Depois de perder os movimentos aos 19 anos, fazendeira paraplégica adapta a propriedade, supera barreiras físicas e se torna símbolo de resiliência no campo.
A rotina no campo costuma exigir vigor físico, resistência e longas jornadas de trabalho — características que, à primeira vista, poderiam parecer incompatíveis com a vida de uma pessoa com deficiência motora severa. No entanto, a história da fazendeira australiana Catarina Reed prova justamente o contrário. Após sofrer um grave acidente a cavalo aos 19 anos que a deixou paraplégica, ela reconstruiu sua trajetória pessoal e profissional e segue como peça central na administração de uma propriedade rural produtiva na Tasmânia.
Localizada nas proximidades de Launceston, a fazenda de 93 hectares é conduzida por Catarina ao lado do marido, Tim, e dos dois filhos. No local, a família se dedica à criação de gado Angus, conhecido mundialmente pela qualidade da carne, e também de cabras anãs, atividade que exige manejo cuidadoso e atenção constante.
Mais do que manter o negócio funcionando, Reed se tornou um exemplo de adaptação no agro — setor tradicionalmente associado à força física — ao mostrar que gestão, planejamento e inteligência operacional são tão decisivos quanto o trabalho braçal.
Depois do acidente, um dos primeiros desafios foi tornar a propriedade acessível. Para continuar presente nas atividades diárias, a estrutura da fazenda passou por mudanças estratégicas.
Entre as principais adaptações está a instalação de antecâmaras no cercado das cabras, solução que aumenta a segurança no manejo e reduz a necessidade de deslocamentos complexos. Outro cuidado foi garantir que portões abram e fechem com facilidade, evitando esforços desnecessários e ampliando sua independência dentro da propriedade.

As modificações mostram como a infraestrutura rural pode — e muitas vezes deve — ser ajustada para atender diferentes realidades, tema que ganha relevância à medida que o agro debate sucessão familiar, inclusão e permanência de produtores no campo.
Apesar dos avanços, o dia a dia ainda apresenta obstáculos. Catarina consegue dirigir utilizando controles manuais adaptados, o que amplia sua mobilidade e participação nas operações da fazenda. No entanto, deslocar-se em terrenos irregulares continua sendo um grande teste de resistência.
Superfícies comuns no meio rural, como cascalho, lama ou gramados, tornam o uso da cadeira de rodas fisicamente desgastante. O esforço constante demanda energia extra e exige organização da rotina para evitar sobrecarga.
Ainda assim, as limitações não a afastaram das decisões estratégicas do negócio. Reed permanece intelectualmente ativa na gestão da propriedade, acompanhando tarefas, planejando atividades e participando diretamente da criação dos animais.
Se o trabalho operacional precisou ser adaptado, a liderança nunca saiu de suas mãos. Catarina segue envolvida no planejamento produtivo e na organização das atividades, reforçando um conceito cada vez mais presente no agro moderno: propriedades eficientes dependem tanto de gestão quanto de execução.
Sua atuação demonstra que o papel do produtor rural vai muito além do esforço físico, envolvendo análise, tomada de decisão e visão de longo prazo — competências que independem de limitações motoras.
Além das barreiras práticas, Reed também enfrentou um processo emocional profundo após o acidente. Ela já falou abertamente sobre o luto pela perda da mobilidade e pelas mudanças abruptas em sua vida.

A adaptação psicológica foi tão importante quanto as transformações estruturais da fazenda. Reconstruir a identidade, redefinir objetivos e aceitar uma nova realidade fizeram parte de um caminho marcado por resiliência.
Especialistas frequentemente destacam que acidentes incapacitantes provocam não apenas impactos físicos, mas também sociais e emocionais — especialmente para quem vive em ambientes onde autonomia é essencial.
Redefinindo a percepção sobre deficiência no campo
Mais do que administrar uma propriedade rural, Catarina Reed assumiu também um papel simbólico. Ela busca desafiar a forma como a sociedade enxerga a deficiência, ressaltando que a condição não precisa ser sinônimo de tragédia ou fim de uma carreira.
Sua trajetória reforça uma mensagem poderosa: com adaptações adequadas, apoio familiar e determinação, é possível construir uma vida produtiva e significativa mesmo após mudanças radicais.
Em um setor cada vez mais tecnológico e orientado por gestão, histórias como a de Reed ampliam o debate sobre acessibilidade no agro, inclusão e novas formas de produzir.
Resiliência que inspira o agro global
A experiência da fazendeira australiana evidencia que o campo também pode ser um espaço de reinvenção. Ao transformar obstáculos em estratégias e limitações em aprendizado, Catarina não apenas manteve a fazenda ativa — ela redefiniu o que significa continuar produzindo diante da adversidade.
Sua história atravessa fronteiras e serve de inspiração para produtores do mundo inteiro ao lembrar que, no agro, a força que sustenta uma propriedade nem sempre está nos músculos — muitas vezes, está na capacidade de se adaptar e seguir em frente.
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