Entidades do setor automotivo e de motocicletas afirmam que mudança proposta pelo governo não pode ocorrer sem testes técnicos completos; jornalista e engenheiro Boris Feldman acusa governo de ignorar exigências legais
A proposta do governo federal de elevar de 30% para 32% o teor de etanol anidro na gasolina voltou a gerar forte reação de entidades ligadas ao setor automotivo brasileiro. Representantes das montadoras, fabricantes de autopeças, importadores e, principalmente, da indústria de motocicletas passaram a contestar publicamente a medida, alegando ausência de testes técnicos completos que comprovem a segurança e a viabilidade da mudança.
As críticas ganharam ainda mais repercussão após declarações do jornalista automotivo e engenheiro Boris Feldman, que acusou o governo federal de tentar impor o aumento do percentual de etanol “na marra”.
Segundo Feldman, a afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que os testes necessários já teriam sido realizados “não corresponde à realidade”.
“O presidente Lula disse que os testes já foram realizados. É mentira”, afirmou Boris Feldman ao comentar o tema.
A reação envolve entidades como a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), a Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa) e a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo).
Entre elas, a posição mais contundente partiu justamente da Abraciclo, que enviou manifestação ao Ministério de Minas e Energia questionando a elevação do teor de etanol sem a conclusão dos ensaios previstos na legislação.
De acordo com a entidade, a adoção do E30 já provocou problemas em determinadas situações, especialmente em motocicletas. Entre os principais relatos estão dificuldades de partida em temperaturas mais baixas e falhas na retomada de aceleração — situação que, segundo o setor, pode comprometer diretamente a segurança dos motociclistas.
Feldman reforçou esse alerta ao afirmar que os impactos nas motos tendem a ser mais severos do que nos automóveis. “Muito mais graves no caso da moto do que no caso do automóvel”, destacou o jornalista.
Outro ponto levantado pelas entidades diz respeito à responsabilidade técnica sobre eventuais danos mecânicos. O argumento é que os veículos atualmente em circulação foram desenvolvidos dentro de parâmetros específicos de combustível. Caso o teor de etanol seja ampliado além do originalmente previsto pelos fabricantes, surgem dúvidas sobre quem responderia por possíveis prejuízos aos consumidores.
“Vai dar um problema na moto por culpa do combustível, porque ela não foi projetada para 32% ou 35% de etanol. Mas e aí? A fábrica é responsável por um problema provocado pelo combustível?”, questionou Feldman.
Apesar das críticas, as entidades fazem questão de afirmar que não são contrárias ao uso de biocombustíveis. O próprio setor automotivo reconhece a importância estratégica do etanol para a matriz energética brasileira e para a redução de emissões. O impasse, segundo os representantes da indústria, está na implementação da medida sem que sejam concluídos testes de durabilidade, compatibilidade de componentes e dirigibilidade.
A Abraciclo argumenta ainda que a própria Lei do Combustível do Futuro estabelece que o aumento do teor de biocombustíveis depende da comprovação de viabilidade técnica por meio de ensaios específicos.
“Sem realizar estes testes, não é possível aumentar o etanol na gasolina”, sustenta a entidade.
O debate em torno do E32 deve se intensificar nas próximas semanas, principalmente diante da pressão do setor produtivo e da preocupação crescente sobre os impactos técnicos, econômicos e de segurança que a mudança pode provocar na frota brasileira.
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