Acesso do gado ao rio pode virar crime ambiental e satélite já fiscaliza, multa chega a R$ 5 mil/ha

Código Florestal permite que o gado pode beber água no rio em Área de Preservação Permanente (APP), mas excesso de pisoteio e destruição da mata ciliar podem transformar prática comum em infração com multa pesada e até processo criminal

A cena é comum em milhares de propriedades rurais no Brasil: o rebanho descendo até o rio para matar a sede. O que muitos produtores ainda não sabem é que essa prática pode gerar multa mínima de R$ 5.000 por hectare, embargo da área e até responsabilização criminal — dependendo de como ela é conduzida. O ponto central não é se o gado pode ou não beber água no rio. A questão é como isso está sendo feito.

O alerta tem base no Código Florestal Brasileiro, que no Artigo 9º permite o acesso de animais à APP para dessedentação. Porém, a própria lei classifica essa atividade como de baixo impacto ambiental. E é exatamente aí que mora o risco.

Conforme explicado em orientação técnica recente, quando há grande número de animais com acesso livre e diário à margem, causando pisoteio constante e destruição da vegetação ciliar, a prática deixa de ser simples dessedentação e passa a ser caracterizada como pecuária dentro de APP.

O que a lei realmente permite

O Código Florestal Brasileiro não proíbe o gado de beber água em rios ou córregos dentro da propriedade. O que ele determina é que:

  • A atividade não pode comprometer a função ambiental da APP;
  • Não pode haver degradação da mata ciliar;
  • Não pode ocorrer exploração produtiva da área protegida.

Ou seja, a permissão existe, mas é condicionada à preservação ambiental.

Quando 150, 200 ou mais cabeças acessam diariamente a margem sem cercamento, ocorre:

  • Compactação do solo;
  • Erosão;
  • Assoreamento do curso d’água;
  • Destruição da vegetação nativa.

Nesse cenário, o produtor pode ser autuado por dano ambiental.

Multa de R$ 5 mil por hectare e risco criminal

As penalidades estão previstas no Decreto 6514/2008, que regulamenta infrações administrativas ambientais. A multa para degradação de APP pode partir de R$ 5.000 por hectare ou fração, podendo aumentar conforme:

  • Extensão do dano;
  • Reincidência;
  • Grau de degradação.

Além disso, a conduta pode se enquadrar na Lei de Crimes Ambientais, com possibilidade de:

  • Processo criminal;
  • Multa adicional;
  • Obrigação de recuperação da área;
  • Embargo da atividade.

Fiscal não precisa mais aparecer na fazenda

Um dos pontos que mais chama atenção atualmente é o uso de tecnologia na fiscalização ambiental. Órgãos estaduais e federais utilizam:

Isso significa que a degradação da APP pode ser detectada remotamente, sem necessidade imediata de vistoria presencial. A frase que vem sendo repetida por especialistas é clara: “O satélite já está vendo.”

Por que a mata ciliar é tão protegida?

A APP ao redor de rios e nascentes não existe por burocracia. Ela cumpre funções essenciais:

  • Protege contra erosão;
  • Mantém a qualidade da água;
  • Evita assoreamento;
  • Preserva biodiversidade;
  • Garante estabilidade das margens.

Quando a vegetação é destruída pelo pisoteio intenso, o impacto não é apenas ambiental — pode afetar diretamente a produtividade da propriedade.

gado pode beber agua no rio
Acesso do gado ao rio pode virar crime ambiental. Foto: Rubens Ferreira/Fotodeboi

Como resolver antes da multa

Especialistas recomendam soluções técnicas simples e eficazes:

✔ Corredor cercado até a água

  • Isolamento da APP com cerca;
  • Acesso controlado por passagem delimitada;
  • Redução do impacto nas margens.

✔ Bebedouro no pasto

  • Captação regularizada de água;
  • Distribuição em cochos;
  • Preservação integral da mata ciliar.

Além de reduzir risco jurídico, essas práticas melhoram:

  • Sanidade animal;
  • Qualidade da água;
  • Conservação do solo;
  • Sustentabilidade da fazenda.

Acesso do gado ao rio pode virar crime ambiental? Dessedentação não é pecuária em APP

A diferença é técnica, mas pode custar caro. Permitir o acesso eventual e controlado para matar a sede é uma coisa. Manter rebanho permanente degradando a margem é outra completamente diferente. Com fiscalização cada vez mais digital e integração de dados ambientais, a regularização preventiva se tornou questão de gestão de risco.

A pergunta que fica para o produtor é direta: Você vai resolver antes ou depois da multa?

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