos em investir nessa área. Foi assim que tudo começou”, lembra.

No início, Daniela diz que não tiveram muita dificuldade com a fazenda, mas sim com a atividade. “Escolhemos a raça jersey, que era difícil de encontrar. Tudo o que a gente lia era sobre o gado holandês. Mas bem ou mal, tinha a vivência com outras propriedades. Essa ‘bagagem’ nos ajudou a estruturar a fazenda e deixá-la de forma bem organizada”, informa. A gestora conta também que foram feitos investimentos na estrutura, com a compra de equipamentos modernos, ordenha com pressão automática, tratores, vagões de traço etc. “A fazenda tem tecnologia acima da média de outras propriedades. Colocamos tudo nos lugares adequados. Acredito que nos diferenciamos nesse ponto, ou seja, com toda a organização”.

Atualmente, Daniela coordena uma equipe de três colaboradores voltados diretamente para as atividades leiteiras. Eles são responsáveis pelo manejo, ordenha, cuidados com os animais, piquetes, máquinas, entre outros. Apenas o que é relacionado aos bezerros – do nascimento aos quatro meses – fica sob responsabilidade direta da gestora, que é médica veterinária. Questionada se houve resistência por parte dos colaboradores por ter uma mulher no comando, ela enfatiza que não. “Eu vim para Goiás em 2003, fiz especialização e em 2005 abri meu escritório. Desde o início tive como público-alvo homens, fazendeiros e funcionários. Nunca tive rejeição pelo fato de ser mulher. Pelo contrário. Sempre tive muito acesso às pessoas e sempre fluiu muito bem. Quando parti para a fazenda, também não tive esse problema. Porque quem ia para lá já sabia que era eu que coordenava. Eu vim preparada para ter resistência, mas não encontrei”, destaca.

Hoje, o rebanho completo da chácara é de 220 cabeças, sendo que em lactação são 80 vacas. Em média, são 1.200 a 1.500 litros de leite por dia. O que é produzido é comercializado para a Italac. Para ela, o principal problema da atividade ainda é a relação entre produtor e laticínios. “Sempre questionei muito a posição do laticínio com a gente que é produtor. Porque eles precisam de nós para ter o leite para industrializar. Nunca foram parceiros do produtor. Pelo contrário. Sempre que podem, eles dão uma ‘enforcadinha’. Isso prejudica o setor, enfraquece a cadeia. Eles fazem a jogada deles de mercado. A gente tem nosso custo dentro da fazenda. Espero que mude algo neste cenário e que tenha preço cada vez mais justo”, relata

Fernando Dantas Reprodução da Revista Safra

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