Bloqueio da Europa à carne bovina “parece defesa de mercado”, diz ministro após exclusão do Brasil da lista de exportadores

Governo brasileiro tenta reverter decisão que entra em vigor em setembro. Ministro da Agricultura afirma que medida contra a carne bovina nacional “parece defesa de mercado”. Apesar das negociações em andamento, governo brasileiro admite dificuldades para reverter restrições da União Europeia à carne bovina

A disputa entre Brasil e União Europeia (UE) em torno das exportações de produtos de origem animal ganhou um novo capítulo nesta semana. A UE decidiu retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar animais vivos e diversos produtos de origem animal para o bloco. A decisão foi baseada no entendimento de que o país não atende integralmente às exigências europeias relacionadas ao controle do uso de antimicrobianos na produção pecuária. O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, reconheceu que a carne bovina brasileira é o principal obstáculo nas negociações com o bloco europeu e classificou a medida como algo que “parece defesa de mercado”.

A restrição anunciada pela Comissão Europeia prevê a retirada do Brasil da lista de países autorizados a exportar determinados produtos de origem animal para o bloco a partir de 3 de setembro de 2026. Embora a medida também alcance aves, ovos, mel, pescado e outros produtos, o próprio governo brasileiro admite que o maior desafio está concentrado na carne bovina.

Ministro questiona decisão europeia

Durante evento realizado na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), André de Paula afirmou que a decisão europeia levanta dúvidas sobre seu real objetivo.

“Não quero parecer leviano, mas parece defesa de mercado. Colocar barreiras em um mercado como o nosso, mais eficiente e competitivo”, declarou o ministro.

Segundo ele, a postura da União Europeia contrasta com a de outros grandes compradores globais, especialmente a China, que recentemente reconheceu oficialmente todo o território brasileiro como livre de febre aftosa sem vacinação, reforçando a confiança no sistema sanitário nacional.

O que motivou a restrição?

A decisão europeia está relacionada ao Regulamento Delegado (UE) 2023/905, que estabelece regras rígidas sobre o uso de antimicrobianos na produção animal.

Na avaliação da Comissão Europeia, o Brasil ainda não apresentou todas as garantias exigidas para comprovar equivalência aos padrões sanitários adotados pelo bloco. Por isso, foi definida a exclusão temporária do país da lista de exportadores autorizados.

A medida afeta:

  • Carne bovina;
  • Equinos;
  • Aves;
  • Ovos;
  • Mel;
  • Produtos de origem animal destinados ao mercado europeu.

Governo aposta em negociação até setembro

Apesar de reconhecer a dificuldade para reverter o impasse, André de Paula demonstrou confiança em uma solução negociada.

Segundo o ministro, existe expectativa de avanço nas discussões envolvendo aves, ovos, mel e pescado, enquanto a carne bovina continua sendo o principal ponto de divergência entre Brasil e União Europeia.

“O gargalo” das negociações está justamente na proteína bovina, admitiu o chefe da pasta.

O governo brasileiro sustenta que possui um dos sistemas de defesa agropecuária mais robustos do mundo, destacando que o país exporta alimentos para mais de 170 mercados internacionais.

Impacto para a pecuária brasileira tende a ser limitado

Embora a decisão tenha provocado preocupação no setor, analistas avaliam que o impacto econômico imediato tende a ser limitado. A União Europeia representa uma parcela relativamente pequena das exportações brasileiras de carne bovina quando comparada a mercados como China, Estados Unidos e Oriente Médio.

Além disso, a demanda internacional pela proteína brasileira segue aquecida. O reconhecimento sanitário recente por parte da China fortalece ainda mais a posição do Brasil como fornecedor estratégico de carne bovina para o mercado global.

Ainda assim, o episódio reforça uma preocupação recorrente do agronegócio brasileiro: o uso crescente de exigências ambientais, sanitárias e regulatórias como instrumentos de proteção comercial em mercados desenvolvidos.

Brasil terá três meses para tentar reverter cenário

Com a entrada em vigor prevista para setembro, o governo federal intensificará as negociações técnicas e diplomáticas com Bruxelas nos próximos meses.

A Comissão Europeia afirma que a medida não representa um fechamento definitivo do mercado ao Brasil e que a autorização poderá ser restabelecida caso o país apresente as evidências sanitárias exigidas.

Até lá, a disputa promete continuar no centro das discussões comerciais entre dois dos maiores protagonistas do agronegócio mundial.

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