China soltou 1,2 milhão de coelhos no deserto de Kubuqi e o impossível aconteceu

Com técnicas simples e inovação local, a China reduziu as tempestades de areia no deserto de Kubuqi e criou agricultura de baixo consumo de água e um gigante parque solar.

O Deserto de Kubuqi, localizado na Região Autônoma da Mongólia Interior, no norte da China, já foi sinônimo de paisagem estéril, tempestades de areia e pobreza rural. Durante anos, a região foi tratada como um território “perdido” para a produção e para a vida. Mas essa realidade começou a mudar de forma acelerada nas últimas décadas, graças a um plano de recuperação ecológica que virou vitrine global no combate à desertificação.

Hoje, o cenário que domina boa parte do Kubuqi já não é somente o de dunas intermináveis e vento forte. A região passou a exibir extensas faixas de vegetação, áreas com atividades econômicas adaptadas ao clima árido, além de um parque de energia solar que ocupa antigas dunas. O caso chamou atenção internacional não apenas pelo tamanho da transformação, mas principalmente pela forma como uniu meio ambiente, geração de renda e tecnologia.

E é nesse contexto que entra uma história que ganhou repercussão: a soltura de 1,2 milhão de coelhos em um deserto considerado “morto”. Independentemente do simbolismo dessa ação, o que impressiona o mundo é a consequência maior: um projeto que ajudou a reverter o avanço da areia e consolidou um novo modelo de desenvolvimento em áreas degradadas.

O projeto ecológico do Kubuqi é um conjunto de medidas voltadas para recuperar terras degradadas em uma área de aproximadamente 18.600 km² de dunas, transformando um território antes marcado por erosão e instabilidade ambiental em uma região mais produtiva e resiliente.

O plano se tornou emblemático por reunir, dentro de uma mesma estratégia, a atuação do setor privado, do governo e das comunidades locais, com o objetivo de conter a desertificação e, ao mesmo tempo, criar oportunidades econômicas de longo prazo.

Uma das marcas desse trabalho foi a expansão progressiva da cobertura vegetal no ambiente árido. Espécies resistentes à seca passaram a ocupar o espaço onde antes só existia areia solta e vento, ajudando a estabilizar o solo e reduzir os efeitos das tempestades de areia.

Além do aspecto ambiental, o projeto também provocou uma mudança social importante: famílias que antes dependiam principalmente da pecuária extensiva — muitas vezes vulnerável ao clima e à degradação do solo — passaram a encontrar alternativas como plantio de árvores, cultivo de plantas medicinais e turismo, transformando o deserto em um ativo econômico.

A restauração ecológica no Kubuqi não aconteceu por uma única solução isolada, mas por uma combinação de técnicas adaptadas à realidade local.

A raça escolhida foi o coelho rex, devido à sua alta adaptabilidade a climas áridos, resistência, capacidade de escavar o solo e reprodução rápida. Foto: Freepik

Um dos primeiros passos foi o plantio em massa de árvores e vegetação por moradores contratados, o que criou empregos diretos e inseriu a população local como parte essencial da mudança.

Para aumentar a eficiência do processo e garantir resultado real no campo, a estratégia foi além do plantio: foram implementados bônus e pagamentos vinculados à taxa de sobrevivência das mudas. Na prática, isso significava que não bastava plantar — era preciso fazer a árvore vingar.

Esse modelo elevou o nível de cuidado com cada muda, tornando o projeto mais consistente e evitando desperdício de esforço e recursos em uma região onde a água é limitada e o clima impõe desafios contínuos.

Com o avanço das áreas recuperadas, o deserto começou a apresentar um efeito que foi percebido inclusive fora de seus limites: faixas verdes passaram a interromper o ciclo de erosão e reduzir a força das tempestades de areia que atingiam cidades e comunidades próximas.

O resultado foi uma melhora direta na qualidade de vida da população do entorno, mostrando que a recuperação de áreas degradadas pode gerar benefícios regionais duradouros, e não apenas locais.

