No período chuvoso, o volume de capim mascara desafios nutricionais críticos. A suplementação proteica estratégica torna-se a chave para converter forragem abundante em quilos de carcaça e melhores índices reprodutivos
O período das águas chega como um alívio para o pecuarista. O verde se espalha pelo pasto e, com ele, a promessa de gado gordo. No entanto, essa abundância visual esconde um desafio nutricional complexo: o “Paradoxo das Águas”. O capim verde e tenro, embora volumoso, é composto majoritariamente por água, apresentando baixos teores de matéria seca e, crucialmente, uma diluição dos níveis de proteína e minerais.
O gado, ao consumir esse capim “aguado”, tem seu trânsito intestinal acelerado. O alimento passa rápido demais pelo rúmen, não dando tempo suficiente para as bactérias fazerem seu trabalho de digestão da fibra. O resultado? O boi enche a barriga, mas não se nutre adequadamente. Ele perde potencial de ganho de peso e, no caso das matrizes, pode não atingir o escore corporal necessário para a estação de monta. Siga a leitura e acompanhe o Compre Rural, aqui você encontra informação de qualidade para fortalecer o campo!
É neste cenário que o suplemento proteinado deixa de ser um custo e se torna a ferramenta de manejo mais estratégica da fazenda. Mas com tantas opções no mercado, como escolher o produto ideal?
Entendendo a Função do Proteinado nas Águas
Diferente da seca, onde o suplemento precisa “substituir” a falta de comida, nas águas o objetivo do proteinado é potencializar o pasto. O foco é nutrir a microbiota do rúmen. Quando o pecuarista fornece um proteinado, ele está, na verdade, alimentando os trilhões de bactérias que vivem no estômago do boi. Um suplemento bem formulado (com equilíbrio entre proteína verdadeira e NNP – Nitrogênio Não Proteico, como a ureia) acelera a multiplicação desses micro-organismos. Mais bactérias significa uma digestão mais eficiente da fibra do capim. O animal passa a aproveitar melhor aquilo que come de graça (o pasto), aumentando o Ganho de Peso Diário (GPD) e otimizando a rentabilidade por hectare.
Os Pilares da Escolha: Pasto, categoria e meta
Não existe “receita de bolo”. O proteinado ideal depende da resposta a três perguntas fundamentais:
Qual é a real qualidade do seu pasto?
O primeiro erro é tratar todo “pasto verde” da mesma forma. Um capim no início das chuvas, em pleno vigor vegetativo, pode ter 12% ou mais de Proteína Bruta (PB). Já um pasto “passado” ou “taludo”, mesmo que verde, pode ter apenas 6% a 8% de PB.
- Pasto de Alta Qualidade (Início das águas, bem manejado): Aqui, o desafio é apenas o “excesso de água” e minerais. Um “Sal Mineral Ureado” (com baixo consumo, 30-50g) ou um proteinado de baixo consumo (0,1% do Peso Vivo, ou 1g/kg de PV) pode ser suficiente para “acender” o rúmen.
- Pasto de Média/Baixa Qualidade (Meio para o fim das águas, mal manejado): Quando o capim começa a fibrosar, o teor de proteína cai drasticamente. Aqui, o animal precisa de um “empurrão” maior. Um proteinado de consumo mais elevado (0,3% a 0,5% do PV, ou 3g a 5g/kg de PV) se faz necessário para corrigir o déficit proteico da dieta total.
Qual categoria animal será suplementada?
As exigências nutricionais são drasticamente diferentes:
- Vacas de Cria (Parição e Monta): O foco é a reprodução. Elas precisam recuperar o escore corporal pós-parto e emprenhar novamente no início da estação de monta. O proteinado aqui precisa ser rico em minerais (especialmente Fósforo) e proteína para garantir que ela volte ao cio e segure a cria.
- Bezerros (Creep-feeding): O objetivo é “imprimir” ganho de peso desde cedo e aliviar a vaca. O proteinado de creep é diferente: mais palatável, com mais proteína verdadeira (farelos) e energia (milho), pois o rúmen do bezerro ainda está em desenvolvimento.
- Gado de Recria (Garrotes/Novilhas): É a fase de “fazer carcaça” (músculo e osso). O objetivo é maximizar o GPD aproveitando o pasto. Um proteinado de águas (0,2% a 0,3% do PV) é o padrão-ouro para acelerar o ciclo e abater o animal mais cedo ou preparar a novilha para a primeira cria.
- Gado de Engorda (Terminação a Pasto): Se o objetivo é a terminação nas águas, o suplemento deve ser “proteico-energético”. Além de proteína para o rúmen, ele precisa fornecer energia (milho, sorgo) para a deposição de gordura de acabamento.
Qual é a sua meta de desempenho?
O pecuarista precisa definir o GPD esperado. Um suplemento de consumo mais baixo (0,1% do PV) pode adicionar 100g a 150g ao GPD que o pasto sozinho forneceria. Já um suplemento de consumo maior (0,3% a 0,5% do PV) pode adicionar 300g a 400g extras. A conta deve ser: O custo do quilo extra de @ produzido pela suplementação é vantajoso? Nas águas, a resposta é quase sempre sim, pois a eficiência de conversão do suplemento é altíssima.
Lendo o Rótulo: O que Procurar?
Após definir a estratégia (Pasto, Categoria, Meta), é hora de analisar o produto no cocho:
- Proteína Bruta (PB): É o valor total. Nas águas, produtos variam de 20% a 40% de PB.
- NNP (Ureia): A fonte de proteína mais barata para o rúmen. O rótulo deve indicar “equivalente proteico”. Nas águas, a ureia é segura e muito eficiente (o capim verde fornece a energia de rápida fermentação que a ureia precisa). A maior parte da PB virá dela em produtos de águas.
- Minerais (Fósforo, Cálcio, Zinco, Cobre, Selênio): Não negligencie os minerais. O pasto verde é notoriamente pobre em Fósforo (P), essencial para energia e reprodução. Um bom proteinado de águas já deve conter a mistura mineral completa, dispensando o “sal branco”.
- Aditivos (Ionóforos): Ingredientes como a Monensina Sódica ou a Virginiamicina são cruciais. Eles melhoram a eficiência das bactérias do rúmen, reduzem a produção de metano (desperdício de energia) e controlam parasitas leves (como a coccidiose). Um proteinado moderno para as águas deve conter um ionóforo.
- Consumo Esperado: O rótulo indicará o consumo (ex: 100g/UA ou 0,1% do PV). Isso é vital para o seu planejamento de custos e logística de cocho.
O Salto de produtividade
O período das águas é a janela de oportunidade para o pecuarista “colher” arrobas de forma barata. Usar apenas sal mineral comum ou mesmo um sal ureado de baixo consumo pode significar deixar dinheiro na mesa, pois o potencial máximo da forragem não é explorado. A escolha do proteinado ideal transforma o pasto aguado de “volume” para “nutrição de alta performance”. O investimento na suplementação correta se paga rapidamente, seja na balança do frigorífico, com animais mais pesados, ou no resultado da estação de monta, com mais bezerros no chão no ano seguinte.
A recomendação final é clara: analise seu pasto, defina a meta para cada categoria animal e busque o auxílio de um zootecnista ou técnico de confiança. Nas águas, o proteinado não é despesa; é a alavanca que move a rentabilidade da pecuária de corte.
Escrito por Compre Rural
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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