Brasil pode ter novo recorde nas exportações de carne bovina em 2026, apesar cotas da China, diz Abiec

Mesmo com restrições impostas pelo principal comprador do mundo e incertezas no mercado norte-americano, entidade acredita que o Brasil seguirá no topo nas exportações de carne bovina, com volumes entre 3,3 e 3,5 milhões de toneladas embarcadas e sustentação dos preços internacionais.

A exportação de carne bovina brasileira deve seguir em alta e manter o setor em patamares históricos em 2026, mesmo diante de desafios importantes no comércio global. Essa é a avaliação da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), que projeta estabilidade no topo para o próximo ano, com volumes semelhantes aos recordes observados em 2025.

A estimativa foi apresentada pelo presidente da entidade, Roberto Perosa, durante coletiva de imprensa realizada nesta segunda-feira (19). Segundo ele, o Brasil deve embarcar entre 3,3 milhões e 3,5 milhões de toneladas em 2026, mantendo tanto os volumes quanto os preços médios internacionais, apesar das restrições impostas pela China e do cenário instável em mercados relevantes como os Estados Unidos.

A nossa avaliação é de estabilidade. Estabilidade no topo, o que é bom. Em termos de volume e de preço”, afirmou Perosa, ao destacar que o país deve sustentar seu protagonismo no comércio internacional de proteína animal.

A projeção ganha peso porque vem na sequência de um ano histórico para a pecuária exportadora brasileira: em 2025, o país exportou 3,09 milhões de toneladas, atingindo um recorde nas exportações de carne bovina e consolidando o Brasil como um dos principais abastecedores do mundo.

Diversificação de destinos sustenta o otimismo da Abiec

Mesmo com a China ainda ocupando posição central nas compras globais, a Abiec afirma que o Brasil tem conseguido reduzir riscos ao expandir sua atuação internacional.

Atualmente, o país exporta carne bovina para 177 países, o que fortalece a capacidade brasileira de “redistribuir” volumes diante de restrições pontuais e reduz a dependência de um único destino.

Além disso, a entidade avalia que o consumo global de proteína animal segue crescendo, enquanto a oferta de carne bovina no mundo tende a permanecer restrita — um fator que, na prática, ajuda a sustentar preços e manter demanda aquecida.

Perosa reconheceu que substituir totalmente o volume chinês não é simples, mas argumentou que o Brasil tem “capilaridade” e oportunidades em mercados que estão aumentando o consumo.

A expectativa é que uma parte relevante da carne que deixará de ir à China seja direcionada principalmente a países da Ásia e do Sudeste Asiático, regiões com economias em expansão e crescimento da demanda por proteína animal.

Cota da China: limite anual e possível queda de 600 mil toneladas

O principal ponto de atenção para 2026 é a cota de exportação estabelecida pela China, fixada em 1,106 milhão de toneladas por ano.

A Abiec calcula que essa limitação deve causar uma redução de aproximadamente 600 mil toneladas nos embarques brasileiros ao país asiático em comparação ao volume exportado em 2025.

Ou seja: o Brasil pode exportar mais para o mundo, mas tende a exportar menos para a China, exigindo uma reorganização logística e comercial para evitar impactos na cadeia produtiva.

E a entidade não esconde o alerta:

“Não tem como negar que haverá impacto”, afirmou Perosa, destacando que estratégias estão sendo discutidas para mitigar efeitos sobre indústria e produtor.

Estratégia em debate: “regular a cota” para evitar corrida e descontrole

Diante do risco de concentração de embarques em determinados períodos do ano, a Abiec intensificou o diálogo com o governo federal para discutir mecanismos de regulação interna da cota, garantindo previsibilidade e evitando desequilíbrios no fluxo comercial.

Entre as alternativas em análise está a distribuição dos volumes ao longo do ano — mensal, bimestral ou trimestral — para impedir que haja uma corrida por exportações no primeiro semestre e um “apagão” no segundo.

