Nova regulamentação abre caminho para qualificação técnica, mercado de trabalho e estruturação do cultivo de cannabis medicinal no país
A regulamentação mais recente envolvendo o cultivo de cannabis para fins medicinais no Brasil começa a gerar reflexos práticos no setor. Após decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que determinou a regulamentação da produção industrial da planta, entidades e associações passaram a enxergar uma nova etapa: a da profissionalização da cadeia produtiva.
Nesse contexto, a associação de pesquisa Accura anunciou que prepara o lançamento de uma escola voltada à formação técnica e à educação sobre cannabis, com previsão de início ainda no primeiro semestre de 2026 .
A iniciativa surge em um momento considerado estratégico. Com a ampliação do debate regulatório e a necessidade de organização da produção medicinal, cresce a demanda por mão de obra capacitada — algo que, segundo representantes do setor, ainda é escasso no Brasil.
Profissionalização ganha força com nova decisão judicial
A decisão do STJ determinou que o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) avancem na regulamentação da produção industrial de cannabis medicinal . O movimento reforça a necessidade de estruturar o setor, tanto do ponto de vista produtivo quanto técnico.
Segundo a presidente da Accura, Paula Cardoso Zomignani, a regulamentação amplia a urgência de capacitar associações, pacientes e até a indústria, que precisará de profissionais preparados para atuar na operação do cultivo, no processamento e no controle de qualidade .
De acordo com ela, ainda não há no país uma formação estruturada que prepare pessoas para atuar com domínio técnico sobre a planta, suas aplicações, histórico e exigências legais. A proposta da escola, portanto, é preencher essa lacuna.
Como funcionará a escola para formação de profissionais de cannabis
O projeto educacional será estruturado em cinco frentes principais:
- Formação do paciente
- Associativismo
- Cultivo
- Extrações
- Mercado de oportunidades
A proposta é oferecer capacitação desde o plantio e manejo da planta até técnicas de extração e análise de mercado. O objetivo é atender perfis distintos: desde pacientes que buscam autonomia no tratamento até profissionais interessados em atuar em laboratório, campo ou em associações .
O modelo será híbrido. Parte das aulas será online, permitindo alcance nacional, enquanto workshops presenciais ocorrerão na sede da associação, que conta com estrutura de cultivo e laboratório próprio . As gravações das aulas já começaram e a expectativa é que o lançamento ocorra até junho de 2026 .
A estrutura inclui ainda uma mini fazenda urbana, utilizada para práticas e demonstrações técnicas , reforçando o caráter aplicado da formação.
Setor ainda enfrenta desafios regulatórios
Apesar do avanço judicial, o ambiente regulatório ainda está em construção. Em um primeiro momento, entidades sem fins lucrativos relataram que não haviam sido convidadas a participar das discussões sobre a regulamentação .
Posteriormente, com mudanças na diretoria da Anvisa, o tema voltou à pauta, permitindo maior prazo para a elaboração de regras que contemplem diferentes segmentos da cadeia .
O cenário atual é descrito por representantes do setor como um “oceano azul” — um mercado com grande potencial, mas que exige conhecimento técnico, responsabilidade e adequação às normas sanitárias e agrícolas.
Impactos para o agronegócio e a economia
A criação de uma escola voltada exclusivamente à cannabis medicinal indica que o setor começa a se estruturar de forma mais profissional no Brasil. Para o agronegócio, trata-se de um segmento ainda incipiente, mas com potencial de gerar:
- Novas cadeias produtivas especializadas
- Demanda por técnicos agrícolas e laboratoriais
- Investimentos em pesquisa e desenvolvimento
- Geração de empregos qualificados
Com a regulamentação em andamento e o avanço da formação técnica, o cultivo medicinal tende a sair da informalidade para um modelo mais estruturado e fiscalizado, aproximando-se de padrões internacionais.
A iniciativa da Accura sinaliza que a fase atual do setor não é apenas de debate jurídico, mas de preparação concreta para um novo mercado regulado, onde conhecimento técnico pode ser o diferencial decisivo para associações, produtores e futuros profissionais.
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