Carne bovina dos EUA retorna à Austrália depois de 23 anos e muda o jogo no comércio internacional

Decisão encerra restrição imposta após caso de BSE em 2003, reforça o Acordo de Livre Comércio entre os dois países e abre nova frente de disputa no mercado global da carne bovina.

A carne bovina norte-americana está oficialmente de volta às prateleiras e mesas australianas após mais de duas décadas de ausência. O retorno, formalizado em cerimônia realizada no Consulado dos Estados Unidos em Sydney, simboliza o fim de um embargo que começou em 2003, quando a detecção de encefalopatia espongiforme bovina (BSE) no rebanho americano levou à suspensão das importações pela Austrália.

O evento reuniu representantes do comércio de carne vermelha, atacadistas, donos de restaurantes, profissionais do setor de food service, influenciadores, autoridades governamentais e representantes comerciais. No cardápio, cortes classificados como USDA Choice e USDA Prime, preparados em diferentes estilos — do tradicional rosbife à costela assada ao estilo sulista e hambúrgueres premium. Entre os fornecedores estavam a gigante processadora Tyson e a empresa True West.

A retomada do comércio ocorre após a Austrália reconhecer formalmente que a carne bovina dos EUA atende aos requisitos de segurança alimentar e saúde animal, encerrando um processo técnico e científico que se estendeu por anos. O embargo havia sido imposto após a identificação de BSE no rebanho americano, em 2003.

Em julho do ano passado, o governo australiano anunciou que o comércio poderia ser retomado, após concluir o protocolo de avaliação de risco. O processo sofreu atrasos porque as autoridades americanas decidiram ampliar o escopo da solicitação, incluindo não apenas gado nascido, criado e processado nos EUA, mas também animais originários do México e do Canadá, enviados vivos para processamento em território americano.

A reabertura posiciona a Austrália entre cerca de cem países que atualmente importam carne bovina dos Estados Unidos.

O comércio de carne bovina entre os dois países sempre foi intenso — ainda que em sentido majoritário da Austrália para os EUA. No último ano, os Estados Unidos importaram 480 mil toneladas de carne bovina australiana, totalizando aproximadamente US$ 3,6 bilhões. Cerca de 25% das exportações australianas de carne bovina têm como destino o mercado americano.

Além da carne bovina, as exportações agrícolas americanas para a Austrália alcançaram US$ 700 milhões no último ano, número que o governo dos EUA pretende ampliar. Autoridades comerciais destacaram que o objetivo agora é fortalecer uma parceria mais equilibrada e recíproca.

Nos últimos cinco anos, o déficit comercial agrícola dos EUA com a Austrália saltou de cerca de US$ 1,8 bilhão para US$ 5 bilhões, o que aumenta a pressão por maior acesso de produtos americanos ao mercado australiano.

O retorno da carne bovina americana também é interpretado como uma concretização tardia dos benefícios previstos no Acordo de Livre Comércio entre EUA e Austrália, que entrou em vigor em 2005. Autoridades americanas ressaltaram que, após décadas de negociações e ajustes técnicos, os pecuaristas dos EUA finalmente passam a colher resultados práticos do acordo.

A expectativa é que o produto norte-americano, reconhecido pelo sistema de terminação em grãos, alto grau de marmoreio, maciez e sabor intenso, encontre nichos específicos no mercado australiano, especialmente no segmento premium e no food service.

Representantes diplomáticos classificaram o momento como uma vitória comercial histórica para os Estados Unidos, mas também como uma vitória gastronômica para os consumidores australianos, que passam a ter acesso a um novo perfil de carne bovina, com características distintas da produção majoritariamente a pasto da Austrália.

O processo de reabertura envolveu trabalho conjunto entre órgãos como o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) e seus equivalentes australianos — o Departamento de Agricultura, Pesca e Alimentação (DAFF) e o Departamento de Relações Exteriores e Comércio (DFAT).

Apesar da solenidade marcar oficialmente a retomada das importações, a carne bovina americana já havia sido consumida em território australiano semanas antes.

Em 9 de fevereiro, um navio da companhia de cruzeiros Oceania, atracado no porto de Sydney, promoveu um evento para a imprensa especializada com carne classificada como USDA Prime no menu. Tecnicamente, o produto não foi “importado” para a Austrália, mas consumido como “provisão de bordo” — categoria que permite que alimentos adquiridos no exterior sejam utilizados a bordo sem passar pelos trâmites alfandegários locais.

Esse tipo de operação não é incomum. No sentido inverso, mais de 700 toneladas de carne bovina australiana classificadas como “Produtos Navais” foram exportadas no último ano, divididas entre cortes refrigerados e congelados, destinados a cruzeiros, embarcações comerciais e militares.

A retomada abre espaço para uma nova dinâmica competitiva no mercado australiano, tradicionalmente um dos maiores exportadores globais de carne bovina. Embora o volume inicial de carne americana ainda não tenha sido divulgado, o simbolismo político e comercial do movimento é relevante.

Para os Estados Unidos, trata-se de consolidar presença em um mercado desenvolvido e altamente regulado. Para a Austrália, significa ampliar a oferta e reforçar a reciprocidade comercial dentro de uma relação já estratégica.

Depois de 23 anos de ausência, a carne bovina americana volta ao radar do consumidor australiano — agora sob o argumento de segurança sanitária reconhecida, parceria comercial ampliada e novas oportunidades de negócios para dois gigantes globais da proteína animal.

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