Após decretar falência, Justiça argentina coloca ativos da tradicional cooperativa SanCor à venda por US$ 52,1 milhões, em um movimento que expõe o colapso de um dos maiores símbolos da indústria leiteira sul-americana.
A crise de uma das empresas mais emblemáticas da cadeia leiteira da América do Sul acaba de entrar em seu capítulo mais decisivo. A Justiça da província de Santa Fe, na Argentina, autorizou oficialmente a venda dos ativos da tradicional cooperativa SanCor, cuja falência foi decretada há cerca de dois meses, dando início a um processo de liquidação que pode redesenhar parte importante do setor lácteo argentino.
O processo envolve a venda de fábricas, instalações industriais, marcas históricas e linhas de produtos da companhia, com valor mínimo estipulado em US$ 52,1 milhões. O caso não chama atenção apenas pelo tamanho da operação, mas principalmente pelo peso simbólico da SanCor, que durante décadas figurou entre as maiores referências da indústria leiteira da Argentina e chegou a representar um dos pilares do cooperativismo agroindustrial no continente.
O episódio também acende um sinal de alerta para o agronegócio regional, especialmente em um momento em que toda a cadeia global de lácteos enfrenta aumento de custos, pressão sobre margens, reorganização industrial e mudanças importantes no consumo internacional.
A decisão foi formalizada por meio de resolução assinada pelo juiz civil e comercial de Rafaela, Marcelo Gelcich, responsável por conduzir o processo judicial que levou a cooperativa à falência em abril deste ano.
A própria empresa havia solicitado sua quebra após um longo período de deterioração financeira, que culminou em um quadro de insolvência considerado irreversível. Antes disso, a cooperativa já vinha enfrentando atrasos salariais, dificuldades operacionais, redução drástica da produção e uma dívida estimada em cerca de US$ 120 milhões, além de aproximadamente oito meses de salários em aberto.
Fundada em 1938, a SanCor chegou a ser uma potência industrial no setor lácteo argentino, processando milhões de litros de leite diariamente e dominando grande parte das exportações do país. Nos últimos anos, porém, sucessivas crises econômicas, problemas de gestão, endividamento e perda de competitividade aceleraram seu colapso.
O processo de venda foi dividido em dois grandes grupos de ativos.
O primeiro reúne as seis plantas industriais ainda pertencentes à cooperativa no momento da falência, localizadas entre as províncias de Santa Fe e Córdoba.
Essas unidades receberam avaliação mínima conjunta de US$ 27,4 milhões.
Entre os principais ativos estão:
- Planta de Devoto, avaliada em US$ 7 milhões, especializada em leite em pó, manteiga e creme de leite;
- Unidade de Gálvez, avaliada em US$ 5,5 milhões, voltada ao fracionamento e embalagem de produtos;
- Plantas de La Carlota e Balnearia, avaliadas em US$ 5 milhões cada;
- Unidade de San Guillermo, especializada em queijos, avaliada em US$ 2,5 milhões;
- Planta de Sunchales, recentemente atingida por incêndio, estimada em US$ 2,4 milhões.
A venda ocorrerá por meio de licitação pública separada por lotes, permitindo aquisição individual das unidades.
Mesmo diante da quebra, a marca SanCor continua sendo um dos ativos mais valiosos da operação.
Os chamados ativos intangíveis receberam avaliação mínima de US$ 24,7 milhões, sendo:
- US$ 18,7 milhões atribuídos exclusivamente à marca principal SanCor;
- Outros US$ 6 milhões referentes a submarcas e linhas complementares.
Entre essas marcas aparecem produtos tradicionalmente conhecidos no mercado argentino, como:
- Mendicrim
- Tolem
- Quesabores
Isso mostra um aspecto importante frequentemente ignorado no agronegócio industrial: mesmo quando a operação física colapsa, o valor comercial e reputacional das marcas continua sendo altamente estratégico para potenciais compradores.
O processo vem despertando forte interesse dentro da indústria alimentícia argentina.
No fim de maio, o juiz responsável promoveu uma reunião na sede central da cooperativa, em Sunchales, para apresentar detalhes da operação a grupos interessados.
Ao menos seis empresas ou grupos empresariais participaram das discussões preliminares.
Entre os nomes que surgem como potenciais compradores estão:
- Savencia, gigante francesa dona de marcas como Milkaut e Adler;
- Adecoagro, controladora de diversas marcas alimentícias e uma das maiores companhias agroindustriais da região;
- Punta del Agua SA;
- Elcor SA, responsável pela marca La Tonadita;
- La Tarantela.
A movimentação reforça que, apesar do colapso financeiro da cooperativa, seus ativos continuam extremamente atrativos para grupos que desejam ampliar participação no setor de lácteos sul-americano.
O caso SanCor vai muito além de uma falência corporativa.
Ele simboliza uma transformação profunda que vem ocorrendo na indústria global de lácteos.
Nos últimos anos, o setor passou a enfrentar uma combinação complexa de fatores:
- aumento dos custos de produção;
- pressão inflacionária global;
- elevação dos custos logísticos;
- consolidação industrial;
- maior concentração de mercado nas mãos de grandes grupos multinacionais;
- redução da margem dos produtores independentes.
Na América do Sul, especialmente em países como Brasil, Argentina e Uruguai, a competitividade do leite tem sido cada vez mais pressionada por custos internos elevados e pela necessidade crescente de ganhos em escala.
Para o produtor rural, a mensagem é clara: eficiência produtiva, gestão financeira rigorosa e competitividade industrial passaram a ser fatores ainda mais determinantes para sobrevivência no setor.
Embora o caso esteja concentrado na Argentina, o mercado brasileiro acompanha a situação com atenção.
A Argentina segue sendo um importante player regional em lácteos, especialmente em derivados e exportações para mercados vizinhos.
Uma eventual redistribuição desses ativos pode alterar fluxos comerciais, fortalecer concorrentes regionais e gerar novas oportunidades de investimento no setor leiteiro sul-americano.
Mais do que o fim de uma empresa histórica, a crise da SanCor representa um retrato bastante claro de como até mesmo gigantes tradicionais do agronegócio podem entrar em colapso quando deixam de acompanhar transformações estruturais profundas do mercado.
E essa talvez seja a principal lição que toda cadeia leiteira da região precisa observar com atenção daqui para frente.
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