O modelo do Kubuqi ganhou destaque porque não se limitou a “plantar árvores”, mas construiu um sistema com múltiplas frentes, voltado para um ambiente onde a natureza exige resistência, eficiência e adaptação.

As estratégias aplicadas focaram em três pilares principais: reflorestamento, uso eficiente da água e integração com a economia local.

Entre as práticas utilizadas, se destacam:

  • Seleção de espécies resistentes à seca, como salgueiros e arbustos nativos, capazes de sobreviver e estabilizar o solo;
  • Plantio mecanizado com jatos de água de alta pressão, acelerando o processo e aumentando a eficiência por muda;
  • Criação de faixas verdes, que funcionam como barreiras naturais para segurar a areia e proteger estradas, vilarejos e áreas produtivas;
  • Integração entre reflorestamento, agricultura de baixo consumo de água e criação de animais, formando uma cadeia econômica mais resistente às variações climáticas.

O diferencial foi construir um projeto onde a vegetação não era apenas “paisagismo”, mas sim uma infraestrutura ambiental estratégica, capaz de conter a areia e reorganizar o território.

Um dos elementos mais impressionantes do Kubuqi é como a recuperação ambiental foi conectada à energia renovável. O deserto abriga um grande parque solar, com centenas de milhares de painéis fotovoltaicos instalados sobre áreas que antes eram dunas instáveis.

A instalação de energia solar trouxe duas consequências diretas:

  1. Geração de eletricidade em larga escala, com capacidade de produzir centenas de megawatts para o sistema nacional;
  2. Criação de empregos e novas rotinas econômicas para moradores da região.

A manutenção dos painéis — especialmente a limpeza, essencial em regiões com muita poeira e areia — abriu uma nova frente de trabalho local. E há um detalhe inteligente nesse processo: em alguns pontos, a água utilizada na limpeza dos módulos fotovoltaicos passou a ser aproveitada em pequenas áreas agrícolas sob as estruturas, criando um uso mais eficiente do recurso.

Paralelamente, o projeto incentivou o cultivo de plantas medicinais adaptadas ao ambiente árido, como a raiz de alcaçuz, que contribui para a recuperação inicial do solo antes da substituição por outras culturas.

Combinadas com turismo, pecuária e serviços ligados à energia renovável, essas iniciativas elevaram a renda e ampliaram as alternativas de sustento das famílias locais — um fator decisivo para a permanência do projeto a longo prazo.

O caso do Kubuqi é frequentemente citado como referência internacional por ter conseguido enfrentar um dos maiores desafios ambientais do mundo: transformar um território dominado pela desertificação em uma região com vegetação, atividade econômica e organização social mais estável.

Delegações de países como Arábia Saudita e Paquistão visitaram a área para observar o modelo de perto, buscando compreender quais estratégias poderiam ser adaptadas a realidades similares.

Especialistas destacam que os resultados tendem a ser mais eficientes em áreas degradadas recentemente — onde ainda existe alguma capacidade de recuperação natural do solo —, mas reforçam que vários princípios do projeto podem ser aplicados em diferentes partes do mundo, como:

  • alinhar interesses econômicos e ambientais, para que o projeto se sustente financeiramente;
  • envolver comunidades em pagamentos por serviços ambientais, garantindo renda e compromisso com o resultado;
  • usar tecnologias simples, escaláveis e aplicáveis em larga escala;
  • combinar múltiplas fontes de renda no mesmo território, como agricultura, turismo, pecuária e energia renovável.

No fim, Kubuqi prova que combater a desertificação não precisa ser apenas um esforço ambiental. Quando bem planejado, pode se tornar um caminho de desenvolvimento regional, com ganhos sociais e econômicos para quem vive onde antes só havia areia e incerteza.

E a consequência que impressionou o mundo foi justamente essa: o “deserto morto” virou um modelo vivo de transformação ambiental e econômica.

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