Com avanço do confinamento no Brasil, Casale aposta em tecnologia, nutrição de precisão e gestão inteligente para elevar a eficiência e a rentabilidade da pecuária de corte
Por Marcio Peruchi – O avanço do confinamento no Brasil deixou de ser uma tendência pontual para se consolidar como um dos principais vetores de eficiência na pecuária de corte. Diante de um cenário de pressão por produtividade, redução de ciclos e melhoria na qualidade da carne, produtores têm intensificado o uso de tecnologia dentro das fazendas.
Equipamentos mais robustos, nutrição de precisão e gestão baseada em dados passaram a ser diferenciais competitivos claros. Nesse contexto, o confinamento se destaca justamente por permitir maior controle sobre o desempenho animal, reduzindo a dependência de fatores climáticos e elevando o padrão do produto final.
Antes de entrar na entrevista, é importante contextualizar o papel de uma das protagonistas desse movimento. A Casale, referência histórica no desenvolvimento de tecnologias para pecuária, vive um momento de forte expansão. Em 2025, a empresa registrou crescimento de 45%, impulsionada pela demanda crescente por soluções voltadas à intensificação produtiva e eficiência operacional no campo.
Com mais de seis décadas de atuação, a companhia não apenas acompanhou a evolução do confinamento no Brasil, como ajudou a moldar esse mercado, sendo pioneira na introdução de misturadores de ração total na América Latina.
Foi durante a Agrishow 2026, em Ribeirão Preto (SP), que conversei com Ronis Paixão, presidente da Casale e um dos 100 Mais Influentes do Agronegócio 2025, na categoria Gestão e Eficiência. Com mais de duas décadas de carreira e uma trajetória marcada por posições de liderança, Ronis tem conduzido um processo consistente de modernização industrial e fortalecimento estratégico da empresa — sempre com foco na formação de equipes de alto desempenho e na entrega de soluções práticas ao produtor.
Ao longo da entrevista, o executivo foi direto ao ponto: o confinamento brasileiro está em franca expansão e ainda longe do seu teto. Segundo ele, cerca de 20% dos abates no país já vêm de animais terminados em confinamento — um salto relevante frente aos cerca de 15% registrados quatro anos atrás. Em números absolutos, isso representa algo próximo de 9 milhões de cabeças dentro de um universo de 45 milhões abatidas anualmente. “É um crescimento de quase um ponto percentual ao ano, o que é muito significativo. Quando comparamos com mercados maduros, como os Estados Unidos, que chegam a 90%, fica evidente o espaço que ainda temos para avançar”, destacou.
Esse crescimento está diretamente ligado à busca por eficiência. O confinamento permite acelerar o giro do capital, reduzir o tempo de terminação e melhorar a padronização da carne — fatores decisivos para atender tanto o mercado interno quanto exigências internacionais. Além disso, há uma pressão estrutural por uso mais eficiente da terra, abrindo espaço para integração com agricultura e intensificação produtiva.
Dentro desse cenário, a tecnologia aplicada à nutrição animal ganha protagonismo. Ronis enfatiza que um dos pontos mais críticos — e muitas vezes subestimado — é a qualidade da mistura da dieta fornecida aos animais. “O gado responde à consistência. Não é só horário e quantidade, mas o que ele consome em cada trato. A homogeneidade da mistura é fundamental para o ganho de peso”, afirmou.
Segundo ele, há níveis distintos de precisão nesse processo. Equipamentos mais avançados, especialmente os que utilizam sistemas de rotor, conseguem atingir coeficientes de variação de mistura entre 2% e 3%, enquanto tecnologias mais simples operam na faixa de 10% a 12%. Essa diferença, embora pareça pequena à primeira vista, impacta diretamente no desempenho zootécnico. “Quando você aprofunda a análise, inclusive nos micronutrientes, percebe que está deixando dinheiro na mesa se não tiver uma dieta bem homogênea”, reforçou. 
É justamente nesse ponto que entram os novos equipamentos apresentados pela Casale. Um dos destaques é a RX 350 TechBull, considerada a maior máquina de rotor do mundo, com capacidade para até 17 toneladas. Voltada para grandes operações, ela alia volume, velocidade e precisão na mistura, contribuindo tanto para a logística quanto para a qualidade nutricional da dieta. Em operações práticas, segundo Ronis, uma única máquina pode atender cerca de 10 mil animais, dependendo da estratégia de trato adotada.
Outro equipamento citado durante a entrevista foi a Vertimix 280, uma solução vertical montada sobre caminhão, projetada para maior versatilidade no campo. Com capacidade para lidar com fibras longas, como feno e pré-secado, ela permite maior flexibilidade na formulação de dietas — um ponto crucial em sistemas de confinamento mais complexos.
Além da mecânica, a digitalização das operações também avança rapidamente. A empresa apresentou na feira a nova versão do sistema de telemetria Casale Connect, que integra sensores, coleta de dados e inteligência artificial para monitorar em tempo real o desempenho das máquinas. Segundo o material apresentado na Agrishow 2026, a plataforma permite acompanhar indicadores como tempo de operação, manutenção preventiva, temperatura e desempenho dos equipamentos, transformando dados técnicos em informações práticas para tomada de decisão.
Na visão de Ronis, esse tipo de tecnologia tem um papel claro: aumentar a eficiência operacional. “É uma ferramenta que mostra onde você está perdendo tempo, onde pode melhorar. É quase um ‘dedo-duro’ da operação, mas no sentido positivo, de gerar resultado”, explicou.
A conversa também abordou o contexto de mercado. Apesar das incertezas macroeconômicas — como custo do crédito elevado, volatilidade de preços e variáveis externas como exportações e consumo interno — o cenário para o confinamento segue favorável. A relação de troca, especialmente com insumos como milho e soja, tem sustentado a viabilidade econômica da atividade, ainda que desafios como a reposição de animais persistam.
Outro ponto relevante destacado pelo executivo é o fator cultural. A pecuária brasileira, historicamente mais conservadora que a agricultura, passa por um processo gradual de transformação. “É um mercado relativamente novo. O confinamento ainda está amadurecendo no Brasil. A adoção de tecnologia leva tempo, mas é um caminho sem volta”, afirmou.
Essa mudança de mentalidade, aliada à entrada de novas gerações mais abertas à inovação, tende a acelerar ainda mais a intensificação produtiva nos próximos anos. Para a indústria de equipamentos, isso representa não apenas uma oportunidade de crescimento, mas também um desafio constante de entregar soluções cada vez mais precisas, confiáveis e alinhadas às necessidades do campo.
Ao final da entrevista, a mensagem ficou clara: o confinamento deve continuar avançando no Brasil, impulsionado por uma combinação de fatores estruturais, econômicos e tecnológicos. E, nesse processo, a nutrição de precisão — com destaque para a qualidade da mistura — deixa de ser um detalhe técnico para se tornar um dos pilares da rentabilidade na pecuária moderna.
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