Pesquisa da Embrapa aponta solução simples e de baixo custo para reduzir prejuízos sanitários e aumentar o bem-estar na criação leiteira, bebedouro com bico reduz mamada cruzada nos bezerros
A busca por sistemas mais eficientes e sustentáveis na pecuária leiteira tem levado produtores a rever práticas tradicionais de manejo, principalmente na fase inicial de criação dos bezerros. Um dos desafios mais recorrentes nas propriedades é a chamada mamada cruzada, comportamento que compromete a saúde dos animais e pode gerar prejuízos futuros à produtividade do rebanho.
Estudo conduzido pela Embrapa, em parceria com universidade brasileira, demonstrou que o uso de bebedouros equipados com bico artificial reduz de forma significativa esse problema comportamental, trazendo impactos positivos no bem-estar animal sem comprometer o desempenho produtivo.
A pesquisa reforça que, muitas vezes, pequenas adaptações estruturais podem gerar grandes resultados no campo, especialmente em sistemas de criação coletiva, modelo cada vez mais adotado por propriedades que buscam reduzir custos e otimizar o manejo.
Instinto natural mal direcionado
A mamada cruzada ocorre quando bezerros passam a sugar uns aos outros, principalmente após a ingestão do leite. O comportamento tem origem no instinto natural de sucção, que permanece ativo mesmo após a alimentação.
Em sistemas modernos de produção, a separação precoce da vaca e a oferta de leite em horários definidos limitam a oportunidade de o animal exercer esse instinto ao longo do dia. Sem estímulo adequado, o bezerro redireciona a sucção para colegas do lote .
As consequências podem ser graves. Entre os principais problemas associados estão:
- Inflamações no umbigo
- Formação de bolas de pelo no trato digestivo
- Lesões no úbere de futuras fêmeas leiteiras
- Maior risco de mastite na vida adulta
Em casos extremos, os danos podem ser irreversíveis, afetando diretamente a produtividade futura do animal.
Resultados práticos no manejo
O estudo comparou grupos de bezerros criados coletivamente, tanto a pasto quanto em sistemas confinados. Nos testes, animais que tinham acesso apenas a baldes abertos apresentaram quase o dobro de episódios de sucção cruzada em comparação aos que utilizavam bebedouros com bico .
A diferença está na forma de ingestão da água. O bico artificial exige que os bezerros sugue lentamente, estimulando a salivação e promovendo uma sensação de saciedade semelhante à mamada natural .
Observou-se ainda que os bezerros utilizavam o equipamento inclusive durante a noite, permanecendo mais tempo no bebedouro. Esse comportamento indica que o recurso não atua apenas como fonte de hidratação, mas como ferramenta de equilíbrio comportamental .
Importante destacar que, mesmo com a mudança estrutural, o consumo total de água, leite e ração permaneceu praticamente igual entre os grupos, e o crescimento dos animais não apresentou diferença significativa . Ou seja, o ganho ocorre no bem-estar e na sanidade, sem prejuízo produtivo.
Bebedouro com bico reduz mamada cruzada e melhora o desempenho de bezerros no campo
Além da redução dos problemas sanitários, o estudo aponta que a criação coletiva tende a tornar os bezerros mais dóceis e adaptados ao convívio em grupo, facilitando o manejo diário .
O manejo coletivo permite tratar vários animais ao mesmo tempo, reduzindo a necessidade de deslocamentos individuais e otimizando a mão de obra — fator estratégico diante da crescente escassez de trabalhadores no meio rural.
Nesse contexto, o bebedouro com bico surge como uma solução de baixo custo, fácil implementação e alto retorno sanitário, especialmente para propriedades que desejam alinhar produtividade e bem-estar animal.
Caminho para sistemas mais naturais
Os resultados reforçam uma tendência cada vez mais presente na pecuária leiteira brasileira: adaptar o sistema de produção às necessidades comportamentais dos animais.
Bovinos são animais naturalmente gregários e apresentam melhor aprendizado e adaptação quando criados em grupo, desde que o ambiente ofereça estímulos adequados. Ao permitir que o bezerro satisfaça seu instinto de sucção ao longo do dia, o simples acréscimo de um bico no bebedouro modifica a dinâmica dentro do curral e reduz significativamente comportamentos indesejados.
Na prática, a pesquisa mostra que inovação no campo não exige necessariamente grandes investimentos, mas sim entendimento do comportamento animal e ajustes inteligentes no manejo.
Para o produtor leiteiro, a mensagem é clara: um detalhe aparentemente simples pode representar menos prejuízo sanitário, mais eficiência operacional e melhor desempenho futuro do rebanho.
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