Carne cara e rebanho em colapso: EUA recorrem à Argentina e decisão gera guerra no setor pecuário

Com a carne bovina atingindo valores recordes e o menor rebanho em mais de 70 anos, o governo amplia importações para elevar a oferta, enquanto pecuaristas criticam a medida e alertam para riscos à produção nacional e ao equilíbrio do mercado.

A pecuária dos Estados Unidos enfrenta uma combinação rara e preocupante de fatores que pressionam toda a cadeia da carne bovina — da fazenda ao supermercado. A redução estrutural do rebanho, os efeitos prolongados da seca, o aumento dos custos de produção e a escalada dos preços ao consumidor levaram o governo do presidente Donald Trump a adotar uma medida emergencial: ampliar temporariamente as importações de carne bovina argentina para tentar conter a inflação dos alimentos.

A decisão foi formalizada por meio de uma ordem executiva que eleva em 80 mil toneladas métricas a quota tarifária para importação de aparas magras de carne bovina ao longo de 2026. O volume será liberado exclusivamente para a Argentina e distribuído em quatro parcelas iguais, com início em 13 de fevereiro.

Segundo o governo americano, a iniciativa busca aumentar a oferta doméstica e tornar a carne moída mais acessível, especialmente em um momento em que os preços atingem níveis historicamente elevados.

Dados do Bureau of Labor Statistics mostram que o preço médio da carne moída chegou a US$ 6,69 por libra (uma libra equivale a cerca de 453 gramas) em dezembro de 2025, o maior patamar desde que o indicador passou a ser monitorado, ainda na década de 1980.

Já no varejo, números do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apontam que o preço médio da carne bovina saltou de US$ 8,51 por libra em agosto de 2024 para US$ 9,85 um ano depois, avanço próximo de 16% — movimento que reforça a percepção de escassez.

O próprio decreto presidencial reconhece que a crise atual é resultado de uma diminuição prolongada do rebanho bovino americano, hoje no menor nível em mais de sete décadas.

Entre os principais fatores estão:

  • Secas persistentes em estados-chave da produção, como Texas e Kansas;
  • Incêndios florestais que comprometeram pastagens e estoques de ração;
  • Custos elevados de alimentação animal;
  • Envelhecimento da população de pecuaristas.

Sem pasto suficiente e com o alimento cada vez mais caro, muitos produtores foram obrigados a reduzir seus plantéis e vender animais precocemente, inclusive vacas matrizes essenciais para a reposição futura. Esse movimento compromete o ciclo produtivo e torna a recuperação ainda mais lenta.

Especialistas do setor concordam que não há solução rápida: levar um bovino ao peso de abate pode levar cerca de dois anos, enquanto a reconstrução completa dos rebanhos exige um horizonte ainda maior.

Levantamento do Federal Reserve de Kansas City mostra que o agravamento da seca provoca efeitos diretos na produção pecuária. A cada aumento na severidade do clima, as regiões produtoras registram:

  • queda de aproximadamente 12% na produção de feno;
  • alta de cerca de 5% nos preços do alimento;
  • redução de 1% no tamanho dos rebanhos;
  • retração de quase 4% na renda agrícola.

Outro estudo, conduzido pela Farm Bureau, revelou que cerca de dois em cada três pecuaristas venderam parte do gado, passando a operar com aproximadamente um terço menos animais do que anteriormente.

Em algumas áreas tradicionais de produção, propriedades chegaram a enfrentar quase três meses sem chuva, cenário que evidencia como os eventos climáticos extremos vêm remodelando a pecuária americana.

Apesar de apresentada como uma solução emergencial, a ampliação das importações enfrenta resistência da indústria pecuária. A principal associação do setor avalia que aumentar o volume de carne estrangeira não ataca a causa estrutural do problema, que é a falta de oferta doméstica.

A entidade também demonstra preocupação com questões sanitárias, defendendo que qualquer expansão das compras internacionais deveria ser acompanhada por protocolos de inspeção mais rigorosos e auditorias atualizadas para evitar riscos ao rebanho americano e aos consumidores.

Ao mesmo tempo, parte dos produtores vê a iniciativa como um reconhecimento indireto de que o país enfrenta um déficit produtivo relevante — algo incomum para uma das maiores potências agropecuárias do mundo.

Outro ponto que ganha força na discussão é a elevada concentração do processamento de carne nos Estados Unidos.

As chamadas “Quatro Grandes” — Tyson Foods, JBS, Cargill e National Beef — respondem por cerca de 85% do gado terminado que chega ao mercado consumidor. Essa estrutura faz com que grande parte do valor agregado da carne seja capturada após o animal deixar a fazenda.

Indicadores mostram que, embora os pecuaristas estejam recebendo um pouco mais pelo gado vivo do que anos atrás, os maiores aumentos de preço acontecem nas etapas seguintes da cadeia, como abate, processamento, logística e varejo.

Essa diferença crescente entre o valor pago ao produtor e o preço nas prateleiras reforça o debate sobre transparência e equilíbrio na formação dos preços.

Mesmo com a inflação da carne, o consumo permanece robusto. A proteína bovina continua liderando as vendas na seção de carnes frescas dos supermercados americanos.

Segundo a Beef Research, o setor movimentou cerca de US$ 44,3 bilhões no último ano, crescimento de 12% — desempenho superior ao de proteínas concorrentes como frango, suínos e peru.

O dado revela um cenário desafiador: demanda aquecida diante de uma oferta cada vez mais restrita, combinação que tende a manter os preços elevados.

A ampliação temporária das importações foi apresentada pela Casa Branca como uma resposta às condições atuais de mercado — e não como uma mudança permanente na política comercial. Ainda assim, a decisão reacende um debate estratégico sobre o futuro da pecuária americana.

Analistas destacam que a acessibilidade da carne no longo prazo dependerá menos de medidas emergenciais e mais da capacidade do país de reconstruir seu rebanho, fortalecer os produtores e aumentar a resiliência da produção diante das mudanças climáticas.

Com o fornecimento de gado no nível mais baixo em 70 anos e uma recuperação que pode levar vários ciclos produtivos, cresce a percepção de que os Estados Unidos entraram em uma nova fase da pecuária — marcada por maior volatilidade, riscos climáticos e disputas sobre o papel das importações.

Enquanto isso, a pressão já é sentida tanto nas fazendas quanto nos supermercados, indicando que a chamada “tempestade perfeita” da carne bovina americana ainda está longe de se dissipar.

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