Abate aéreo na região de Kosciuszko e mudança na lei aceleram redução drástica dos brumbies na região alpina da Austrália, enquanto cresce o questionamento sobre alternativas como realocação, adoção e controle populacional ético.
O Parque Nacional Kosciuszko, na região alpina da Austrália, está mudando — e não apenas na paisagem. O que antes era cenário comum nas estradas e campos do parque, com cavalos selvagens circulando livremente, agora se tornou um símbolo de um dos debates ambientais mais controversos do país: o abate aéreo de milhares de brumbies (cavalos selvagens) como estratégia para conter danos ecológicos em uma das áreas naturais mais sensíveis da Austrália.
De um lado, há sinais de recuperação em pontos do parque: vegetação nativa reaparecendo, solo menos exposto, margens de riachos com menor desgaste e menos encontros perigosos com manadas paradas no asfalto. Do outro, cresce a indignação e a dúvida pública: é realmente inevitável matar em larga escala para proteger o ecossistema? Ou haveria caminhos mais humanitários — ainda que mais caros e complexos — como captura, adoção, realocação e controle de natalidade?
A discussão ganhou força após duas decisões que mudaram o rumo do manejo ambiental em Kosciuszko. Em 2023, o estado de Nova Gales do Sul autorizou abate aéreo de cavalos selvagens dentro do parque. No fim de novembro, o governo aprovou um projeto de lei para revogar o dispositivo que reconhecia os cavalos como tendo “status de patrimônio” no parque — proteção que os diferenciava de outras espécies introduzidas e invasoras.
Com a mudança, os brumbies passaram a ser tratados formalmente como qualquer outra espécie invasora, como veados, porcos, raposas e coelhos. A justificativa é restaurar consistência na gestão ambiental. Para críticos, no entanto, a medida abriu caminho para uma política de controle considerada extrema: um método rápido, letal e irreversível, que expõe a Austrália a um dilema ético cada vez mais difícil de ignorar.

O levantamento mais recente estima que restam cerca de 3.000 cavalos selvagens no Parque Nacional Kosciuszko, bem abaixo dos aproximadamente 17.000 registrados um ano antes. Desde 2021, mais de 9.000 cavalos foram abatidos no parque, em uma operação descrita por autoridades como necessária para evitar danos permanentes em ecossistemas de altitude.
O plano de gestão atual prevê manter 3.000 animais como limite — uma espécie de compromisso político entre conservação ambiental e o valor cultural atribuído aos brumbies por parte da população. O documento permanecerá em vigor até meados de 2027.
Mas o modelo baseado em um “número aceitável” também é alvo de críticas. O questionamento principal é simples: se o ecossistema precisa de décadas para se recuperar, por que o controle precisa ser feito como uma corrida imediata e letal?
No centro da disputa pública, existe uma narrativa muito repetida na Austrália: a de que os cavalos de Kosciuszko seriam descendentes de animais usados na Primeira Guerra Mundial, um argumento emocional usado para reforçar a ideia de “patrimônio histórico” e permanência desses animais no parque.
Mas essa ligação, segundo as informações mais recentes, não encontra sustentação histórica. Os cavalos utilizados na Primeira Guerra Mundial não foram devolvidos à Austrália, e não há evidências claras de que animais tenham sido retirados da população de Kosciuszko para o esforço de guerra. Além disso, os cavalos existentes na região vieram de vários lugares do país.
Na prática, a origem desses animais é mais simples — e também mais incômoda para a romantização do debate: a população de Kosciuszko descende de cavalos que escaparam de fazendas locais ou foram soltos deliberadamente.
Esse detalhe tem peso porque altera o tom da discussão. Para muitos, se os brumbies são tratados como “patrimônio”, isso deveria estar ligado a um histórico comprovado. Porém, quando a origem aponta principalmente para fuga, abandono ou soltura, a permanência passa a ser interpretada como consequência de manejo humano inadequado no passado — e não como herança de guerra.

