Excesso de oferta global derruba preços da amêndoa, que saíram de US$ 10,9 mil para US$ 3,7 mil em menos de dois anos; na Bahia, produtores protestam contra importações da África e margens de lucro negativas.
O mercado global de cacau vive uma virada drástica em 2026. Após um período de valorização histórica, o excesso de oferta e o arrefecimento da demanda global provocaram uma queda acentuada nos preços. Na Bolsa de Nova York, a cotação da amêndoa derreteu 65,6% em menos de dois anos: o valor, que atingiu o pico de US$ 10.945,62 por tonelada em maio de 2024, recuou para US$ 3.761,26 nesta semana.
O fim do ciclo de escassez
A conjuntura atual reflete o acúmulo de estoques em grandes players mundiais, notadamente na Costa do Marfim e em Gana. O cenário marca o fim de um ciclo de déficit produtivo que impulsionou os preços até meados de 2025.
Segundo Maria Goretti Gomes, coordenadora de projetos da Faepa/Senar, o mercado atravessa uma “inversão de fluxo”. Enquanto o ano anterior foi marcado por uma oferta escassa frente a uma demanda voraz, 2026 apresenta o oposto: um superavit de produção que encontra compradores mundiais mais retraídos.
Tensões e protestos no Brasil
A desvalorização internacional reverberou de forma agressiva no campo brasileiro. No início deste ano, a Federação de Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb) formalizou críticas ao volume de importações de cacau africano, alegando que a entrada do produto estrangeiro sufoca a produção nacional em um momento de preços já deprimidos.
O descontentamento gerou mobilizações em rodovias, lideradas por sindicatos e trabalhadores rurais. Além da queda nos preços, a categoria denuncia a existência de supostos esquemas de cartel e a falta de isonomia comercial, já que o cacau importado entra no país com isenções tributárias.
Margens estranguladas e o risco de abandono
Para o produtor brasileiro, o desafio é matemático e desanimador. Além da queda na bolsa, o setor enfrenta o deságio aplicado pelos compradores locais, o que reduz ainda mais o valor recebido na fazenda.
Com custos de produção em alta e receitas em queda, a rentabilidade da atividade tornou-se mínima. O temor das lideranças setoriais, como pontua a coordenadora da Faepa, é que o desestímulo financeiro leve os cacauicultores a abandonarem a cultura, comprometendo a sustentabilidade da cadeia produtiva a longo prazo.
A principal pauta de reivindicação junto ao governo federal permanece clara: a revisão das políticas de importação para proteger a competitividade do cacau nacional e garantir a sobrevivência econômica das famílias que dependem da atividade.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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