Cana por sementes ganha unidade de R$ 100 milhões e mira dobrar a produtividade até 2040

Com investimento bilionário – cerca de R$ 1 bilhão em 13 anos, tecnologia de cana por sementes reduz custos, acelera o plantio e promete revolucionar a produção após mais de 500 anos

A tecnologia que pode mudar o cultivo da cana-de-açúcar após mais de cinco séculos de prática tradicional começa a ganhar escala no Brasil. O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) inaugurou, em Piracicaba (SP), a sua primeira Unidade de Produção de Sementes (UPS), marcando uma nova etapa no desenvolvimento da chamada “cana por sementes” — sistema que substitui o plantio por mudas por uma abordagem mais leve, padronizada e de alta precisão.

Com investimento superior a R$ 100 milhões e inserida em um projeto que já soma cerca de R$ 1 bilhão em pesquisa desde 2013, a iniciativa busca resolver gargalos históricos do setor, como o alto volume de material necessário para o plantio e a lentidão na disseminação de novas variedades.

Com R$ 1 bilhão investido, cana por sementes pode dobrar a produtividade no Brasil

O CEO do CTC, César Barros, destaca que a inovação representa uma mudança estrutural no modelo produtivo da cultura. “Hoje marca o início de uma nova fase para o setor sucroenergético”, afirmou. Segundo ele, a meta é clara: “dobrar a produtividade dos canaviais brasileiros sem expansão de área, a partir de tecnologias que já começam a mostrar resultados no campo”.

Atualmente, o plantio da cana exige cerca de 16 toneladas de mudas por hectare. Com a nova tecnologia, esse volume pode cair para aproximadamente 400 quilos de sementes sintéticas, reduzindo drasticamente custos logísticos e operacionais. “É um processo hoje pesado em maquinário, pessoas e planejamento. A proposta é simplificar e aproximar a cana de culturas como os cereais”, explicou Barros.

Além da redução de volume, o sistema elimina a necessidade de viveiros, liberando áreas produtivas e acelerando a adoção de novas variedades no campo. Isso pode encurtar um processo que atualmente leva anos. “Se o produtor quiser plantar mil hectares de uma nova variedade, ele não precisa mais esperar a formação de viveiros. Ele pode ir direto ao plantio [ com a cana por sementes ]”, disse o executivo.

Do ponto de vista produtivo, o impacto esperado é significativo. Hoje, a média nacional gira em torno de 75 toneladas por hectare, enquanto a meta do setor é alcançar cerca de 150 toneladas até 2040. Para o CTC, esse salto depende da integração entre melhoramento genético, biotecnologia, ciência de dados e o uso das sementes sintéticas. “Essa integração é o que vai sustentar um novo patamar de produtividade”, afirmou o CEO, César Barros.

Com R$ 1 bilhão investido, cana por sementes pode dobrar a produtividade no Brasil

Além do ganho produtivo, a inovação também traz efeitos ambientais relevantes. A redução no uso de mudas diminui o consumo de diesel, reduz a compactação do solo e contribui para a queda nas emissões de carbono. “Ao transformar o modelo de plantio, abrimos caminho para uma nova lógica de produção agrícola, com impacto econômico e ambiental ao mesmo tempo”, destacou o executivo.

Apesar dos avanços, o principal desafio agora é escalar a tecnologia. A produção em larga escala exige não apenas adaptação da indústria, mas também o desenvolvimento de novas máquinas e a validação do sistema em diferentes condições de solo e clima. Segundo Barros, o ponto crítico deixou de ser a viabilidade técnica e passou a ser a competitividade. “O nosso desafio agora é escalar”, afirmou.

Nesse contexto, a mecanização agrícola também entra em transformação. Como o plantio deixa de utilizar mudas e passa a operar com sementes sintéticas, fabricantes já trabalham no desenvolvimento de plantadoras específicas, capazes de tornar o processo mais automatizado e eficiente no campo.

Outro avanço esperado é a mudança na lógica de acesso à tecnologia. A projeção é que o produtor possa, no futuro, “encomendar” a cana por sementes sob medida, definindo variedade e área de plantio, em um modelo semelhante ao já consolidado em culturas como soja e milho. “A agricultura de precisão vai entrar na cana”, reforçou Barros.

O pipeline tecnológico do setor ainda inclui novas variedades mais produtivas e resistentes, avanços em cana transgênica e até soluções digitais — como sistemas inteligentes capazes de orientar decisões com base nos dados do próprio canavial, ampliando a eficiência da gestão no campo.

Enquanto isso, os testes seguem sendo ampliados em diferentes regiões do país, incluindo o interior de São Paulo, Triângulo Mineiro, Mato Grosso do Sul e Paraná, com o objetivo de validar o desempenho da tecnologia em diferentes realidades produtivas.

Na prática, o que se desenha é uma mudança estrutural no modelo produtivo. A cana-de-açúcar, historicamente associada a processos pesados e lentos, caminha para um sistema mais leve, escalável e orientado por tecnologia, com potencial de reposicionar o Brasil como protagonista global não apenas na produção, mas também na exportação dessa inovação.

“Não há hoje no mundo uma solução equivalente desenvolvida de forma integrada”, afirmou Barros, ao destacar o potencial de liderança brasileira nesse movimento.

Com isso, a cultura entra definitivamente na era da agricultura de precisão, abrindo caminho para ganhos expressivos de produtividade, eficiência e sustentabilidade no agronegócio brasileiro.

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