Na grande corrida por terras rurais como ativo, Bilionário britânico compra fazenda gigante; Consolidated Pastoral Company, do investidor Guy Hands, pagou cerca de US$ 30 milhões – cerca de R$ 150 milhões – e ampliou sua ofensiva no mercado de ovinos e lã em meio a mudanças históricas no setor
A disputa por grandes áreas rurais voltou a ganhar força na Austrália — e, desta vez, com um movimento que reforça o apetite de investidores internacionais por propriedades estratégicas. A Consolidated Pastoral Company (CPC), uma das maiores produtoras de gado do país e hoje controlada pelo bilionário britânico Guy Hands, fechou a compra da Madura Plains Station, uma imensa fazenda de 711.638 hectares localizada no estado de Western Australia (WA), próxima à fronteira com a Austrália do Sul.
Esse movimento de compras bilionárias no agro não é um caso isolado e vem se repetindo em diferentes mercados. Só neste mês, o Compre Rural já mostrou um exemplo emblemático dessa corrida por ativos rurais de grande escala: a compra de uma fazenda gigante por cerca de R$ 440 milhões, com área equivalente a quatro vezes o tamanho da cidade de São Paulo, evidenciando como investidores de alto patrimônio estão mirando terras estratégicas como forma de expansão, diversificação e aposta em ativos reais — uma tendência que também se conecta diretamente à ofensiva recente da CPC na Austrália com propriedades de centenas de milhares de hectares.
O negócio foi estimado em cerca de US$ 30 milhões ou mais (algo em torno de R$ 150 milhões, na conversão aproximada), segundo fontes do setor, e marca mais um capítulo na sequência de aquisições pesadas feitas pela companhia nos últimos meses, em uma clara estratégia de expansão para ovinos e lã — um segmento que, por anos, esteve sob pressão, mas agora volta ao radar de grandes grupos.
Uma compra que muda a escala do jogo no oeste australiano
A Madura Plains não é apenas mais uma fazenda: trata-se de uma megaestação pastoral formada pela agregação de dois arrendamentos (pastoral leases), Madura e Moonera, totalizando os 711,6 mil hectares — uma área capaz de suportar mais de 60 mil ovelhas.
A operação foi conduzida pela Elders, com a negociação sendo gerida pelo CEO da agência comercial, Tom Russo, que destacou que o acordo sinaliza confiança no setor, apesar do cenário desafiador para WA.
E há um motivo central para isso: o estado é diretamente afetado por uma mudança estrutural que já mexe com decisões de investimento e reconfigura a cadeia produtiva.
O fator-chave: o fim da exportação de ovinos vivos em 2028
O acordo acontece em um momento em que o mercado de ovinos do oeste australiano atravessa uma fase de incerteza por conta da proibição prevista para 2028 da exportação de ovelhas vivas.
Segundo Tom Russo, esse cenário gerou receio em parte dos produtores, sobretudo porque WA era o principal estado de origem dos embarques de animais vivos, e a expectativa de mudança levou a uma retração relevante:
“A produção de ovinos no oeste diminuiu consideravelmente”, avaliou.

Ainda assim, o movimento da CPC aponta para uma leitura diferente: onde muitos viram risco, o grupo enxergou oportunidade de valorização e reorganização do setor.
Consolidated Pastoral Company aposta que ovinos e lã voltaram a ter “upside”
O CEO da CPC, Troy Setter, explicou que a companhia acredita que a indústria de ovinos e lã volta a apresentar um potencial maior do que o observado nos últimos anos.
Para ele, o plano é ampliar produtividade e crescer dentro do setor com visão de longo prazo.
“Vemos mais ‘upside’ na indústria de ovinos e lã do que houve nos últimos cinco anos”, disse o executivo.
A mensagem é clara: a empresa está posicionando suas compras como parte de um projeto maior, mirando escala e ganho operacional em um segmento que passa por reconfiguração econômica e logística.
Uma sequência agressiva de aquisições em menos de um ano
A compra da Madura Plains não é um movimento isolado. Ela entra na lista de grandes negócios recentes realizados pela CPC, em uma escalada que chama atenção no mercado rural australiano.
O ciclo de aquisições começou em março, quando a companhia comprou a Rawlinna Station, considerada a maior estação de ovelhas da Austrália, com mais de 1 milhão de hectares na região de Nullarbor Plain, em WA.
O ativo estava com a família MacLachlan (Jumbuck Pastoral) e a venda avançou após a Fortescue abandonar planos de compra ligados a um projeto de energia renovável.
Pouco depois, às vésperas do Natal, a CPC também fechou a compra da Beetaloo Station, no Território do Norte, por cerca de US$ 315 milhões, em uma transação envolvendo o varejista bilionário Brett Blundy e a família Armstrong.
Ou seja: o que está em curso é uma consolidação de ativos gigantescos, com reforço de portfólio e aumento acelerado de presença territorial.

Quem vendeu: CC Cooper & Co deixa a Madura Plains após 10 anos
Do lado vendedor, quem se despediu da Madura Plains foi a CC Cooper & Co, um agronegócio familiar de quinta geração, baseado na Austrália do Sul, que havia adquirido a propriedade há cerca de uma década.
O diretor David Seth Cooper afirmou que o grupo fez um período relevante de investimentos e desenvolvimento na fazenda e demonstrou satisfação com o resultado do processo de venda.
Outro ponto importante destacado pelo vendedor foi a permanência do time local:
A equipe da Madura Plains será mantida, o que garante continuidade operacional e cria novas oportunidades dentro da estrutura nacional da CPC.
Compra depende de aval do governo estadual, mas já tem sinal verde federal
Apesar do acordo já estar fechado, a operação ainda depende de um passo burocrático importante: a transação está condicionada à aprovação do governo de WA para a transferência dos arrendamentos pastorais.
Por outro lado, a CPC já recebeu um aval considerado decisivo no tema de investimentos estrangeiros:
O negócio já foi aprovado pelo Foreign Investment Review Board (FIRB).
Um império de US$ 1,6 bilhão e presença até na Indonésia
A CPC não é pequena — e os números ajudam a dimensionar por que cada compra amplia o poder de fogo do grupo no setor agropecuário.
A companhia tem um portfólio estimado em US$ 1,6 bilhão, com 11 estações na Austrália e dois confinamentos na Indonésia, totalizando mais de 5,5 milhões de hectares e um rebanho de aproximadamente 400 mil cabeças de gado.
A empresa já foi controlada pela família Packer (do magnata Kerry Packer) e acabou vendida ao fundo Terra Firma, de Guy Hands, em 2009, por US$ 425 milhões. Depois, o negócio foi adquirido por Hands e sua família, junto com a gestão da própria companhia.
O que essa compra sinaliza para o mercado rural australiano
O movimento da CPC reforça uma tendência que vem se tornando cada vez mais visível em mercados agropecuários estratégicos: quem tem capital e visão de longo prazo está se posicionando antes da virada do ciclo.
Mesmo com incertezas como a proibição do live export em 2028, a aquisição da Madura Plains mostra que grandes grupos:
- estão apostando em produtividade e escala
- veem oportunidade de ganho estrutural em cadeias em transformação
- buscam terras de grande extensão e logística estratégica
- consolidam presença em áreas-chave como WA e o Território do Norte
No fim, a compra não é apenas sobre um número impressionante de hectares — é sobre um reposicionamento claro: a corrida por ativos rurais gigantes voltou ao centro do jogo. E a CPC quer estar na frente.
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