China acelera uso da cota e tarifa de 55% sobre carne bovina brasileira pode começar em junho

Com exportações em ritmo recorde, Brasil já atingiu 50% da cota de carne bovina na China para 2026; setor vê risco de desaceleração nos embarques e mercado começa a projetar impactos sobre preços da arroba, frigoríficos e exportações nos próximos meses

O mercado da carne bovina brasileira entrou em alerta neste domingo (10) após o governo da China confirmar oficialmente que o Brasil já atingiu 50% da cota prevista no mecanismo de salvaguarda para importações de carne bovina em 2026. O comunicado reforça a preocupação do setor exportador brasileiro, especialmente porque o ritmo dos embarques segue extremamente acelerado e pode antecipar o esgotamento total da cota ainda entre junho e julho.

Segundo o comunicado divulgado pelas autoridades chinesas, “a carne bovina importada do Brasil sob as medidas de salvaguarda atingiu 50% da quantidade estipulada pelo Ministério do Comércio no Anúncio nº 87 de 2025, em 9 de maio de 2026”. O texto também destaca que será aplicada uma tarifa adicional de 55% a partir do terceiro dia após o preenchimento total da cota.

A notícia chega justamente em um momento em que as exportações brasileiras seguem renovando recordes históricos. Dados compilados pela Agrifatto, com base na Secretaria de Comércio Exterior (Secex), mostram que o Brasil exportou 300,17 mil toneladas de carne bovina em abril de 2026, somando produtos in natura, industrializados e miúdos. O volume representa alta de 6,78% sobre março e avanço de 4,91% na comparação anual.

Trata-se do maior volume já registrado para um mês de abril.

Somente os embarques de carne bovina in natura alcançaram 251,9 mil toneladas no período, enquanto a receita gerada chegou a US$ 1,72 bilhão, impulsionada pela valorização do preço médio da tonelada exportada.

No acumulado do ano, o Brasil já embarcou 1,12 milhão de toneladas, crescimento de 13,02% em relação ao mesmo período de 2025.

China segue dominante e sustenta recordes brasileiros

Mesmo com o avanço da discussão sobre salvaguardas e cotas, a China continua sendo, de longe, o principal destino da carne bovina brasileira.

Em abril, o país asiático comprou 135,47 mil toneladas, equivalente a 45,13% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil no mês. Os Estados Unidos aparecem em segundo lugar, com 42,36 mil toneladas e participação de 14,11%.

A Agrifatto destaca que o crescimento das exportações brasileiras foi sustentado quase exclusivamente pela força das compras chinesas e norte-americanas. Segundo a consultoria, excluindo a China do cálculo, o embarque médio para os demais destinos caiu 11,81% no comparativo mensal.

O avanço chinês impressiona principalmente porque ocorreu em meio ao debate sobre restrições comerciais. Na comparação anual, as compras chinesas cresceram 27,04%.

Abiec admite preocupação e setor já esperava avanço da cota

Em declaração, a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne) afirmou que ainda não recebeu comunicação oficial sobre o avanço do preenchimento da cota, mas reconheceu que o cenário já era esperado pelo setor.

Segundo a entidade, a percepção interna é de que a China já tenha recebido mais de 60% da cota brasileira neste ano, considerando cargas em trânsito e embarques já realizados.

A diferença entre os números brasileiros e chineses ocorre por causa do chamado “transit time”, período médio de aproximadamente 45 dias entre o embarque da carne no Brasil e sua chegada ao mercado chinês.

Dados do MDIC mostram ainda que, entre janeiro e abril, a China respondeu por 43,5% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil.

Agrifatto vê risco de cota de carne bovina na China acabar já em junho

A Agrifatto avalia que o principal ponto de atenção do mercado neste momento é justamente a velocidade de utilização da cota chinesa.

Segundo a consultoria, o ritmo médio de embarques para a China nos últimos meses ficou próximo de 115 mil toneladas mensais. Considerando as cargas em trânsito e os embarques realizados desde o início do ano, há cenários em que a cota pode ser totalmente preenchida já no começo de junho.

O cenário mais conservador aponta para esgotamento em julho, especialmente diante dos sinais recentes de desaceleração das negociações por parte dos importadores chineses.

A própria consultoria já identifica enfraquecimento nas negociações para maio.

“As negociações com os importadores chineses já apresentam sinais de enfraquecimento, o que deve moderar os volumes embarcados e indicar uma acomodação natural do mercado à medida que o limite das cotas se aproxima”, destacou a Agrifatto.

Mercado projeta impacto entre junho e outubro

Para o analista Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercados, o comunicado do governo chinês reforça a expectativa de esgotamento da salvaguarda em meados de junho.

Segundo o especialista, caso isso aconteça, o Brasil deverá enfrentar um período de exportações mais fracas para a China entre o fim de junho e meados de outubro, quando o país asiático voltaria a intensificar compras mirando a composição da cota de 2027.

Na prática, isso pode significar cerca de três meses de redução nos volumes exportados brasileiros.

O que esperar agora?

O avanço acelerado da utilização da cota chinesa coloca o mercado brasileiro diante de um dos momentos mais delicados de 2026.

De um lado, o Brasil vive um ciclo extremamente positivo nas exportações, sustentado pela forte demanda internacional, dólar valorizado e competitividade da proteína bovina brasileira. Os números recordes de abril mostram que o país segue ampliando sua presença global.

Por outro, a enorme dependência da China — responsável por cerca de 45% dos embarques — aumenta a vulnerabilidade do setor diante das medidas de salvaguarda impostas pelo governo chinês.

Caso a tarifa de 55% entre efetivamente em vigor nas próximas semanas, o cenário mais provável é de desaceleração temporária dos embarques para a China, pressão maior sobre frigoríficos exportadores e possível aumento da oferta de carne no mercado interno.

Ainda assim, analistas avaliam que o impacto tende a ser mais moderado do que em crises anteriores, principalmente porque:

  • os Estados Unidos seguem ampliando compras da carne brasileira;
  • a demanda internacional continua aquecida;
  • o Brasil mantém competitividade global;
  • e o mercado já vinha antecipando esse movimento desde o início do ano.

O comportamento da arroba do boi gordo nas próximas semanas dependerá diretamente da velocidade dessa desaceleração chinesa e da capacidade dos frigoríficos em redirecionar volumes para outros mercados.

Enquanto isso, o setor acompanha diariamente os dados de embarque e chegada de cargas à China, sabendo que o relógio da cota agora corre mais rápido do que nunca.

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