Carne com ‘bicheira’: Por que remover a parte afetada não torna o resto seguro para consumo?

Limpar a ferida não resolve o problema: bactérias podem permanecer no organismo. Entenda o risco de septicemia e por que especialistas reprovam o consumo de carne com bicheira, mesmo após cortar a parte lesionada

Uma dúvida comum entre consumidores e até pequenos produtores rurais refere-se ao aproveitamento da carne com bicheira. A crença popular sugere que basta remover a área lesionada pelas larvas para que o restante do corte esteja apto para o consumo. No entanto, a ciência veterinária e as normas de inspeção sanitária indicam que o problema é muito mais profundo e perigoso do que a ferida visível a olho nu.

O risco sistêmico da carne com bicheira

Para entender por que o descarte apenas da parte afetada é insuficiente, é preciso compreender a gravidade da doença. A miíase cutânea, causada pelas larvas da mosca Cochliomyia hominivorax, cria uma ferida aberta que funciona como uma porta de entrada massiva para bactérias patogênicas e oportunistas.

Não se trata apenas das larvas visíveis. O problema real é a circulação de toxinas. Quando a infestação é severa, o animal entra em um estado inflamatório agudo. As bactérias e suas toxinas podem cair na corrente sanguínea — um processo chamado de bacteremia ou toxemia.

Isso significa que, embora o corte de carne pareça visualmente “limpo” longe da ferida, os vasos capilares que irrigam aquela musculatura podem estar carregados de metabólitos bacterianos nocivos. Consumir carne com bicheira oriunda de um animal febril viola os princípios básicos de higiene e pode causar intoxicações alimentares em humanos.

O que diz a legislação sanitária

No Brasil, o rigor do sistema de inspeção visa proteger o consumidor. Animais que chegam ao abate com infestações generalizadas, febre ou sinais de infecção sistêmica são desviados da linha de consumo humano.

A carcaça não é aproveitada. Dependendo do grau de comprometimento e das lesões, ela deve ser condenada, pois a carne com bicheira é, tecnicamente, um produto de risco sanitário, impróprio para a mesa.

Impacto Econômico: R$ 500 milhões em perdas

Além da questão de saúde pública, a bicheira representa um prejuízo financeiro gigantesco para a pecuária nacional. Dados da Embrapa apontam que as perdas econômicas causadas por essas infestações somam cerca de R$ 500 milhões anualmente no Brasil.

Esse montante inclui:

  • Perda de peso do animal (que deixa de comer por dor e febre);
  • Desvalorização do couro na indústria;
  • Custos operacionais e medicamentosos;
  • Mortalidade em casos extremos.

“Essas infestações comprometem o bem-estar dos animais e resultam em custos com o tratamento e perdas na produtividade”, explica o médico-veterinário Thales Vechiato, especialista em sanidade de grandes animais.

Identificação e agravamento do quadro

O produtor deve estar atento aos sinais clínicos, pois os bovinos são os principais hospedeiros da mosca Cochliomyia hominivorax.

De acordo com especialistas, os sintomas clássicos incluem lesões na pele com odor forte, secreções purulentas, febre alta e perda de apetite. “Em casos graves, as infestações podem evoluir rapidamente para complicações sérias, como septicemia [infecção generalizada], podendo levar à morte do animal”, alerta Vechiato. É justamente essa evolução para infecção generalizada que invalida a segurança da carne com bicheira.

Protocolos de tratamento: Como evitar o descarte

Para evitar que o animal chegue a um estado crítico — onde o abate sanitário ou a morte sejam os únicos desfechos —, a intervenção deve ser rápida.

O tratamento padrão ouro envolve o uso de larvicidas e antissépticos de ação tópica e sistêmica. O objetivo é duplo: eliminar as larvas imediatamente para cessar o dano tecidual e desinfetar a ferida para impedir que bactérias invadam a corrente sanguínea.

O uso correto de medicamentos veterinários, sejam eles sprays, pomadas ou injetáveis, estanca o ciclo da doença. Ao curar a ferida no estágio inicial, o produtor evita a contaminação sistêmica, preserva o bem-estar do rebanho e garante que a carne produzida na propriedade seja segura e de alta qualidade.

Escrito por Compre Rural

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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