Apesar de um ritmo abaixo do esperado ao longo do ano, o consumo de carne bovina no Brasil mostrou recuperação no fim de 2025, sustentado por renda, emprego e maior estabilidade de preços, enquanto o país assumiu a liderança global na produção e nas exportações.
O ano de 2025 foi marcado por contrastes para a cadeia da carne bovina. Ao mesmo tempo em que o Brasil alcançou um feito histórico ao se tornar o maior produtor mundial de carne bovina, o consumo interno avançou em ritmo mais cauteloso, pressionado por preços firmes e mudanças no padrão de compra das famílias. Ainda assim, os dados indicam que o mercado doméstico manteve papel central na absorção da produção, enquanto o setor externo seguiu como motor de crescimento.
Segundo dados consolidados pela Scot Consultoria com base em informações oficiais, a produção brasileira foi estimada em 12,4 milhões de toneladas equivalente carcaça (tec), alta de 4,6% em relação a 2024. Com esse volume, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos, que registraram produção estimada em 11,8 milhões de tec, queda de 4,0% no comparativo anual, refletindo dificuldades estruturais da pecuária norte-americana.
Exportações recordes da carne bovina reforçam protagonismo do Brasil
No comércio exterior, 2025 entrou para a história. Mesmo diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos em agosto, que gerou incertezas pontuais no mercado, o desempenho das exportações brasileiras foi robusto. Até novembro, os embarques de carne bovina in natura já somavam 3,8 milhões de tec, o maior volume já registrado. Outubro, inclusive, marcou o maior embarque mensal da história, com 435,3 mil tec exportadas .
Apesar desse protagonismo externo, o mercado interno continuou sendo o principal destino da carne bovina brasileira, absorvendo quase 60% de toda a produção nacional. Isso reforça a importância do consumo doméstico para o equilíbrio da cadeia, especialmente em momentos de maior volatilidade no comércio internacional.
Como se comportou o consumidor brasileiro em 2025
O consumo interno de carne bovina é diretamente influenciado por fatores como renda, emprego, preços no varejo e sazonalidade. Em 2025, o cenário macroeconômico foi relativamente favorável à demanda por alimentos. A renda média mensal do brasileiro chegou a R$ 3,6 mil até agosto, segundo o IBGE, e cerca de 2,8% desse valor foi destinado ao consumo de carne bovina .
Outro ponto relevante foi o mercado de trabalho. A taxa de desocupação atingiu 5,4% em agosto, o menor patamar desde 2012, fechando o ano com média próxima de 6,0%. Esse ambiente ajudou a sustentar o consumo, mesmo com preços mais elevados no varejo.
Os dados mostram ainda uma concentração maior dos gastos com carne nos primeiros e últimos meses do ano, comportamento típico associado a férias, feriados e ao pagamento do 13º salário. Em São Paulo, por exemplo, onde a renda média mensal foi de R$ 4,3 mil em 2025, o gasto médio com carne bovina representou 2,4% da renda, ou cerca de R$ 102,54 por mês. Considerando o preço médio de R$ 56,14/kg, isso resultou em uma aquisição média de 1,83 kg de carne bovina por pessoa ao mês, lembrando que se trata de uma média e que, em alguns períodos, o volume adquirido foi maior.
Preços mais firmes, porém menos voláteis
Ao longo de 2025, o preço médio da carne bovina no varejo subiu em todos os meses quando comparado a 2024. No entanto, um ponto importante foi a menor volatilidade. Enquanto em 2024 a diferença entre preços máximos e mínimos chegou a 19,5% (R$ 8,98/kg), em 2025 essa variação foi de apenas 2,7% (R$ 1,48/kg), indicando preços mais lateralizados e previsíveis para o consumidor .
Essa maior estabilidade ajudou a manter a competitividade da carne bovina frente às proteínas concorrentes, mesmo em um cenário de preços elevados.
Competição com frango e suíno no prato do consumidor
Na comparação com outras proteínas, o comportamento dos preços revelou diferenças importantes. Em 2025, a oscilação de preços do dianteiro bovino foi de 14,1%, enquanto o frango médio apresentou variação de 25,8% e o suíno especial, de 9,4%.
A relação de troca mostrou que, em fevereiro, 1 kg de carne bovina comprava 1,16 kg de carne suína, a melhor relação do ano. Já a pior ocorreu em maio, quando eram necessários 1,40 kg de dianteiro bovino para a mesma quantidade de suíno. Frente ao frango, a melhor relação foi de 1,94 kg, enquanto nos meses de junho e julho 1 kg de carne bovina comprava até 2,48 kg de frango, evidenciando a pressão competitiva da proteína avícola em determinados períodos .
Margens da indústria: pressão ao longo do ano, alívio no fim de 2025
Do lado da indústria frigorífica, as margens de comercialização em 2025 foram, em média, menores do que em 2024, reflexo do forte avanço no preço da arroba e da dificuldade de repasse ao longo da cadeia. Ainda assim, o fim do ano trouxe algum alívio.
Impulsionadas pelas vendas típicas de dezembro, as margens médias de comercialização chegaram a 16,2% até 19 de dezembro, considerando o Equivalente Scot Desossa. O melhor momento do ano ocorreu em maio, com margem de 22,5%, favorecida pela queda no preço da arroba naquele período. Já a menor margem foi registrada em abril, em 13,1%, quando a arroba atingiu R$ 318,40, a segunda maior média de 2025 .
É importante destacar que margem de comercialização não representa lucro, pois não considera custos operacionais, mas margens mais elevadas indicam maior flexibilidade na formação de preços.
Carne bovina: O que esperar para 2026
Para 2026, o cenário desenhado aponta novos desafios. A expectativa do USDA é de redução no abate de bovinos no Brasil, o que tende a manter os preços da arroba firmes e, dependendo da intensidade da queda na oferta, pode resultar em novas altas.
Indicadores macroeconômicos, como renda per capita, nível de emprego, possíveis mudanças tributárias, ano eleitoral e até eventos como a Copa do Mundo, podem atuar como fatores de sustentação da demanda. Assim, o consumo de carne bovina em 2026 tende a depender menos do preço e mais do equilíbrio entre oferta, renda e confiança do consumidor.
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