Estufa de alta tecnologia desenvolvida no país produz microverdes em meio a temperaturas extremas de até -60 °C, combinando inovação, sustentabilidade e ciência brasileira no Programa Antártico Brasileiro.
Produzir alimentos frescos em um dos ambientes mais hostis do planeta parecia, até pouco tempo atrás, um desafio praticamente impossível. Sem solo, com temperaturas que podem atingir sensação térmica de -60 °C e sob rígidas regras ambientais, a Antártica sempre foi um território dependente de longas cadeias de suprimento para garantir a alimentação de pesquisadores. Esse cenário começa a mudar com uma iniciativa inédita liderada por cientistas brasileiros, que conseguiram cultivar alimentos no continente gelado por meio de uma estufa de alta tecnologia totalmente desenvolvida no Brasil.
O projeto integra o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) e já apresenta impactos diretos na qualidade de vida dos pesquisadores que passam meses isolados na região. A estrutura possibilitou o cultivo de microverdes como mostarda, agrião, brócolis e rabanete, alimentos colhidos em ciclos curtos, entre 10 e 12 dias, e ricos em nutrientes essenciais.
A estufa instalada na Antártica foi projetada para operar em condições absolutamente adversas. Totalmente isolada do ambiente externo, a estrutura permite o controle preciso de temperatura, umidade e luminosidade, criando um microclima estável mesmo diante do frio intenso e dos ventos polares.
Segundo Gabriel Estevam, diretor de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Ambipar, a estufa é compacta, construída com chapas de alumínio reciclado e revestida com isolante térmico biodegradável à base de mamona, uma tecnologia nacional que dispensa o uso de derivados de petróleo.
No interior da estufa, as condições são cuidadosamente ajustadas: temperatura próxima de 25 °C, umidade em torno de 60% e iluminação controlada entre nove e doze horas por dia, simulando o ciclo natural de dia e noite necessário ao desenvolvimento das plantas.
Antes mesmo de iniciar o cultivo, o projeto enfrentou um dos maiores desafios: a logística. O equipamento percorreu uma longa e delicada cadeia de transporte, passando por navio, aeronave e até trenó, até chegar ao local de instalação. Cada etapa representava risco elevado de danos à estrutura, o que exigiu planejamento minucioso e monitoramento constante.
A impossibilidade de realizar reparos complexos no continente elevou o nível de exigência na fase de montagem e transporte do sistema.
Além das condições climáticas extremas, a equipe precisou lidar com restrições ambientais rigorosas. Na Antártica, não há solo disponível para cultivo e nenhum resíduo pode ser descartado no ambiente. A solução encontrada foi transformar o próprio lixo gerado pela missão em insumo agrícola.
O substrato utilizado nas plantas foi produzido a partir de borra de café, resíduos de chá, papel, caixas de ovos e, em alguns casos, cinzas de carvão e fósforo, aproveitados por sua contribuição mineral. Essa abordagem permitiu fechar o ciclo de resíduos dentro da própria operação, alinhando o projeto aos princípios da economia circular.
Outro fator crítico foi a água. A água disponível na Antártica é extremamente pura, praticamente sem sais minerais, o que exigiu ajustes adicionais no manejo nutricional para garantir a germinação e o crescimento saudável das plantas.
O manejo diário da estufa também exigiu protocolos rigorosos. A simples abertura da estrutura representava um risco imediato, já que a diferença extrema entre a temperatura interna e externa poderia causar choque térmico suficiente para comprometer toda a cultura.
Por isso, cada intervenção foi cuidadosamente planejada, com tempo mínimo de exposição e monitoramento constante dos parâmetros ambientais.
O projeto teve um investimento aproximado de R$ 600 mil, valor que contemplou o desenvolvimento da estufa, testes prévios e toda a logística envolvida. Apesar do planejamento detalhado, havia incertezas, já que não era possível reproduzir integralmente, em laboratório, as condições reais enfrentadas na Antártica.
Com os resultados positivos, a iniciativa passa agora a ser tratada como prova de conceito. A equipe já discute a ampliação do projeto, com estufas maiores, operação contínua e novas pesquisas voltadas à produção de alimentos em ambientes extremos, com potencial aplicação em bases remotas, regiões áridas e até futuras missões espaciais.
A missão foi coordenada pelo professor doutor Heitor Evangelista, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com financiamento do CNPq e suporte técnico de instituições como INPE, Inmet, UFRGS, USP, UFPR e CBPF, além do apoio logístico do Proantar.
A Ambipar atua no continente com foco em sustentabilidade, pesquisa ambiental e inovação. Além das estufas, a empresa também apoia a primeira expedição antártica neutra em carbono, contribuindo com monitoramento ambiental e estratégias de compensação de emissões.
Mais do que um avanço tecnológico, o projeto representa um ganho concreto para quem vive e trabalha no continente gelado. O acesso a alimentos frescos melhora a alimentação, o bem-estar e a saúde dos pesquisadores, reduz a dependência de longas cadeias logísticas e fortalece o protagonismo brasileiro em ciência, inovação e sustentabilidade em um dos territórios mais desafiadores do planeta.
A experiência bem-sucedida mostra que, mesmo nos extremos da Terra, a ciência brasileira é capaz de gerar soluções eficientes, sustentáveis e de alto impacto global.
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