Do balcão das cafeterias ao consumo em casa, o café gelado avança entre jovens, movimenta bilhões, atrai investimentos das grandes marcas e desafia a hegemonia do cafezinho quente no Brasil.
Se até pouco tempo atrás pedir um café gelado em uma cafeteria brasileira soava exótico — quase uma cena importada de filmes americanos —, hoje a imagem já não causa surpresa. Copos transparentes com gelo, cold brew, iced latte e versões cremosas passaram a dividir espaço com a tradicional xícara fumegante. O café gelado deixou de ser curiosidade para se tornar um símbolo de mudança de hábito, especialmente entre jovens consumidores, e abriu uma nova frente de crescimento para toda a cadeia cafeeira.
A pergunta provocativa — “a cada dez xícaras, cinco serão geladas?” — ainda não descreve a realidade atual do consumo no Brasil. O café quente segue soberano, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). No entanto, o ritmo de crescimento do café gelado é rápido, consistente e sustentado por fatores estruturais: clima, comportamento geracional, inovação industrial e reposicionamento das grandes marcas.
Uma tendência que ganhou escala global
O avanço do café gelado não é exclusivo do Brasil. Relatórios internacionais apontam que o cold brew e outras bebidas frias tiveram crescimento de cerca de 300% em popularidade entre 2016 e 2023, segundo o National Coffee Data Trends. Nos Estados Unidos, o fenômeno já ultrapassou as cafeterias: mais de 70% das bebidas vendidas pela Starbucks são frias, e o consumo migrou fortemente para dentro de casa, com produtos prontos para beber e equipamentos específicos .
Essa mudança de eixo — do balcão para o lar — chamou a atenção de gigantes do setor. Danone e Nestlé passaram a apostar fortemente em cafés gelados prontos para consumo doméstico, lançando bebidas em garrafas, latas e soluções voltadas para preparo rápido, impulsionadas tanto pelo preço elevado do café nas cafeterias quanto pela busca por praticidade .
O cenário brasileiro: crescimento sem ruptura
No Brasil, o consumo total de café permanece elevado, com o país figurando como o segundo maior consumidor mundial, atrás apenas dos Estados Unidos. O que se observa não é uma substituição direta do café quente pelo gelado, mas uma diversificação das formas de consumo.
Estudos da Euromonitor International indicam que o segmento de café gelado cresceu 157% no Brasil entre 2019 e 2023, movimentando aproximadamente R$ 1,2 bilhão. Esse avanço ocorre mesmo em um contexto de leve retração no volume total de café consumido, atribuída principalmente à alta dos preços, e não a uma mudança radical de preferência.

Jovens no centro da transformação do consumo de café
O motor dessa virada atende por nome e sobrenome: Geração Z e Millennials. Pesquisas conduzidas pela Nielsen, a pedido da Nestlé, mostram que 18% da Geração Z consome café gelado à tarde e fora de casa, enxergando a bebida como algo que vai além do ritual matinal.
Para esse público, o café não precisa ser quente, amargo e servido em silêncio. Ele pode ser refrescante, personalizado, visualmente atraente e associado à experiência, algo que conversa diretamente com redes sociais, lifestyle urbano e novas rotinas de consumo.
Clima, inovação e conveniência
O fator climático também pesa. Em um país tropical, com temperaturas elevadas na maior parte do ano, bebidas geladas fazem sentido prático e sensorial. Cafeterias passaram a investir em receitas variadas — cold brew, iced latte, frappé, versões com chantilly e aromas diferenciados — enquanto a indústria avançou com soluções para o consumo doméstico.
Produtos específicos para preparo em casa, como cafés solúveis voltados consideravelmente para bebidas frias e opções ready to drink (RTD), ganharam espaço. Nos Estados Unidos, o café pronto para beber já se tornou a terceira forma mais popular de consumo em casa, superando até mesmo as máquinas de espresso tradicionais .
Investimentos bilionários e aposta das marcas no café gelado
Diante desse cenário, as grandes companhias aceleraram seus aportes. A Nestlé, por exemplo, anunciou que destinará cerca de R$ 1 bilhão até 2026 para inovação, com foco em novas tecnologias de torrefação, desenvolvimento de aromas inéditos e diversificação de linhas de produção — muitas delas voltadas ao consumo frio.
O objetivo é claro: acompanhar a mudança de comportamento sem perder relevância entre as novas gerações, ao mesmo tempo em que se cria valor agregado em um mercado pressionado por custos e volatilidade do grão.
Tendência forte, mas com os pés no chão
Apesar do crescimento acelerado e do entusiasmo do mercado, especialistas são cautelosos. A ideia de que metade do café consumido no Brasil será gelado ainda não se sustenta nos dados atuais. O cafezinho quente continua sendo parte da identidade cultural brasileira, presente em lares, escritórios e encontros cotidianos.
O que está em curso, no entanto, é algo igualmente relevante: o café gelado deixou de ser moda passageira para se tornar um pilar de inovação, especialmente entre jovens consumidores. Ele amplia ocasiões de consumo, cria novos produtos, movimenta bilhões e ajuda a revitalizar o mercado em um momento de desafios.
Se o futuro será meio a meio, ainda é cedo para afirmar. Mas uma coisa já está clara: o café gelado veio para ficar — e quem entendeu isso primeiro saiu na frente.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.