Tratado histórico promete abrir mercados e impulsionar o agronegócio sul-americano, com foco em carnes, grãos e agroindústria; depois de anos de negociações, exportadores ganham previsibilidade e acesso ampliado ao mercado europeu.
A União Europeia aprovou o acordo comercial com o Mercosul, encerrando um dos processos de negociação mais longos e complexos da história recente do comércio internacional. Costurado ao longo de mais de duas décadas, o entendimento começou a ser discutido no fim dos anos 1990 e atravessou diferentes contextos políticos, crises econômicas globais, mudanças de governo e uma série de impasses técnicos e diplomáticos.
Questões ambientais, exigências sanitárias, proteção a setores sensíveis da indústria europeia e preocupações com a concorrência agrícola estiveram entre os principais obstáculos que retardaram a conclusão do acordo. Ainda assim, após anos de ajustes, revisões e compromissos adicionais, especialmente relacionados à sustentabilidade e rastreabilidade, o tratado avançou e recebeu o aval do bloco europeu.
Para o agronegócio brasileiro e dos demais países do Mercosul, o acordo representa uma abertura estratégica de mercado. A União Europeia é um dos maiores importadores mundiais de alimentos e produtos agroindustriais, com alto poder aquisitivo e padrões rigorosos de qualidade. A redução ou eliminação de tarifas tende a ampliar a competitividade dos produtos sul-americanos, ao mesmo tempo em que oferece maior previsibilidade comercial aos exportadores.
Um dos setores mais beneficiados deve ser o de carnes. Acordos de cotas e redução tarifária para carnes bovina, suína e de aves abrem espaço para aumento das exportações, especialmente de cortes de maior valor agregado. O Brasil, que já é um dos principais fornecedores globais de proteína animal, passa a ter melhores condições para disputar mercado com outros grandes exportadores, desde que cumpra as exigências sanitárias e ambientais impostas pela União Europeia.
O setor de grãos e derivados também tende a ganhar relevância. Soja, milho e subprodutos utilizados na alimentação animal encontram na Europa um mercado demandante, sobretudo em um cenário de transição energética e busca por fontes alternativas de proteína vegetal. A agroindústria de processamento, como a de farelo e óleo, pode se beneficiar indiretamente com o aumento do fluxo comercial e a valorização de cadeias mais estruturadas.
Outro destaque é o complexo sucroenergético. Açúcar e etanol figuram entre os produtos com potencial de expansão, principalmente o etanol de cana-de-açúcar, visto como uma alternativa mais sustentável em relação aos combustíveis fósseis. A abertura do mercado europeu pode estimular investimentos, modernização industrial e ganhos de escala no setor.
A cadeia de frutas, café e produtos florestais também aparece entre as beneficiadas. Frutas frescas e processadas, café verde e industrializado, além de celulose e papel, encontram na União Europeia um mercado tradicional, mas ainda com espaço para crescimento. A redução de barreiras tarifárias e o fortalecimento de regras comuns tendem a facilitar o acesso e reduzir custos logísticos e burocráticos.
Para a agroindústria, o acordo vai além da exportação de commodities. Há expectativa de estímulo à agregação de valor, à certificação de origem, à rastreabilidade e ao cumprimento de padrões ambientais e sociais, o que pode elevar o patamar de competitividade do agronegócio do Mercosul no cenário global. Ao mesmo tempo, o tratado impõe desafios, exigindo do produtor e das indústrias adaptação a normas mais rígidas e maior transparência nos processos produtivos.
Em síntese, a aprovação do acordo entre União Europeia e Mercosul marca uma mudança relevante no comércio internacional do agro. Se bem aproveitado, o tratado pode ampliar mercados, diversificar exportações e fortalecer cadeias produtivas estratégicas, consolidando o agronegócio sul-americano como um dos principais fornecedores de alimentos e bioenergia para o mundo.
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