Durante décadas, a Companhia Brasileira de Tratores (CBT) foi símbolo da indústria nacional, dominou o mercado de máquinas agrícolas e acompanhou a expansão do Cerrado. Mas mudanças econômicas, concorrência internacional e decisões estratégicas equivocadas levaram a empresa ao colapso, encerrando uma das histórias mais marcantes da mecanização agrícola brasileira
O som característico dos antigos tratores CBT ainda ecoa em diversas regiões do país. Mesmo após mais de 30 anos do encerramento de suas atividades, os equipamentos seguem reunindo admiradores em encontros de colecionadores, eventos rurais e comunidades espalhadas pelas redes sociais. A cena mostra que a marca deixou um legado que vai além da nostalgia: representa um período em que o Brasil desenvolvia tecnologia própria para atender às necessidades do campo.
Essa memória ficou evidente em encontros recentes de proprietários de tratores CBT, que atraem participantes de vários estados brasileiros e até de países vizinhos. Em uma era marcada por máquinas conectadas, agricultura digital e operação por satélite, os antigos tratores continuam despertando fascínio justamente pela simplicidade, robustez e resistência.
Uma empresa que nasceu junto com a expansão agrícola
A história da Companhia Brasileira de Tratores (CBT) está diretamente ligada ao avanço da agricultura nacional na segunda metade do século XX. Fundada pelo empresário Mário Pereira Lopes, a empresa instalou suas operações em Ibaté e São Carlos, no interior paulista, em um período em que o país buscava fortalecer sua indústria por meio da substituição de importações.
Nas décadas de 1970 e 1980, a CBT conquistou espaço ao desenvolver máquinas adaptadas à realidade brasileira. Enquanto muitos equipamentos importados apresentavam limitações diante das condições encontradas no campo nacional, especialmente nas áreas de expansão agrícola do Cerrado, os tratores da fabricante foram projetados para suportar calor intenso, poeira, solos compactados e jornadas pesadas de trabalho.
O crescimento da fronteira agrícola exigia máquinas capazes de abrir novas áreas, arrancar tocos, preparar solos difíceis e operar em regiões ainda carentes de infraestrutura. Foi nesse ambiente que a CBT consolidou sua reputação.
Ao longo de sua trajetória, a empresa produziu aproximadamente 111 mil tratores, distribuídos por todas as regiões do Brasil, sendo considerada a maior fabricante de tratores do Brasil, na época.

A força bruta como marca registrada
Entre os modelos mais emblemáticos da fabricante esteve o CBT 2105, lançado em 1982. A máquina seguia uma filosofia bastante clara: menos sofisticação e mais resistência. Em vez de investir em conforto ou eletrônica, a empresa priorizava durabilidade, facilidade de manutenção e disponibilidade de peças.
Uma das estratégias adotadas foi utilizar o conhecido motor Mercedes-Benz OM-352, amplamente empregado em caminhões da época. Isso permitia que produtores encontrassem peças de reposição com relativa facilidade mesmo em regiões afastadas dos grandes centros.
Com potência de até 110 cavalos e peso que podia ultrapassar cinco toneladas quando lastreado, o trator oferecia a força necessária para trabalhos pesados em terrenos considerados desafiadores.
Essa característica transformou os CBT em referência de robustez, atributo que ainda hoje ajuda a valorizar exemplares antigos no mercado de usados.
Tratores antigos viraram itens de coleção
O prestígio da marca permanece vivo entre colecionadores e produtores rurais. Nas plataformas especializadas de compra e venda, modelos preservados costumam alcançar valores expressivos.
Entre os exemplos encontrados no mercado estão um CBT 1065, fabricado em 1974, anunciado por cerca de R$ 40,5 mil, e um CBT 2500, de 1982, ofertado por aproximadamente R$ 78 mil.
Além dos anúncios, comunidades dedicadas à marca compartilham histórias, restaurações e demonstrações de força das máquinas, reforçando a conexão emocional criada ao longo de décadas.
A diversificação que desviou o foco
Após consolidar sua posição no mercado de tratores, a CBT decidiu ampliar sua atuação para outros segmentos. A estratégia incluiu o desenvolvimento do avião agrícola CBT Tarpan e do jipe utilitário Javali, produzido entre 1989 e 1994 em versões 4×2 e 4×4.
No entanto, os novos projetos enfrentaram obstáculos significativos. Os custos de produção eram elevados, a concorrência já estava consolidada e as vendas ficaram abaixo do esperado. No caso do Javali, a produção ficou próxima de apenas mil unidades.
Embora representassem uma tentativa de expansão, esses investimentos acabaram consumindo recursos em um momento em que a empresa precisava modernizar sua principal linha de negócios.


Abertura econômica acelerou o declínio
A chegada da década de 1990 mudou completamente o ambiente de negócios para a indústria nacional.
A abertura econômica promovida pelo governo federal reduziu barreiras para a entrada de máquinas importadas. Ao mesmo tempo, o setor agropecuário enfrentou dificuldades de acesso ao crédito, reduzindo investimentos na renovação de frotas.
Enquanto isso, fabricantes estrangeiras passaram a oferecer tratores equipados com tecnologias mais avançadas, como transmissões modernas, sistemas hidráulicos mais precisos e cabines com maior conforto para o operador.
A CBT encontrou dificuldades para acompanhar essa transformação. Com limitações financeiras e sem conseguir captar os recursos necessários para atualizar sua estrutura industrial, a empresa perdeu competitividade. A produção foi encerrada definitivamente em 1995.
Maior fabricante de tratores do Brasil: Falência, dívidas e o fim de uma era
O encerramento das atividades foi seguido por um longo processo judicial. O pedido de falência foi apresentado em 1995 e o decreto definitivo foi assinado em março de 1997 pela Justiça de São Carlos (SP).
A crise resultou na demissão de 1.846 trabalhadores. Na época, os passivos da companhia giravam em torno de R$ 400 milhões, incluindo aproximadamente R$ 100 milhões em débitos com o BNDES.
Ex-funcionários chegaram a estudar formas de retomar a produção por meio de uma cooperativa. A proposta previa a aquisição de parte dos ativos industriais colocados à venda.
Naquele período, o advogado Jesus Martins, representante dos trabalhadores, demonstrava confiança na possibilidade de recuperação da operação. Segundo ele, “Apesar de estarem sucateadas algumas máquinas, haveria condições de recomeçar as atividades com certeza”.
A iniciativa, porém, não prosperou devido à falta de financiamento. Posteriormente, áreas do antigo complexo industrial foram adquiridas pela TAM, que destinou os imóveis para atividades ligadas ao setor aeronáutico.
CBT: O legado que permanece no campo
O desaparecimento da CBT marcou o fim de um dos maiores projetos brasileiros de fabricação de máquinas agrícolas. Mais do que o encerramento de uma empresa, a história simboliza as dificuldades enfrentadas pela indústria nacional diante das transformações econômicas dos anos 1990.
Por outro lado, sua trajetória também evidencia a importância que a engenharia brasileira teve na construção da agricultura moderna. Os tratores amarelos que ainda trabalham em algumas propriedades ou são preservados por colecionadores permanecem como testemunhas de uma época em que o Brasil buscava desenvolver suas próprias soluções para impulsionar o agronegócio.
E talvez seja justamente por isso que, décadas depois da falência, a CBT continue ocupando um lugar especial na memória de milhares de produtores rurais brasileiros.
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