Degustação na Patagônia impulsiona nova cadeia produtiva com carne de burro na Argentina, que avança sem relação com a crise econômica e já atrai novos produtores
Por Alex Bastos* – A carne de burro virou notícia na imprensa nesta última semana após um restaurante argentino, em Trelew, na Patagônia, promover um evento de degustação de pratos feitos com a proteína, que em poucas horas se esgotaram. O açougue da região que passou a vender a carne também viu seu estoque acabar rapidamente.
E como o mercado é soberano, ou seja, o consumidor aprovou o sabor da carne de jumento, a tentativa de ligar o sucesso da iniciativa a questões políticas do governo de Javier Milei não deu resultado. Agora, uma iniciativa idealizada por um único produtor já está ganhando a adesão de outros no país.
O próprio idealizador do projeto, o produtor rural Julio Cittadini, afirmou que não há qualquer relação com a atual situação econômica da Argentina. A história, na verdade, está ligada à um realinhamento da estratégia de produção de carne para atender o mercado local.
Pecuarista há 60 anos, ele criava ovelhas na província de Chubut, na Patagônia. Porém, por conta de predadores da região, como o puma, já não conseguia mais manter um rebanho de ovinos para produção de carne. Como as condições geográficas da Patagônia não são favoráveis à criação de bovinos, Cittadini apostou no burro, um animal que há décadas faz parte da história do local e, no passado, foi muito utilizado para trabalhos de transporte.
O projeto vem sendo estruturado há dois anos pelo pecuarista e tem a autorização das autoridades sanitárias locais e nacionais para o abate. Como são rústicos e férteis, os asininos adaptaram-se muito bem às condições da Patagônia, cujo clima é rigoroso e o relevo é irregular, além de não sofrerem com os ataques de pumas.
O custo mais baixo do quilo da carne de burro (7500 pesos – R$26,97 na cotação atual) trata de uma estratégia das autoridades locais para promover o produto entre os consumidores nesta primeira fase do projeto. O sabor é parecido com a de carne bovina, favorecendo sua rápida popularização neste curtíssimo tempo que chegou ao mercado.
Um ponto a se destacar é que, mesmo sendo grandes consumidores de carne bovina, com uma média de consumo per capita de carne bovina (49,4 kg/hab/ano) bem acima de outros países, os argentinos sempre apreciaram outros tipos de carne, como de guanaco e de lhama.
Na província de Corrientes, está em andamento um projeto para processar carne de espécies que não fazem parte da fauna local, como o veado-axis e o javali, garantindo a estruturação de uma indústria com valor agregado e controles sanitários. A iniciativa visa reduzir o impacto ambiental dessas espécies e gerar novas oportunidades econômicas em áreas rurais. O plano inclui a participação do setor privado e o apoio de municípios como Sauce e Perugorría, onde essas espécies se reproduzem em alta taxa.
Apesar do sucesso da carne de jumento entre os consumidores, houve uma reação por parte de ONGs, que entraram na Justiça para impedir o abate alegando que o Código Alimentar Nacional proíbe o consumo. A informação não procede. O Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar (Senasa) informou que não há qualquer restrição ao consumo de carne de burro. A legislação somente cita que, qualquer carne para ser consumida pela população argentina, precisa ser produzida dentro dos requisitos sanitários.
E não é só a carne. Agora, o leite de burra também está ganhando repercussão na Argentina e vem sendo apontado como uma das propostas mais inovadoras do setor lácteo argentino. O produto é divulgado como uma das novidades da feira TodoLáctea, que se realizará em maio, em Córdoba. O leite de burra tem grande valor nutricional, aplicações terapêuticas, é reconhecido por ser hipoalergênico e ter uma composição similar à do leite materno, além de potencial para desenvolvimento industrial já que tem alto valor agregado.
Enquanto a Argentina avança, no Brasil, a iniciativa de estruturar uma cadeia produtiva de jumentos, para produção de carne e de leite, enfrenta resistência de ONGs internacionais, que não resolveram até hoje o problema do abandono dos animais pelo Nordeste e preferem focar o discurso em números inverídicos sobre a população de jumentos. A carne e leite de jumento são consumidas e produzidas em diversos países, inclusive na Europa, região de origem dessas ONGs.
É preciso avançar para um projeto que beneficie a todos, levando renda de forma sustentável para a população e garantindo alimentos de qualidade. Foi o que aconteceu com a cadeia produtiva bovina, hoje maior produtora de carne do mundo e geradora de renda para milhões de brasileiros. Felizmente, os brasileiros que domesticaram os bovinos e investiram em sua multiplicação para produção de carne e leite tiveram visão de futuro e contribuíram para tornar o agro brasileiro em uma grande potência.
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