Coleiras inteligentes, IA e bilhões em jogo, esse jovem que está revolucionando a pecuária

Criadas por um ex-produtor de leite da Nova Zelândia, as coleiras inteligentes da Halter estão revolucionando o manejo de gado, economizando horas de trabalho no campo e redesenhando o futuro da pecuária global.

O manejo do gado, uma das atividades mais tradicionais da agropecuária, está passando por uma transformação profunda impulsionada pela tecnologia digital. Na Nova Zelândia, um sistema baseado em coleiras inteligentes e cercas virtuais permite que rebanhos inteiros sejam conduzidos apenas por comandos emitidos no celular, sem a necessidade de cercas físicas, tratores ou equipes no campo. A inovação está mudando a rotina das fazendas, reduzindo custos e aumentando a eficiência produtiva.

No centro dessa revolução está a Halter, startup fundada em 2016 pelo engenheiro Craig Piggott, hoje com 31 anos. Criada inicialmente para atender propriedades leiteiras da Nova Zelândia, a tecnologia rapidamente ganhou escala internacional e hoje é considerada uma das soluções mais avançadas do mundo em manejo inteligente de bovinos.

Piggott cresceu em uma fazenda leiteira na região de Waikato, onde vivenciou desde cedo a rotina intensa da pecuária. Jornadas longas, escassez de mão de obra, altos custos com cercas e dificuldades para otimizar o uso do pasto faziam parte do dia a dia. Essa experiência prática foi decisiva para o desenvolvimento de uma solução voltada a maximizar a produtividade da terra e reduzir a dependência de trabalho manual.

Formado em engenharia mecânica pela Universidade de Auckland, Piggott iniciou sua carreira na Rocket Lab, empresa aeroespacial que se tornaria referência global. A experiência em engenharia de alta precisão e resolução de problemas complexos serviu de base para o desenvolvimento da Halter, que nasceu com foco total em inovação aplicada ao campo.

Craig Piggott, fundador e diretor executivo da Halter, com a coleira da Halter equipada com GPS e energia solar, que permite ao agricultor controlar o rebanho remotamente através de um smartphone, por meio de vibrações e sinais de áudio. Foto: odt

As coleiras desenvolvidas pela Halter são equipadas com GPS, sensores de movimento, painel solar e conectividade sem fio. Por meio de um aplicativo, o produtor cria áreas virtuais de pastejo e define limites invisíveis que orientam o deslocamento do rebanho.

O sistema utiliza estímulos progressivos para conduzir os animais:

  • Sinais sonoros direcionais, que indicam o caminho correto
  • Vibrações, reforçando o comando
  • Pulso elétrico de baixíssima intensidade, aplicado apenas em casos pontuais, com impacto muito inferior ao de cercas elétricas tradicionais

O processo de adaptação é rápido. Em média, dois a três dias são suficientes para que as vacas aprendam a responder aos comandos, permitindo um manejo preciso e contínuo.

Além de substituir cercas físicas, as coleiras funcionam como ferramentas avançadas de monitoramento animal. Os dispositivos coletam dados contínuos de saúde, como:

  • Temperatura corporal
  • Padrões de mastigação
  • Níveis de atividade e deslocamento
Craig Piggott no Rancho Brice Lewis em Salida, Colorado. Foto: Adam Bove

Essas informações são processadas por algoritmos próprios de inteligência artificial, permitindo detecção precoce de doenças, identificação do cio e melhor planejamento reprodutivo. Na prática, o produtor passa a tomar decisões com base em dados objetivos, aumentando a eficiência do rebanho e reduzindo perdas.

Atualmente, a Halter atende cerca de 1.300 propriedades na Nova Zelândia, Austrália e Estados Unidos, monitorando aproximadamente 650 mil bovinos. Já foram implantados mais de 809 mil quilômetros de cercas virtuais, número que segue em rápida expansão.

Os resultados no campo incluem:

  • Economia de 20 a 40 horas semanais de trabalho
  • Redução significativa de custos com instalação e manutenção de cercas
  • Melhor aproveitamento das pastagens e regeneração mais eficiente do capim
  • Menor dependência de mão de obra em regiões com escassez de trabalhadores

Somente nos Estados Unidos, a empresa estima que seus clientes já economizaram cerca de US$ 220 milhões em custos relacionados a cercamento convencional.

Após abrir operações no Colorado, a Halter conquistou mais de 200 produtores em 22 estados americanos, com cerca de 39.400 quilômetros de cercas virtuais instaladas. O plano de crescimento inclui mercados estratégicos como Reino Unido, Irlanda, Argentina e Brasil, países com forte presença da pecuária e grande potencial de adoção da tecnologia.

Aplicativo Halter e coleira inclusa. Foto: Halter

A estratégia da empresa tem sido demonstrar os ganhos práticos da solução diretamente aos produtores, um fator decisivo em um setor historicamente mais conservador na adoção de novas tecnologias.

Em 2025, a Halter levantou US$ 100 milhões em uma rodada de investimento Série D liderada pela BOND, alcançando avaliação de US$ 1 bilhão e consolidando-se como um dos raros unicórnios do agronegócio global.

O interesse dos investidores reflete o tamanho do mercado. A agrotecnologia deve movimentar US$ 62 bilhões até 2030, e a pecuária é vista como uma das áreas com maior espaço para ganhos de eficiência por meio da digitalização.

Embora existam outros players no segmento de cercas virtuais e monitoramento animal — como Nofence, Gallagher e Vence, além de soluções de saúde animal ligadas à Merck — analistas apontam que a Halter se diferencia pela integração completa entre manejo, análise de dados, escala e usabilidade.

Combinando simplicidade operacional e alta tecnologia, a Halter vem reposicionando a pecuária como um dos setores mais promissores para a inovação digital. Ao transformar o celular em ferramenta central de manejo do rebanho, a startup mostra que produtividade, bem-estar animal e sustentabilidade podem caminhar juntos, abrindo caminho para um novo modelo de gestão no campo.

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