Prática histórica conhecida como “pannage”, transforma porcos em aliados ecológicos e garante equilíbrio na biodiversidade da floresta inglesa.
Em uma das mais antigas e preservadas regiões naturais da Inglaterra, centenas de porcos foram soltos na New Forest, no sul do país, para cumprir uma função ambiental estratégica: reduzir os riscos de envenenamento de pôneis e gado pela ingestão de bolotas. A medida faz parte de uma tradição milenar chamada pannage, praticada desde o século XI e considerada um dos últimos exemplos vivos de gestão ecológica pré-industrial ainda em funcionamento.
A New Forest, criada por Guilherme, o Conquistador, em 1079, cobre quase 560 km² e mantém costumes ancestrais de uso da terra. Entre eles está o direito legal concedido aos proprietários de porcos de soltá-los para pastar durante a temporada de pannage — um período específico do ano em que os animais são liberados para consumir bolotas, castanhas e sementes de faia.
Esses alimentos, embora nutritivos para os porcos, são tóxicos para pôneis e bovinos que também circulam livremente pela floresta. Ao remover as bolotas do solo, os suínos ajudam a prevenir intoxicações e mortes de outros animais, desempenhando um papel ecológico fundamental.
De acordo com o Parque Nacional de New Forest, entre 200 e 600 porcos são soltos a cada temporada, número que chegava a 6.000 no século XIX. Os animais são marcados e identificados, e recebem argolas no focinho para evitar que escavem demais o solo, minimizando o impacto ambiental.
Os “verderers”, autoridades locais responsáveis por supervisionar o uso da terra, iniciaram a temporada de 2025 em meados de setembro, impulsionados por uma safra excepcional de bolotas. A expectativa é que o pannage siga até 28 de novembro, podendo ser estendido se a quantidade de frutos for maior que o habitual.
O pannage é considerado uma parte vital da ecologia da Nova Floresta, não apenas por eliminar riscos de envenenamento, mas também por estimular a biodiversidade e manter o equilíbrio entre espécies. A prática permite que os porcos contribuam naturalmente com a limpeza da floresta, enquanto os demais animais podem pastar com segurança.
Essa gestão ecológica tradicional reflete um sistema de convivência entre homem, natureza e animais que sobreviveu à industrialização e continua a inspirar políticas de manejo sustentável em outras regiões.
Durante o período de pannage, as autoridades reforçam os alertas de segurança para visitantes. A New Forest Hotels, organização que atua na região, lembrou que os porcos não compreendem regras de trânsito, e acidentes com veículos já foram registrados em anos anteriores.
Os visitantes são orientados a manter distância segura, evitar alimentar os animais e dirigir com cautela nas estradas da floresta. Além disso, foram incentivados a registrar e compartilhar imagens dos porcos de forma responsável, valorizando o espetáculo natural sem interferir na rotina da fauna.
A temporada de pannage representa mais do que uma medida ambiental: é um símbolo da herança britânica e do respeito por tradições que unem história, cultura e sustentabilidade. Em um mundo cada vez mais urbanizado, a New Forest mantém viva uma relação ancestral entre o homem e a natureza, onde os porcos atuam como verdadeiros guardiões ecológicos da floresta.
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