Engenheiro agrônomo e produtor de cana Felipe Stelutti alerta para possível ATR abaixo de R$ 1,00 e reacende debate sobre custos, etanol e futuro do setor sucroenergético
Depois de já ter alertado sobre a forte queda do ATR e os riscos de quebra para muitos fornecedores de cana, o engenheiro agrônomo e produtor rural Felipe Stelutti voltou a provocar preocupação no setor sucroenergético. Em uma nova análise divulgada nas redes sociais, ele abordou a pergunta que, segundo ele, “tem tirado o sono” dos produtores: afinal, o preço do quilo do ATR vai subir ou continuar caindo?
O cenário, segundo Stelutti, não é animador. Ele afirma que os fundamentos atuais do mercado internacional — envolvendo açúcar, oferta global e demanda — apontam para mais pressão sobre os preços ao longo da atual safra.
“Eu queria muito falar para você hoje que o ATR vai disparar, que vai subir e que nós vamos sair dessa fase de preço ruim. Mas eu tenho que ser muito realista com quem me ouve. Na minha opinião, por tudo que tenho visto, o ATR vai ficar abaixo de R$ 1,00”, afirmou.
O ATR (Açúcar Total Recuperável) é a principal referência usada para calcular o valor pago pela cana-de-açúcar ao produtor. Na prática, ele representa a quantidade de açúcar que pode ser extraída da matéria-prima entregue pelo produtor às usinas. Quanto maior o ATR da cana, maior tende a ser o valor recebido pelo fornecedor, já que o índice influencia diretamente no cálculo do pagamento da produção. Quando o índice cai, toda a cadeia sente os impactos — especialmente os fornecedores independentes, que convivem com custos crescentes de produção.
Durante a análise, Stelutti ressaltou que o mercado de commodities é naturalmente cíclico e lembrou que o setor já viveu momentos de forte valorização, com ATR acima de R$ 1,20, mas também períodos de baixa intensa.
Para ele, o problema é que muitos produtores acabaram acreditando que os preços elevados seriam permanentes.
“É nos anos bons que a gente precisa criar caixa, fazer reserva e evitar dar um passo maior que a perna. Quem entra na euforia, aumenta muito o financiamento e faz investimento sem planejamento, acaba sofrendo quando o preço cai”, destacou.
Produtores reclamam de custos altos e mudanças no cálculo do ATR
A repercussão da análise rapidamente tomou conta das redes sociais e grupos ligados ao setor canavieiro. Muitos produtores concordaram com a visão de que a situação financeira das propriedades está ficando cada vez mais apertada.
Um dos comentários destacou que o problema não está apenas na oscilação típica das commodities, mas principalmente no avanço dos custos de produção. “Infelizmente, com a elevação do valor do ATR, os insumos e defensivos subiram na mesma proporção, ou até mais. Agora, com a tendência de retorno ao valor histórico do ATR, o custo de produção da tonelada ficou maior do que recebemos na venda.”
Outro produtor afirmou que existe preocupação até mesmo com a metodologia usada para o cálculo do ATR. “Penso que a questão não se resume ao fato de ser commodity. A metodologia no cálculo do ATR está sofrendo mutações, em detrimento de fornecedores e parceiros.”
Também houve manifestações sobre o peso crescente da renovação dos canaviais e dos insumos agrícolas. “Concordo, porém os insumos e a renovação do canavial ficam mais caros a cada ano. O valor do ATR não acompanha os custos que temos. Assim fica difícil.”
O desânimo é tamanho que alguns produtores já falam em abandonar a cultura da cana-de-açúcar em favor de outras atividades agrícolas. “Em todas minhas reformas de ano, vou plantar soja. Vai compensar mais”, escreveu um internauta.
Subsídio à gasolina preocupa ainda mais o setor
Outro ponto levantado por Felipe Stelutti foi o impacto das medidas do governo federal sobre o mercado de combustíveis. Segundo ele, a redução de tributos da gasolina pode pressionar ainda mais o etanol e, consequentemente, derrubar o preço do ATR.
Na avaliação do engenheiro agrônomo, o setor sucroenergético acaba sendo penalizado quando a gasolina fica artificialmente mais barata, já que isso reduz a competitividade do etanol nas bombas.
“Será que não era melhor incentivar o uso do etanol do que segurar o preço da gasolina? Porque, na prática, quando a gasolina fica mais barata, o etanol perde competitividade. E quem sente no bolso é todo o setor sucroenergético”, comentou.
Stelutti citou ainda um estudo que aponta que apenas a redução tributária pode retirar cerca de R$ 5 por tonelada de cana do produtor.
Segundo os cálculos apresentados por ele, em uma produtividade de 120 toneladas por hectare, isso representaria uma perda próxima de R$ 600 por hectare — ou mais de R$ 1.400 por alqueire.
Mesmo diante do cenário difícil, o engenheiro agrônomo buscou transmitir uma mensagem de resistência ao produtor rural. “Agora o momento é crítico e é mais uma bomba para a gente segurar na mão. Mas eu tenho certeza de que as coisas vão melhorar”, concluiu.
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