Com R$ 19,9 bilhões previstos, 2026 pode marcar o maior investimento da história em ferrovias

Aporte bilionário deve impulsionar o transporte de grãos, minérios e celulose, ampliar obras estratégicas e consolidar o maior ciclo de investimentos em ferrovias da história recente do país.

O Brasil se prepara para viver um novo capítulo na infraestrutura logística. Com R$ 19,9 bilhões previstos para 2026, o setor ferroviário entra no radar como um dos principais motores de eficiência para o escoamento da produção nacional — especialmente para cadeias estratégicas como o agronegócio e a mineração. A expectativa é que o volume de obras, contratos em execução e novas autorizações transformem o período no maior ciclo de investimentos já registrado no modal ferroviário brasileiro.

Segundo a Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), os recursos serão destinados a projetos capazes de ampliar a capacidade logística e reduzir gargalos históricos no transporte de cargas. O foco está no deslocamento de grãos, minérios e celulose, produtos que exigem eficiência operacional para manter a competitividade do Brasil no comércio global.

2026 pode marcar o maior investimento ferroviário do país

De acordo com Davi Barreto, diretor-presidente da ANTF, o montante supera o registrado no ano anterior e tende a ganhar ainda mais robustez ao longo do ciclo.

O ano de 2026 deverá se consolidar como o ano de maior investimento ferroviário. E isso só com os investimentos contratados, sem contar renovação de FCA (Ferrovia Centro-Atlântica, da VLI), novas autorizações”, afirmou ao Valor Econômico.

O avanço não ocorre por acaso. O aumento do volume de obras é resultado direto de contratos firmados nos últimos anos que começam agora a sair do papel, gerando um efeito cascata de investimentos e expansão da malha ferroviária.

Entre os exemplos mais relevantes estão:

  • Construção da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), conduzida pela Vale;
  • Renovação antecipada da Malha Paulista, sob responsabilidade da Rumo.

Esses projetos são considerados estratégicos para aumentar a previsibilidade logística e diminuir custos de transporte — um fator decisivo para produtores e exportadores.

Recorde de movimentação reforça importância do modal

O crescimento do setor não se limita ao investimento financeiro. O transporte ferroviário já apresenta números históricos.

A maior movimentação já registrada foi de 408 bilhões de TKU (tonelada por quilômetro útil) — indicador que mede a eficiência do transporte de cargas — representando alta de 2,81% em relação ao ano anterior. O dado supera o antigo recorde de 2018, quando foram movimentados 407 bilhões de TKU.

Na prática, isso demonstra que a ferrovia vem se consolidando como uma alternativa cada vez mais relevante frente ao transporte rodoviário, tradicionalmente predominante no país.

Minério lidera — mas agro ganha espaço

A composição das cargas transportadas ajuda a explicar a dinâmica do setor:

  • Minério: responde por 67,7% do total, mantendo-se como principal produto;
  • Soja: representou 6,5% das participações no último ano;
  • Celulose: ainda com apenas 2%, mas com crescimento expressivo de 26,1%, sinalizando expansão futura.
VLI e Tereos fazem 1ª operação ferroviária de açúcar com compensação de carbono
Foto: Divulgação

Embora o minério continue dominante, o avanço de commodities agrícolas e florestais reforça uma tendência clara: o agro deve ampliar sua dependência das ferrovias para garantir competitividade internacional, especialmente em cenários de margens mais apertadas.

Impactos diretos para o agronegócio

Para o campo, o fortalecimento do modal ferroviário representa mais do que infraestrutura — trata-se de uma vantagem estratégica.

Entre os principais efeitos esperados estão:

  • Redução do custo logístico, fator crítico para exportações;
  • Maior previsibilidade no escoamento da safra, diminuindo riscos operacionais;
  • Menor dependência das rodovias, frequentemente afetadas por congestionamentos e variações no preço do frete;
  • Ganho de competitividade frente a grandes players globais, como Estados Unidos e Argentina.

Em um país com dimensões continentais, especialistas costumam destacar que cada avanço na logística tem efeito direto sobre a rentabilidade do produtor.

Uma mudança estrutural na logística brasileira

O pacote de investimentos sinaliza uma mudança gradual no perfil da infraestrutura nacional. Historicamente concentrado nas rodovias, o Brasil começa a diversificar sua matriz de transporte — movimento visto como essencial para sustentar o crescimento da produção agrícola e mineral nas próximas décadas.

Se confirmadas as projeções, 2026 pode entrar para a história como o ano em que o país acelerou a modernização ferroviária, abrindo caminho para uma logística mais eficiente, integrada e alinhada às exigências do comércio internacional.

Mais do que trilhos e locomotivas, o investimento bilionário aponta para uma transformação estrutural: um Brasil mais competitivo depende — cada vez mais — de ferrovias fortes.

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