Projeto da batata de baixo carbono no Paraná une produtor, indústria e multinacionais para reduzir emissões, aumentar produtividade e transformar uma das cadeias mais intensivas do agro
A transição da agricultura brasileira rumo a modelos mais sustentáveis começa a ganhar forma concreta dentro das lavouras — e não apenas no discurso. Reportagem publicada pela Forbes Brasil mostra que, no município de Palmas (PR), produtores já iniciaram a colheita das primeiras batatas de baixo carbono do país, resultado de um projeto piloto que une tecnologia, indústria e práticas regenerativas.
O protagonista dessa mudança é o produtor Sérgio Soczek, de 67 anos, agricultor de quarta geração, que começa a colher uma safra cultivada com fertilizantes de menor intensidade de carbono — um movimento que, na prática, reposiciona uma das cadeias mais tecnificadas e caras do hortifruti nacional.
Segundo ele, o desafio atual vai além da produtividade: “produzir mais, em menos área, com maior rentabilidade e sustentabilidade”, refletindo uma nova lógica que passa a orientar o agro moderno.
Batata de baixo carbono: Projeto envolve gigantes e aposta em descarbonização
A iniciativa reúne seis produtores no Paraná e é conduzida em parceria com a norueguesa Yara e a gigante global de alimentos PepsiCo. Ao todo, a área piloto soma 130 hectares, sendo 35 hectares apenas de Soczek. O diferencial está no uso de fertilizantes com até 90% menos emissão de carbono, o que permite reduzir em cerca de 40% as emissões de gases de efeito estufa na produção.
Para as empresas envolvidas, essa estratégia faz parte de um movimento maior: a construção de uma agricultura regenerativa, capaz de recuperar o solo, aumentar a biodiversidade e capturar carbono. Além do Brasil, o projeto da batata de baixo carbono já avança em outros países da América Latina, com expectativa de beneficiar mais de 20 produtores em cerca de 700 hectares cultivados.
Pressão global por sustentabilidade acelera mudanças
O avanço desse tipo de tecnologia não é isolado. Dados da FAO mostram que a agropecuária global responde por cerca de 20% das emissões de gases de efeito estufa, sendo que os fertilizantes representam aproximadamente 11% desse total dentro do setor.
Diante desse cenário, a pressão por práticas mais sustentáveis cresce — principalmente em cadeias ligadas a grandes indústrias de alimentos.
A própria PepsiCo, por exemplo, já estabeleceu meta de aplicar práticas regenerativas em 4 milhões de hectares até 2030, incluindo culturas como milho, trigo, aveia, cacau e batata.
No Brasil, a empresa compra cerca de 450 mil toneladas de produtos agrícolas por ano, sendo aproximadamente 120 mil toneladas apenas de batata.
Cultura da batata: alta tecnologia e custo elevado
A escolha da batata como ponto de partida não é por acaso. Trata-se de uma das culturas mais exigentes do agro brasileiro, tanto em tecnologia quanto em investimento.
Segundo dados citados na reportagem:
- O Brasil produz entre 3,8 e 4,2 milhões de toneladas por ano
- A produtividade média gira entre 31,5 e 33 toneladas por hectare
- Em áreas altamente tecnificadas, pode superar 45 t/ha
Além disso, o custo de produção pode chegar a R$ 70 mil por hectare, com fertilizantes, sementes e defensivos representando mais da metade desse valor.
É justamente nesse ponto que entra a nova tecnologia: reduzir custos e aumentar eficiência.
Eficiência econômica vem antes da sustentabilidade
Apesar do apelo ambiental, no campo a decisão passa primeiro pelo bolso. E os resultados iniciais mostram ganhos concretos.
Com o novo modelo, o produtor relata:
- Redução significativa no uso de fertilizantes (quase pela metade)
- Aumento de produtividade e qualidade (matéria seca)
- Melhora na rentabilidade final
Atualmente, o preço médio gira em torno de R$ 2.400 por tonelada, podendo ter acréscimo de até R$ 250 por tonelada quando há maior teor de matéria seca — característica essencial para a indústria de chips.
A meta do produtor é ambiciosa: sair de cerca de 30–32 t/ha para até 40 t/ha na indústria, e atingir até 50 t/ha na batata de mesa.
Tecnologia muda a origem do fertilizante
O avanço tecnológico está na própria produção do fertilizante. A inovação substitui o hidrogênio de origem fóssil (gás natural) por fontes renováveis, como:
- Energia elétrica via eletrólise da água
- Biometano
O resultado é um produto com a mesma eficiência agronômica, porém com muito menor impacto ambiental.
Desafio: custo mais alto e impacto da geopolítica
Apesar dos benefícios, há um obstáculo relevante: o custo mais elevado dos fertilizantes de baixo carbono.
E esse cenário se agrava com fatores externos. A reportagem destaca que a Guerra no Oriente Médio pressionou fortemente os preços:
- Ureia chegou a US$ 710/t, com alta de 50% em 30 dias
- MAP subiu 17%, chegando a US$ 850/t
Para viabilizar o projeto, a PepsiCo tem subsidiado a diferença de custo, garantindo que o produtor tenha apenas os ganhos de produtividade e sustentabilidade, sem impacto financeiro negativo.
Batata de baixo carbono: O que vem pela frente
A primeira safra da batata de baixo carbono ainda está em fase de validação, e os resultados devem orientar a expansão do projeto a partir de 2026. A estratégia não é criar um nicho isolado, mas sim elevar o padrão de toda a cadeia produtiva.
No campo, a leitura é clara:
a sustentabilidade só avança quando fecha a conta.
E no caso da batata — uma cultura de alto custo, alta tecnologia e margens apertadas — a descarbonização não começa pelo discurso ambiental, mas pela eficiência produtiva e econômica.
Se os resultados se confirmarem, o modelo pode marcar o início de uma nova fase no agro brasileiro, onde produtividade e sustentabilidade caminham juntas — e deixam de ser conceitos opostos.
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