Café futuro derrete e fica R$ 210 abaixo do físico; produtor recua nas vendas antecipadas

Mercado “invertido” pressiona contratos futuros e faz produtor priorizar o café disponível, enquanto comercialização da safra de café 2026/27 segue lenta

A comercialização antecipada do café da safra 2026/27 no Brasil está avançando em ritmo lento e abaixo do padrão histórico. O motivo principal, segundo análise do consultor Gil Barabach, da Safras & Mercado, é o cenário de mercado invertido, em que o contrato futuro setembro/26 aparece negociado abaixo do preço do café disponível no físico — uma combinação que reduz o incentivo para o produtor travar vendas agora e reforça a estratégia de segurar negociações para momentos mais favoráveis.

Na prática, o produtor está diante de uma situação clara: vender o café futuro significa receber menos do que o mercado paga hoje, o que limita o fluxo de vendas da safra nova e mantém o foco na negociação do café já colhido e disponível.

Mercado físico mais forte que o futuro: deságio desestimula travas

De acordo com Barabach, a diferença entre o mercado físico disponível e a safra futura está na casa de R$ 210 por saca, um distanciamento que pesa diretamente sobre o interesse de comercialização antecipada. O consultor explica que o preço futuro permanece inferior ao físico imediato, o que faz com que o produtor limite as vendas da safra nova e priorize o café disponível.

“Na prática, o preço futuro permanece inferior ao físico imediato, o que desestimula a comercialização antecipada”, avaliou Barabach.

Esse cenário gera um efeito direto no campo: mesmo com a safra 2026/27 no radar, a venda antecipada segue travada e restrita a regiões tradicionalmente mais ativas nesse tipo de operação.

Onde a venda futura ainda aparece: arábica concentra negociações

Mesmo com o freio imposto pelo deságio entre físico e futuro, as vendas antecipadas não pararam totalmente. Segundo o consultor, elas seguem mais concentradas em regiões com maior tradição na comercialização antecipada, especialmente no caso do arábica.

Entre as áreas citadas como mais ativas nesse perfil de venda estão: Sul de Minas, Cerrado Mineiro e Mogiana Paulista.

Ou seja, mesmo num ambiente adverso, há produtores que mantêm parte das decisões de travamento — mas em volume reduzido, escolhendo o momento e o preço com muito mais cautela.

Conilon praticamente fora do jogo: vendas antecipadas mal chegam a 2%

Se no arábica ainda existe algum fluxo, no conilon o cenário é ainda mais travado. As vendas futuras seguem bastante reduzidas, restritas a operações pontuais de troca, e representam cerca de 2% do potencial produtivo da próxima safra.

O dado evidencia que o produtor de conilon, diante do mercado invertido e do risco de travar preços considerados baixos, evita ao máximo comprometer volume futuro com antecedência.

Safra de café 2026/27: vendas abaixo da média histórica e até do ano passado

O levantamento traz um recorte importante sobre o ritmo de comercialização no Brasil e reforça que, além de lento, ele está abaixo do padrão dos últimos anos.

No caso do arábica, a venda antecipada preliminar gira em torno de 11% do potencial produtivo, ligeiramente abaixo dos 12% registrados no mesmo período do ano passado, e bem inferior à média dos últimos cinco anos (2020–2024), estimada em 22%.

Quando se considera o total (arábica + conilon/robusta), a expectativa é de que a comercialização antecipada da safra 2026/27 esteja em torno de 8% do potencial produtivo, contra 9% no mesmo período do ano passado — também distante da média histórica de 17%.

📌 Resumo do cenário atual (Safra 2026/27):

  • Arábica: ~11% vendido antecipadamente (abaixo da média histórica)
  • Conilon: ~2% vendido antecipadamente (praticamente travado)
  • Total Brasil: ~8% vendido antecipadamente (abaixo do padrão histórico)

Floradas e potencial produtivo: próximos meses devem mexer na estratégia do produtor

Outro ponto que mantém o produtor defensivo é a incerteza produtiva típica do período. Barabach afirma que os próximos meses devem trazer uma nova avaliação do potencial produtivo da safra, o que pode confirmar ou não as impressões iniciais das floradas.

Segundo ele, essas informações devem ajudar o produtor a recalibrar sua estratégia de comercialização.

Ou seja, além da diferença de preço entre físico e futuro, o mercado segue olhando atentamente para o comportamento das lavouras — e qualquer revisão de expectativa pode mudar o apetite por vendas antecipadas.

Volatilidade alta: travas futuras precisam proteger margem, não “apostar” no mercado

Por fim, Barabach faz um alerta considerado essencial para o momento atual: qualquer decisão de venda antecipada por meio de contratos futuros precisa estar conectada a uma estratégia objetiva de proteção de margem financeira, principalmente num ambiente de elevada volatilidade.

Ele reforça que travas futuras não devem ser feitas sem planejamento, porque podem comprometer a rentabilidade do produtor caso o custo de produção, o câmbio, os prêmios e a dinâmica de oferta e demanda mudem rapidamente.

O que esse cenário indica para o café brasileiro em 2026

Com o mercado físico pagando mais do que os contratos futuros, o Brasil entra em 2026 com uma lógica clara:

  • Produtor vende menos no futuro e segura a safra nova
  • Café disponível ganha prioridade nas negociações
  • As travas só acontecem com estratégia e objetivo de margem
  • O ritmo da safra 2026/27 está abaixo da média histórica

Enquanto a diferença de R$ 210 por saca continuar sustentando esse mercado “invertido”, a tendência é que a venda antecipada siga travada, com o produtor esperando oportunidades melhores — ou, no mínimo, condições em que o preço futuro volte a fazer sentido frente ao físico.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM