Bisões na mira de Trump: entenda a disputa que divide o campo nos EUA

Plano de substituir bisões por gado em áreas federais reacende disputa histórica e pode redefinir o uso das pradarias americanas.

A nova ofensiva da administração de Donald Trump contra projetos de conservação de bisões nos Estados Unidos reacendeu um debate histórico entre preservação ambiental e uso produtivo da terra. No centro dessa disputa está a proposta de cancelar arrendamentos federais que permitem a presença de centenas de bisões em áreas públicas de Montana — medida que pode abrir espaço para a expansão da pecuária tradicional.

A decisão, conduzida pelo Departamento do Interior sob liderança do secretário Doug Burgum, afeta diretamente a atuação da organização American Prairie, responsável por um dos maiores projetos de restauração de ecossistemas de pradaria na América do Norte.

O ponto central do conflito envolve o uso de terras federais administradas pelo Bureau of Land Management (BLM). A proposta do governo prevê o cancelamento de permissões que permitem à American Prairie manter cerca de 900 bisões em áreas públicas, substituindo esses animais por gado bovino voltado à produção.

A justificativa oficial está baseada na interpretação de que essas áreas devem ser destinadas prioritariamente a animais domésticos com finalidade produtiva, conforme legislação federal. Na prática, isso favorece diretamente os pecuaristas locais, que há anos criticam a expansão dos projetos de rewilding na região.

Grupos ligados à pecuária classificaram a decisão como uma vitória para o setor, destacando que a medida restabelece o uso tradicional das terras públicas para a produção agropecuária.

A mudança de rumo não ocorre isoladamente. Ela reflete uma agenda mais ampla da administração Trump, que tem reforçado o apoio ao setor rural tradicional, incluindo movimentos como o “Save the Cowboy”, que defendem o protagonismo dos produtores nas áreas do oeste americano.

Esse posicionamento já havia sido observado anteriormente. Durante seu primeiro mandato, o governo optou por não ampliar proteções legais aos bisões de Yellowstone, mantendo uma postura mais alinhada aos interesses da pecuária e da produção rural.

Do outro lado, ambientalistas e especialistas em ecologia alertam para os riscos dessa decisão. Os bisões são considerados espécies-chave na regeneração das pradarias, desempenhando papel fundamental na manutenção da biodiversidade, fertilidade do solo e equilíbrio dos ecossistemas.

Projetos como o da American Prairie buscam recriar paisagens semelhantes às originais, conectando milhões de hectares de habitat nativo. A organização já controla mais de 600 mil acres entre terras privadas e públicas, com o objetivo de restaurar corredores ecológicos e populações de fauna nativa.

Segundo defensores da causa, retirar os bisões dessas áreas pode representar um retrocesso significativo nos esforços de conservação ambiental desenvolvidos nas últimas décadas.

A tensão entre pecuaristas e projetos de conservação não é nova nos Estados Unidos. A presença de bisões em áreas abertas sempre gerou preocupação entre produtores, especialmente por questões sanitárias e competição por pastagens.

Apesar disso, estudos indicam que esses animais contribuem para a diversidade biológica e recuperação de áreas degradadas, o que amplia o debate sobre qual deve ser o modelo de uso das terras públicas no país.

O caso envolvendo bisões como a icônica “Crazy Alice” — símbolo do rebanho da American Prairie — ilustra bem o momento atual: um embate direto entre dois modelos de ocupação rural.

De um lado, a expansão da pecuária, apoiada por políticas governamentais e interesses econômicos. Do outro, iniciativas que buscam restaurar ecossistemas e preservar espécies historicamente dizimadas.

O desfecho dessa disputa pode redefinir não apenas o futuro dos bisões em Montana, mas também o equilíbrio entre produção agropecuária e conservação ambiental em terras públicas dos Estados Unidos.

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