A corrida global pelas baterias LFP colocou a transição energética em rota de colisão com o agronegócio. Entenda como a disputa por fosfato já pressiona os custos e ameaça a estabilidade do mercado de fertilizantes no Brasil e no mundo
O avanço vertiginoso da transição energética e a adoção em massa da mobilidade sustentável estão criando efeitos colaterais em mercados surpreendentes. O que antes parecia um tema exclusivo da indústria automotiva e de tecnologia, agora bate à porta do agronegócio global. Mas, afinal, como a popularização dos carros elétricos podem encarecer os fertilizantes agrícolas? A resposta não está nos motores, mas na química de suas baterias, mais especificamente na acirrada disputa por um recurso mineral essencial para a vida na Terra: o fosfato.
Historicamente, o fósforo extraído da natureza teve um destino quase singular: garantir a segurança alimentar da humanidade. No entanto, a necessidade de produzir baterias mais baratas, duráveis e seguras fez com que as montadoras globais entrassem de vez na fila por esse insumo, criando uma competição inédita entre a produção de alimentos e a descarbonização do planeta.
Por que os carros elétricos podem encarecer os fertilizantes agrícolas?
Para compreender esse fenômeno, é preciso olhar para os números. Atualmente, a agricultura é a rainha absoluta do fosfato. Cerca de 95% de todo o mineral extraído no mundo vai para o agronegócio — 85% diretamente para a fabricação de fertilizantes fosfatados (como o MAP e DAP) e 10% para aditivos e ração animal. Esse nutriente é vital para o desenvolvimento estrutural, fotossíntese e enraizamento de lavouras como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, não possuindo qualquer substituto viável.
O cenário começou a mudar com a ascensão das baterias de Fosfato de Ferro-Lítio, conhecidas pela sigla LFP (do inglês, Lithium Iron Phosphate). Nos últimos anos, especialmente impulsionada pela China — o maior mercado de veículos elétricos do mundo —, essa tecnologia tomou a dianteira. A grande vantagem da bateria LFP é que ela dispensa o uso de metais caros, tóxicos e envoltos em problemas geopolíticos e sociais, como o cobalto e o níquel. Além de serem mais baratas, as baterias LFP oferecem maior estabilidade térmica, segurança contra incêndios e uma vida útil que pode ultrapassar os 3.000 ciclos de recarga.
O sucesso foi tão estrondoso que a participação das baterias LFP no mercado global de veículos elétricos pulou de cerca de 10% em 2020 para uma projeção de aproximadamente 40% até 2026. O resultado direto disso? Uma nova e gigantesca fonte de demanda pelo fosfato, crescendo em uma velocidade muito superior à capacidade de abertura e expansão de novas minas globais.
Segurança alimentar x Transição energética
Embora o volume total de fosfato demandado pelo mercado agrícola ainda seja imensamente maior do que o consumido pelas montadoras, a dinâmica de negócios é muito diferente. O setor automotivo trabalha com altíssimo valor agregado e pode pagar “prêmios” mais altos pela matéria-prima purificada.
Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic Fertilizantes, ilustrou essa disparidade em recente entrevista à CNN. Segundo ele, o impacto já é sentido até mesmo nos produtos secundários, como o enxofre — que gera o ácido sulfúrico usado para quebrar a rocha fosfática. Com a abertura de polos de processamento de baterias na Indonésia, o preço do enxofre saltou de cerca de US$ 100 a tonelada para mais de US$ 500 nos últimos anos. “[O setor de carros elétricos] é uma indústria que tem valor agregado maior do que a indústria de commodities e fertilizantes e, por isso, pode pagar mais por esse produto”, pontuou Monteiro.
Para além dos executivos da indústria química, especialistas ambientais e pesquisadores também levantam alertas. Como o fósforo é um recurso finito (proveniente majoritariamente de rochas sedimentares), institutos de pesquisa agronômica alertam que o direcionamento em massa desse mineral para a indústria de energia pode agravar a escassez futura para os solos.
Essa migração estrutural já reflete na estratégia das mineradoras. A empresa canadense First Phosphate Corp, por exemplo, já estruturou seu modelo de negócios focado 100% no fornecimento para baterias na América do Norte, visando um mercado de dezenas de bilhões de dólares. A gigante americana Itafos reforçou essa visão em relatórios recentes, cravando que “a demanda de mercados não tradicionais, como as baterias LFP, continuará a abocanhar uma fatia crescente da oferta total”.
Como os carros elétricos podem encarecer os fertilizantes agrícolas para o produtor brasileiro
Para o Brasil, o impacto é direto e sensível. Como uma potência agrícola, o Brasil é extremamente dependente de insumos internacionais. Dados do mercado apontam que o país importa cerca de 70% de todo o fosfato que consome.
Para o produtor rural brasileiro, o alerta não é necessariamente de que o adubo vai “sumir” das prateleiras na próxima safra, mas sim de que as margens de lucro sofrerão pressões constantes. Especialistas em economia agrícola apontam que a dependência externa já nos deixa vulneráveis à volatilidade cambial e a conflitos geopolíticos (como a guerra no Leste Europeu e no Oriente Médio). Agora, adiciona-se uma nova variável: a capacidade ociosa de exportação de países produtores, como China e Marrocos, poderá ser redirecionada para a produção interna de baterias, reduzindo a oferta de exportação de fertilizantes e, pela lei da oferta e demanda, inflando os preços internacionais.

Um futuro de adaptação para o agronegócio
Diante da inevitável verdade de que os carros elétricos podem encarecer os fertilizantes agrícolas, o agronegócio e a comunidade científica correm contra o tempo. Analistas e consultores indicam que a saída passará por investimentos pesados em biotecnologia.
Iniciativas que envolvem a adoção de bioinsumos, microrganismos solubilizadores de fósforo (que ajudam a planta a aproveitar o nutriente que já está retido no solo) e a agricultura de precisão deixarão de ser apenas inovações para se tornarem medidas de sobrevivência financeira. No tabuleiro global do século XXI, garantir a colheita de soja passará, invariavelmente, por acompanhar os relatórios de vendas da indústria automotiva.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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