Da promessa médica ao impacto no agronegócio, a clonagem da ovelha Dolly abriu caminhos científicos e também intensificou o debate sobre os limites da manipulação genética.
Há quase três décadas, a ciência viveu um dos momentos mais impactantes de sua história moderna. Em 22 de fevereiro de 1997, pesquisadores anunciaram ao mundo que haviam conseguido algo até então considerado improvável fora dos roteiros de ficção científica: a clonagem bem-sucedida de um mamífero a partir de uma célula adulta. A protagonista dessa revolução foi Dolly, uma ovelha nascida meses antes, cujo anúncio público transformou para sempre o debate sobre genética, biotecnologia e limites éticos da ciência.
O feito foi conduzido por cientistas do Roslin Institute, centro de pesquisa localizado em Midlothian, na Escócia, posteriormente incorporado à Universidade de Edimburgo. O nascimento de Dolly ocorreu em 5 de julho de 1996, mas permaneceu em sigilo absoluto por sete meses, enquanto os pesquisadores finalizavam o artigo científico que detalhava o experimento.
O procedimento que levou ao nascimento de Dolly foi tecnicamente complexo e exigiu persistência. Os cientistas utilizaram uma única célula retirada da glândula mamária de uma ovelha adulta de seis anos. O núcleo dessa célula — que contém o material genético — foi inserido em um óvulo previamente esvaziado de outra ovelha.
Após a fusão celular, o embrião resultante foi cultivado em laboratório durante seis dias. Com sinais iniciais de desenvolvimento normal, ele foi transferido para uma terceira ovelha, chamada Allie, que atuou como mãe de aluguel. Ao todo, três ovelhas participaram do processo: uma doadora da célula, uma doadora do óvulo e a gestante.
O caminho até o sucesso, porém, foi árduo. Foram necessárias 276 tentativas até que o experimento resultasse em um nascimento viável. A persistência da equipe foi determinante para alcançar o resultado que entraria para a história.
O nome Dolly foi escolhido em homenagem à cantora country Dolly Parton, numa referência bem-humorada à origem da célula utilizada no experimento.

Antes de Dolly, já havia registros de clonagem animal. Em 1962, o cientista John Gurdon conseguiu produzir girinos a partir de células adultas de rãs. No entanto, a clonagem de um mamífero a partir de uma célula adulta diferenciada era considerada muito mais complexa.
Os pesquisadores Ian Wilmut e Keith Campbell demonstraram que células adultas especializadas ainda carregavam toda a informação genética necessária para gerar um organismo completo, contrariando a crença de que essa capacidade se perdia com a diferenciação celular.
A escolha por uma ovelha também foi estratégica. Além da experiência da equipe com a espécie, tratava-se de um animal com manejo consolidado e fisiologia bem conhecida. A natureza dócil do cordeiro também ajudava a tornar o experimento mais aceitável ao público do que outras espécies de produção, como suínos ou bovinos.
A revelação do nascimento de Dolly provocou entusiasmo científico e preocupação pública em escala global. Rapidamente, surgiram especulações sobre a possibilidade de clonagem humana.
O então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, proibiu o uso de recursos federais para pesquisas envolvendo clonagem humana. A decisão desencadeou uma série de regulamentações e discussões internacionais sobre limites éticos da biotecnologia.

Em 2005, a Organização das Nações Unidas aprovou uma declaração recomendando a proibição da clonagem humana, ainda que de caráter não vinculativo. O caso Dolly marcou o início de um debate regulatório que permanece atual, especialmente diante dos avanços recentes em edição genética.
O sucesso do experimento abriu caminho para aplicações práticas na agropecuária e na medicina. Pesquisadores vislumbraram a possibilidade de:
- Produzir animais geneticamente modificados para gerar proteínas terapêuticas no leite
- Replicar animais com características superiores de produção
- Preservar genéticas valiosas
Desde então, a clonagem foi expandida para bovinos, suínos e equinos. No agronegócio, a técnica passou a ser utilizada para multiplicar animais de alto valor genético, especialmente em programas de melhoramento.
Além disso, empresas privadas começaram a oferecer serviços de clonagem de animais de estimação, mostrando que a tecnologia deixou o campo experimental e se tornou comercial.
Apesar da fama mundial, Dolly viveu de forma relativamente tranquila no Roslin Institute. Teve seis filhotes ao longo da vida, comprovando sua capacidade reprodutiva normal.

No entanto, sua longevidade gerou questionamentos. Dolly desenvolveu artrite em 2001 e, em 2003, foi diagnosticada com câncer pulmonar progressivo. Ela foi sacrificada em 14 de fevereiro daquele ano, aos seis anos de idade — abaixo da expectativa média para a espécie.
Críticos apontaram sua morte precoce como evidência de possíveis fragilidades em clones. Estudos posteriores, entretanto, indicaram que não houve envelhecimento acelerado anormal, e outros animais clonados apresentaram desenvolvimento considerado padrão.
Hoje, não há descendentes vivos de Dolly, e as atividades originais do Roslin Institute foram integradas à Universidade de Edimburgo. O que restou fisicamente foi o corpo taxidermizado da ovelha, exposto desde 2003 no Museu Nacional da Escócia, onde continua atraindo visitantes curiosos.
Mais do que um experimento isolado, Dolly simboliza uma virada de chave na biotecnologia moderna. Ela provou que era possível reprogramar uma célula adulta e redefinir conceitos sobre identidade genética, reprodução e manipulação biológica.
Passados 29 anos da revelação ao mundo, o impacto da ovelha escocesa ainda reverbera em laboratórios, fazendas e centros de pesquisa ao redor do planeta — lembrando que, em determinados momentos, a ciência realmente ultrapassa a ficção.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.