Perosa foi direto ao explicar o risco: “Não podemos ter uma corrida no primeiro semestre e um desastre no segundo. A ideia é trazer previsibilidade e estabilidade para a indústria e para o produtor.”

Na prática, esse tipo de previsibilidade pode ter reflexos importantes também na formação de preços internos, já que exportação e mercado doméstico são interligados, especialmente em momentos de alta demanda internacional.

Ponto crítico: 250 mil toneladas “em trânsito” podem virar prejuízo

Outro tema sensível envolve o volume de carne brasileira que estaria em trânsito para a China, estimado pela Abiec em cerca de 250 mil toneladas. Esse volume representa a diferença entre aquilo que o Brasil considera exportado até o fim de 2025 e o que, de fato, foi internalizado pela China.

O problema, segundo a entidade, é que se essa carga não entrar na contabilidade da cota anual chinesa, o impacto financeiro pode ser pesado para empresas brasileiras que operam com margens apertadas, custos logísticos elevados e contratos internacionais rígidos.

“Se essa carga não for computada, prejudica muito as empresas brasileiras. Isso precisa ser tratado em negociação governamental”, alertou Perosa.

Exportações de carne bovina: Redistribuição de cotas e possível apoio financeiro às indústrias

Além da regulação doméstica da cota, a Abiec também defende a possibilidade de realocar cotas não utilizadas por outros exportadores, como Estados Unidos, Uruguai e Argentina — países que historicamente não atingem os volumes autorizados no mercado chinês.

A ideia é simples: se há países que não conseguem “performar” toda a cota, esse saldo poderia ser redistribuído para quem consegue entregar volume.

“Um dos pedidos é que haja redistribuição de cotas não performadas para os países que efetivamente conseguem entregar volume”, explicou o presidente da entidade.

Ao mesmo tempo, medidas de suporte financeiro também estão no radar, incluindo a possibilidade de linhas de crédito específicas e instrumentos semelhantes aos usados em períodos de estresse comercial.

Não é uma medida só. São várias possibilidades, desde linhas de crédito… e até negociações diplomáticas mais amplas”, afirmou Perosa.

Ainda segundo ele, o governo chinês já indicou que o interesse central é o cumprimento do volume anual total, deixando ao Brasil liberdade para organizar mecanismos internos de gestão da cota.

Preços internacionais não devem cair, avalia Abiec

Mesmo com eventual “sobra” de carne destinada à China, a Abiec avalia que não deve haver queda relevante nos preços internacionais, principalmente porque a oferta global segue limitada.

Em uma frase que resume a visão da entidade sobre o cenário mundial, Perosa afirmou:

“O Brasil pode até ter carne sobrando da China, mas o mundo não tem carne.”

Ou seja, outros países podem ampliar a compra do Brasil justamente por falta de disponibilidade em concorrentes — e isso tende a equilibrar o impacto da redução chinesa.

EUA e União Europeia entram no radar como oportunidade

O mercado norte-americano aparece como um dos principais pontos de atenção positiva para o Brasil em 2026.

A Abiec projeta crescimento nos embarques ao país, devido a um déficit estrutural na produção local estimado em cerca de 1,5 milhão de toneladas. Nesse cenário, a expectativa é que o Brasil eleve suas exportações aos EUA de 270 mil para aproximadamente 400 mil toneladas.

Já o acordo Mercosul–União Europeia é visto como positivo, porém com efeito limitado. A entidade estima crescimento anual entre 5% e 7%, o que não deve alterar significativamente o volume total exportado pelo Brasil.

Mercado interno: expectativa é de estabilidade em 2026

No consumo doméstico, a expectativa da Abiec é de um ano com preços mais equilibrados, sem grandes oscilações ao longo de 2026.

Diferente do ano passado, acreditamos em um cenário mais estável para o mercado interno”, concluiu Perosa.

O cenário desenhado pela entidade indica que, mesmo com obstáculos relevantes no comércio com a China, a pecuária exportadora brasileira entra em 2026 com uma carta considerada estratégica: capacidade de abastecer o mundo em um período de oferta global restrita — sustentando volume, preços e protagonismo internacional.

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