Com menor rebanho dos EUA desde 1951, avanço das importações da China e restrições ambientais na Europa, mercado mundial da carne bovina vive pressão inédita e especialistas alertam que alta ainda está longe do fim
Os preços globais da carne bovina atingiram um novo recorde histórico e acenderam um alerta em toda a cadeia mundial de proteína animal. O valor internacional da carne bovina chegou a US$ 3,42 por libra-peso — o equivalente a cerca de US$ 7.540 por tonelada —, quase três vezes acima do registrado há apenas seis anos. O movimento é resultado de uma combinação de fatores estruturais, que envolvem redução de rebanhos, aumento da demanda global, limitações biológicas da pecuária e até políticas ambientais adotadas na Europa.
Segundo análise divulgada pela European Business Magazine (EBM), o cenário atual não representa apenas uma alta passageira de mercado, mas sim uma mudança estrutural na oferta global de carne bovina. A publicação aponta que o mundo enfrenta uma combinação rara de escassez de animais, crescimento das importações e dificuldade de recuperação produtiva, o que deve sustentar os preços elevados por vários anos.
A disparada nos preços já impacta diretamente o consumidor. Desde 2020, os preços da carne moída subiram 48%, enquanto os cortes bovinos tiveram alta de 41% em diversos mercados internacionais. Além disso, o custo da alimentação doméstica aumentou cerca de 25% nos últimos cinco anos. Para os analistas da EBM, os números refletem uma crise estrutural de longo prazo e não apenas oscilações momentâneas do mercado.
Um dos principais fatores para essa valorização histórica está nos Estados Unidos. O país vive o menor rebanho bovino desde 1951, com apenas 86,2 milhões de cabeças registradas. Já o rebanho de vacas de corte caiu para 27,6 milhões, o menor nível desde 1961. A redução começou após secas severas nas Grandes Planícies, que obrigaram produtores a vender matrizes por falta de alimento e condições climáticas adequadas.
Mesmo com melhora parcial das chuvas em algumas regiões norte-americanas, a recuperação do rebanho acontece de forma extremamente lenta. Até abril de 2026, o abate de novilhos caiu 8,2%, enquanto o de novilhas recuou 11,5%. Já o abate de vacas de corte registrou queda de 17,4%, marcando o quarto ano consecutivo de retração de dois dígitos.
Ao mesmo tempo em que produz menos, os Estados Unidos passaram a importar muito mais carne bovina. Apenas nos dois primeiros meses de 2026, as importações cresceram cerca de 60% em relação ao mesmo período do ano anterior, numa tentativa de compensar o déficit interno de oferta.
A China também aparece como peça-chave nesse cenário global. O país asiático elevou suas compras internacionais de carne bovina acima dos níveis registrados em 2025, antecipando importações diante das mudanças previstas em cotas e tarifas. Isso fez com que a oferta mundial fosse absorvida em ritmo ainda mais acelerado.
Outro fator destacado pelos analistas é o chamado “limite biológico” da pecuária bovina. Diferente de outras proteínas, a produção de carne bovina exige tempo. Uma vaca leva cerca de nove meses de gestação e o animal ainda necessita entre 18 e 22 meses para atingir peso ideal de abate. Ou seja, mesmo que os produtores ampliem investimentos imediatamente, o mercado só começaria a sentir aumento relevante de oferta entre 2028 e 2029.
Na Europa, o cenário também é de forte pressão sobre a oferta. Países da União Europeia registraram aumentos expressivos nos preços da carne bovina em 2025, com altas superiores a 18% em algumas regiões. Irlanda, Portugal, República Tcheca e Eslovênia aparecem entre os países mais impactados.
De acordo com a EBM, políticas ambientais e restrições ligadas à transição ecológica reduziram significativamente a capacidade produtiva dos pecuaristas europeus. Regras relacionadas a emissões, uso da terra e diretivas ambientais acabaram limitando a manutenção dos rebanhos, diminuindo a produção interna de carne bovina.
Nem mesmo o acordo entre União Europeia e Mercosul deve resolver rapidamente o problema. Embora o tratado permita uma cota anual de 99 mil toneladas de carne bovina com tarifa reduzida de 7,5%, o Brasil — maior exportador mundial da proteína — também vive um ciclo de recomposição de rebanho. Segundo a análise, a oferta global simplesmente não existe nas quantidades exigidas atualmente pelo mercado internacional.
O avanço histórico das cotações também começou a pressionar os frigoríficos globais. A Tyson Foods, uma das maiores processadoras de carne do mundo, registrou prejuízo operacional de US$ 319 milhões em seu segmento bovino no primeiro trimestre de 2026, resultado da margem negativa entre o custo do boi e o valor de venda da carne.
Enquanto isso, os pecuaristas vivem um dos momentos mais lucrativos das últimas décadas. A escassez global de animais, combinada com demanda aquecida e limitações produtivas, criou um cenário extremamente favorável para quem possui oferta de gado pronto.
Analistas internacionais já projetam novas altas para os próximos meses. As estimativas indicam preços do gado confinado entre US$ 255 e US$ 265 por 45 kg nos Estados Unidos em meados de 2026, justamente no período considerado mais crítico de restrição de oferta.
Na Europa, a previsão é de aumento adicional de 6,3% nos preços da carne bovina ainda em 2026, somando-se à inflação acumulada de 12,1% registrada anteriormente.
Para os especialistas, o mercado global ainda está longe de atingir o pico definitivo de preços. A expectativa é de que a oferta continue apertada ao menos até 2028, mantendo o cenário de valorização da carne bovina em níveis historicamente elevados.
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