
O segredo para transformar a seca de inimiga em aliada está em três pilares: planejamento forrageiro antecipado, automação logística e nutrição de precisão
A seca é o teste de fogo da pecuária de corte brasileira. No Centro-Oeste, entre abril e setembro, o pasto perde rapidamente o valor nutritivo, os animais deixam de ganhar peso e muitos pecuaristas veem sua margem de lucro derreter. Conteúdo elaborado com informações originalmente publicadas pelo portal Giro do Boi.
Agora imagine o desafio de alimentar 120 mil bovinos todos os dias nesse cenário. Essa é a rotina da Fazenda Nova Piratininga, localizada entre Goiás e Tocantins. Com mais de 202 mil hectares e um modelo de ciclo completo que integra cria, recria e engorda, a propriedade é considerada a maior do Brasil nesse formato. O segredo para transformar a seca de inimiga em aliada está em três pilares: planejamento forrageiro antecipado, automação logística e nutrição de precisão.
A dimensão do desafio: alimentar 120 mil cabeças de gado
O rebanho da Nova Piratininga impressiona não só pelo tamanho, mas pela demanda nutricional.
- Um bovino adulto consome, em média, 2,5% do peso vivo em matéria seca por dia.
- Considerando um boi de 450 kg, isso equivale a cerca de 11 kg/dia.
- Multiplicado por 120 mil animais, o resultado ultrapassa 1.300 toneladas de alimento/dia.
Para efeito de comparação: é como abastecer, todos os dias, uma cidade de médio porte em quantidade de comida. Esse é o tamanho do desafio enfrentado pela fazenda durante a estiagem.
Ciclo completo: a base para a autossuficiência
A Nova Piratininga nasceu em 2010 já com a visão de integrar todas as fases da pecuária: cria, recria e engorda. Esse modelo garante previsibilidade, controle sobre índices zootécnicos e maior eficiência no uso de recursos.
Outro ponto central é o melhoramento genético: raças como Nelore e Angus são trabalhadas com foco em fertilidade, ganho de peso e qualidade de carne.
A integração lavoura-pecuária é outro trunfo. Dos 202 mil hectares, cerca de 13 mil são destinados ao cultivo de soja e milho, garantindo grãos e volumosos para a suplementação animal. Isso reduz a dependência de insumos externos e dá mais segurança em momentos de alta nos custos.

A nutrição como ferramenta de sustentabilidade e produtividade
Na seca, quando o pasto perde proteína e energia, a suplementação se torna decisiva. Na Nova Piratininga, cada categoria animal tem sua própria dieta, elaborada com base em objetivos específicos:
- Bezerros e bezerras: suplementação proteica para crescimento.
- Novilhas e matrizes: equilíbrio nutricional para garantir reprodução.
- Animais em terminação: dietas de alta energia para ganho de peso consistente.
Essas dietas são geridas por softwares como o ECO GA (para animais a pasto) e o TGC (para confinamento). Os sistemas permitem ajustar a quantidade e a formulação de acordo com desempenho, clima ou condições de pastagem. É nutrição de precisão aplicada em larga escala.
Planejamento forrageiro: antecipando a seca
A seca só é vencida quando se planta pensando nela. Meses antes, a Nova Piratininga já destina áreas para produção de silagem de milho e sorgo, além de capineiras para corte e feno.
O planejamento parte de um cálculo simples e poderoso:
(Consumo médio/dia × número de animais × número de dias da seca).
Assim, sabe-se exatamente quantas toneladas de volumoso precisam estar armazenadas antes da estiagem. Essa estratégia garante que os cochos nunca fiquem vazios.
Logística e gestão: do campo ao cocho
Garantir alimento estocado é apenas metade da equação. A outra parte é colocá-lo no cocho, todos os dias, com regularidade e precisão.
Na Nova Piratininga, a logística funciona como uma linha de montagem:
- Caminhões automatizados percorrem diariamente cerca de 1.200 pastos, distribuindo alimento conforme necessidade.
- O sistema Automação GA controla todo o fluxo, desde a fábrica de ração até o cocho, ajustando quantidades por categoria animal.
- O App Leitura de Cocho faz a checagem fina: identifica em tempo real se o suplemento está sobrando ou faltando, permitindo ajustes imediatos e evitando desperdícios.
É a combinação de escala industrial com gestão pecuária — algo que só é possível graças à automação e ao monitoramento diário.
Resultados: produtividade e segurança alimentar do rebanho
O resultado de tanto planejamento e precisão aparece nos indicadores:
- Ganhos de peso consistentes, mesmo na seca.
- Taxa de lotação mantida, sem precisar reduzir número de animais por falta de pasto.
- Baixa mortalidade e alta fertilidade, garantindo fluxo contínuo de bezerros.
- Carne de qualidade padronizada, com genética superior e nutrição controlada.
Enquanto muitos produtores enfrentam queda de 20 a 30% no ganho médio diário durante a seca, a Nova Piratininga mantém desempenho estável — prova de que o planejamento funciona.
Lições para outros pecuaristas
Embora a estrutura da Nova Piratininga seja gigante, várias práticas podem ser adaptadas para propriedades menores:
- Reservar pelo menos 10% da área para volumosos (silagem ou feno).
- Usar suplementos estratégicos na seca, como sal proteinado ou energético.
- Planejar dietas por categoria animal, priorizando bezerros e matrizes.
- Monitorar cochos diariamente, ainda que de forma manual, para evitar desperdícios.
O que faz diferença não é só a tecnologia, mas a mentalidade de planejar a seca com antecedência.
Conclusão
A experiência da Fazenda Nova Piratininga prova que a seca não precisa ser o “vilão” da pecuária. Com planejamento forrageiro, automação logística e nutrição de precisão, é possível manter grandes rebanhos bem nutridos e produtivos, garantindo rentabilidade mesmo nos meses mais críticos.
Produtor, não espere a seca chegar para pensar no que seu gado vai comer. Comece hoje a planejar volumosos, ajustar dietas e monitorar o consumo. Assim como a Nova Piratininga, você pode transformar a estiagem em uma fase de oportunidade e crescimento para o seu rebanho.
Escrito por Compre Rural com informações originalmente publicadas pelo portal Giro do Boi.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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