Com oferta restrita, escalas curtas e exportações aquecidas, arroba do boi gordo dispara em São Paulo e produtores ganham força nas negociações com frigoríficos
O mercado físico do boi gordo vive um dos momentos mais firmes de 2026. Em meio à oferta enxuta de animais terminados, boas condições de pastagem e exportações em ritmo acelerado, a arroba rompeu novos patamares e já registra negócios pontuais a R$ 355/@ à vista em São Paulo, consolidando um cenário em que o pecuarista dita o ritmo das negociações.
Levantamento da Agrifatto identificou, nesta quinta-feira (19), operações envolvendo boiadas gordas a R$ 355/@, com pagamento à vista no mercado paulista . Apesar do baixo volume ainda não permitir que o valor se firme como referência oficial, o movimento reforça a tendência de valorização observada nas principais praças do País.
Indicadores confirmam sequência de alta no mercado do boi gordo
O Indicador do Boi Datagro fechou São Paulo em R$ 344,56/@, o maior valor do ano até o momento . Em outras regiões produtoras, como Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, as negociações giram próximas de R$ 325/@, em média .
Além do mercado físico, o ambiente positivo também se reflete na B3. O contrato futuro para março chegou próximo de R$ 350/@, sinalizando expectativa de continuidade do movimento altista .
Segundo análise da Datagro, trata-se de uma alavancagem firme em relação à semana anterior, impulsionada principalmente pela oferta mais restrita de animais prontos para abate .
Oferta curta fortalece o produtor
A restrição de oferta é hoje o principal combustível da alta. A indústria frigorífica enfrenta dificuldades na composição das escalas de abate, o que sustenta reajustes sucessivos na arroba .
As programações de abate no Brasil cobrem, em média, apenas cinco a seis dias corridos, patamar considerado baixo para o período . Ao mesmo tempo, há menor participação de fêmeas nas escalas desde janeiro, reduzindo ainda mais a disponibilidade de animais terminados .
Outro fator determinante é o clima. O regime de chuvas no início de 2026 favoreceu as pastagens, permitindo que o produtor retenha o gado a pasto e venda de forma cadenciada . Com isso, o pecuarista ganha poder de barganha e consegue negociar com maior firmeza.
Cotações médias da arroba nas principais praças
Dados recentes apontam que a média da arroba já supera R$ 350 em São Paulo, com avanço também em outros estados :
- São Paulo: R$ 355,00
- Goiás: R$ 331,43
- Minas Gerais: R$ 335,88
- Mato Grosso do Sul: R$ 332,61
- Mato Grosso: R$ 326,22
Esses números evidenciam um mercado sustentado não apenas por negócios pontuais, mas por uma tendência mais ampla de valorização.
Mercado atacadista e consumo interno
No atacado, os preços registraram leve alta, com o quarto dianteiro cotado a R$ 20,00/kg (alta de R$ 0,50), enquanto o traseiro permanece em R$ 26,50/kg e a ponta de agulha em R$ 19,50/kg .
A carcaça casada no atacado paulista gira em torno de R$ 23/kg , sustentada pelo consumo aquecido durante o Carnaval e pelo retorno das aulas, que tradicionalmente reforça a demanda.
Apesar disso, analistas alertam que a carne bovina ainda enfrenta concorrência direta de proteínas mais baratas, especialmente o frango .
Exportações seguem aquecidas
Se no mercado interno o consumo mostra estabilidade, no cenário externo o desempenho é expressivo. As exportações brasileiras de carne bovina fresca, congelada ou refrigerada somaram US$ 765,369 milhões em fevereiro (até 10 dias úteis), com média diária de US$ 76,537 milhões .
O volume embarcado atingiu 136,8 mil toneladas, com média diária de 13,68 mil toneladas e preço médio de US$ 5.594,80 por tonelada .
Na comparação com fevereiro de 2025, houve:
- Alta de 63,1% no valor médio diário exportado
- Avanço de 43,7% na quantidade média diária
- Ganho de 13,5% no preço médio
Esse cenário reforça o suporte estrutural aos preços da arroba e contribui para a sustentação do ciclo de valorização.
Novo ciclo de alta?
Consultorias apontam que fevereiro começou em ritmo acelerado e pode sinalizar um novo ciclo de valorização em 2026 . O desequilíbrio entre oferta ajustada e demanda consistente reacende discussões sobre o comportamento do ciclo pecuário neste ano .
Com pasto favorável, escalas encurtadas, exportações firmes e negócios já registrados a R$ 355/@, o mercado do boi gordo mostra que, neste momento, é o pecuarista quem conduz o compasso das negociações.
O desafio agora será observar até que ponto a indústria conseguirá repassar preços no atacado e no varejo sem comprometer o consumo interno — e se a oferta continuará suficientemente restrita para manter a arroba nos atuais patamares históricos.
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