Os brumbies são descendentes de cavalos fugitivos ou perdidos, remontando em alguns casos aos animais que pertenciam aos primeiros colonizadores europeus. Com o tempo, populações de cavalos selvagens se espalharam, e hoje eles vivem em diversas regiões do país, incluindo áreas dentro de Parques Nacionais.
E há uma característica que mostra como essa origem é miscigenada e contínua: os cavalos selvagens raramente têm tamanho, conformação ou cor uniformes.
Isso acontece por dois motivos principais:
- éguas domésticas podem escapar e se juntar às manadas de cavalos selvagens, renovando e alterando a genética do grupo;
- historicamente, os brumbies já surgiram de “tipo misto”, incluindo linhagens como Australian Draught (tipo de tração) e Puro-Sangue Inglês, o que explica por que muitos grupos apresentam aparência muito diferente de uma região para outra.
Essa variedade reforça uma leitura importante no debate atual: os brumbies, embora já estejam adaptados ao ambiente, não representam uma população “pura” ou padronizada, e sim um conjunto de animais com origens diversas, moldado por sucessivas interferências humanas.
O governo e pesquisadores sustentam que os cavalos selvagens causam impactos severos em ecossistemas alpinos frágeis. Estudos empíricos e análises por imagens de satélite indicam que os cavalos:
- reduzem a cobertura vegetal;
- degradam a estrutura do solo;
- danificam margens de rios, turfeiras e pântanos alpinos — áreas ricas em carbono formadas ao longo de dezenas de milhares de anos.
Parte do impacto vem do consumo. Cavalos normalmente ingerem cerca de 2% do peso corporal por dia, o equivalente a 8 kg diários de gramíneas e ervas alpinas de crescimento lento. Para comparação, o canguru-cinzento-oriental, considerado o maior herbívoro nativo da região, consome aproximadamente 600 gramas por dia — uma diferença de cerca de 13 vezes.
Mas o maior estrago, segundo especialistas, está nos cascos. Cavalos podem caminhar até 50 km por dia, e seus pés compactam solos turfosos profundos e destroem camadas de musgo esfagno. Esses ambientes funcionam como esponjas de liberação lenta de água, armazenando o degelo e sustentando riachos durante todo o verão.
Ao contrário de wombats e cangurus, os cavalos também costumam seguir uns aos outros em fila, criando trilhas profundas que cruzam pradarias alpinas e aceleram a erosão.

Ainda assim, críticos insistem que reconhecer o dano ambiental não significa aceitar automaticamente o abate aéreo como solução central. A crítica principal é que, ao optar pelo método mais rápido, o poder público pode estar ignorando alternativas que reduziriam o sofrimento animal e diminuiriam a reação social.
As alterações provocadas pelos cavalos afetam todo o ecossistema alpino. Espécies nativas como lagartos alpinos, ratos-de-dentes-largos, rãs-corroboree, gambás-pigmeus-da-montanha e peixes nativos dependem de vegetação densa, musgos intactos e riachos sem sedimentos — justamente os pontos mais pressionados pelo pisoteio e erosão.
Os cursos d’água são particularmente sensíveis. Os Alpes Australianos fornecem quase um terço da água superficial que entra na bacia Murray-Darling, e o pisoteio ao redor dos riachos turva a água e desestabiliza os fluxos lentos e constantes de que as bacias dependem.
Os impactos também não ficam apenas no parque. Nos últimos anos, cavalos migraram para áreas adjacentes, incluindo florestas estaduais, onde a perturbação agrava efeitos de exploração madeireira e aumenta riscos para visitantes e campistas.
Além de Kosciuszko, estima-se que quase meio milhão de cavalos selvagens afetem paisagens em toda a Austrália, com destaque para florestas tropicais e pastagens semiáridas.

Pesquisadores relatam observar menos cavalos durante o trabalho de campo, além de pequenos focos de vegetação reaparecendo em áreas antes degradadas. Margens antes erodidas começam a parecer mais suaves, e as estradas alpinas ficam menos perigosas com menor chance de encontrar manadas paradas no asfalto.
Essas observações, porém, ainda não são tratadas como prova definitiva. Especialistas alertam que é preciso monitoramento contínuo e estudos de longo prazo para medir mudanças reais, identificar áreas críticas e definir ações de restauração direcionadas.
Mesmo com o discurso ambiental forte, a decisão política de intensificar o abate — especialmente por via aérea — continua dividindo a Austrália. Para uma parcela da população, o método ultrapassa a linha da necessidade e entra no campo do excesso: um controle que prioriza eficiência operacional acima de soluções de convivência e mitigação gradual.
A pergunta que segue alimentando protestos e críticas é direta:
Se os cavalos chegaram ali por ação humana — fuga, abandono ou soltura — por que a resposta final precisa ser a eliminação em massa, e não um plano robusto de remoção e realocação?
Alternativas como captura, adoção, realocação e controle reprodutivo são frequentemente citadas como caminhos possíveis. Os defensores do abate alegam que tais medidas são caras, demoradas e insuficientes para um problema grande. Já os críticos respondem que custo e logística não podem ser desculpa para transformar o abate em padrão, principalmente em um parque que também carrega valor cultural.
No fim, Kosciuszko se tornou mais do que um caso ambiental: virou um retrato do conflito entre conservação e ética, entre urgência ecológica e responsabilidade sobre a vida animal.
E enquanto o parque dá sinais de “respirar” novamente, a sociedade australiana ainda tenta responder: o preço dessa recuperação foi inevitável — ou apenas o caminho mais fácil?
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