Conheça a história brutal por trás do Bulldog, o cão criado para enfrentar touros

Do bull-baiting medieval ao símbolo de coragem britânica, conheça a verdadeira história por trás da raça do Bulldog que nasceu para confrontar touros.

Durante séculos, antes que se tornasse um ícone de companheirismo e docilidade no mundo moderno, o Bulldog foi moldado em um cenário extremamente violento. Pouca gente sabe, mas essa raça, hoje sinônimo de mascotes adoráveis, mascotes esportivos e símbolo cultural britânico, surgiu diretamente de um dos esportes mais cruéis da história: o bull-baiting, uma prática que colocava cães para enfrentar touros em combates sangrentos.

A história do bull-baiting é cercada de mitos, tradições e relatos que permeiam a Idade Média. Uma das versões mais difundidas remonta a 1209, quando o Lord William de Warren teria testemunhado dois touros lutando por uma vaca. Ao ver o dono de um dos animais soltar um cão para apartar a briga, o lord ficou fascinado com a força e coragem do animal, decretando que a cena deveria ser repetida publicamente, e assim teria nascido o espetáculo brutal.

Outra versão, também de 1209, descreve o Conde de Warren observando cães de açougueiros locais atacarem touros que brigavam pelo direito de acasalamento. Animado com o que viu, o conde destinou um terreno para que os açougueiros recriassem o episódio todo ano, seis semanas antes do Natal. Essas demonstrações evoluíram rapidamente para um esporte regular e extremamente popular.

O bull-baiting ganhou força especialmente durante o reinado da Rainha Anne, tornando-se um espetáculo organizado em espaços destinados à prática, como o famoso Hockley-in-the-Hole, em Londres. Duas vezes por semana, multidões se reuniam para assistir cães atacarem um touro amarrado, enquanto apostas movimentavam o evento.

Pintura “Bull Terriers Baiting a Bull” do artista britânico Charles Towne.

O objetivo era cruel e direto: o cão vencedor seria aquele capaz de agarrar o touro pelo focinho e imobilizá-lo no chão. Nessa disputa desigual, era comum que os touros mutilassem ou matassem diversos cães, chifrá-los, arremessá-los ou pisoteá-los fazia parte da brutalidade do “esporte”.

Com a popularização da prática, açougueiros e criadores começaram a buscar um “tipo ideal” de cão capaz de sobreviver e vencer na arena:

  • Focinho curto, permitindo que o cão mordesse o nariz do touro e continuasse respirando;
  • Rosto achatado e enrugado, para que o sangue não escorresse para os olhos durante o combate;
  • Mandíbula extremamente forte, funcionando como um torno;
  • Corpo musculoso e compacto, resistente a arremessos e pisoteamentos;
  • Temperamento feroz e destemido.

Foi dessa seleção artificial que surgiu o ancestral do Bulldog moderno: o Old English Bulldog.

Entre os cães de bull-baiting, um nome se destacou: Rosa, fêmea famosa pela parceria com Cribb, um dos grandes campeões da época. A cadela se tornou referência para o desenvolvimento do “tipo ideal” de bulldog, servindo como inspiração para os primeiros padrões que moldaram a raça pós-proibição das lutas.

Em apenas 100 anos, o buldogue inglês sofreu uma transformação. Gerações insustentáveis ​​de cruzamentos consanguíneos seletivos exageraram as características da raça a um nível extremo e prejudicial à saúde. [Foto:Caen Elegans ]

Quando o bull-baiting foi finalmente proibido na Inglaterra, em 1835, os criadores começaram a transformar aquela máquina de combate em um cão mais dócil, mantendo sua estrutura marcante, mas eliminando o comportamento agressivo. Desse processo, lentamente surgiu o Bulldog Inglês que conhecemos hoje, muito mais companheiro do que combatente.

A força e a coragem dos bulldogs não passaram despercebidas. No século XVIII, caricaturistas políticos passaram a representar a Britânia, figura feminina que simbolizava o Reino Unido, acompanhada por um leão e um buldogue, reforçando a imagem de bravura implacável.

No século XIX, a expressão “espírito do Bulldog Britânico” virou sinônimo de determinação e resiliência. Essa imagem se consolidou ainda mais durante a Primeira Guerra Mundial, quando o bulldog se tornou personagem frequente em cartazes de propaganda, representando a resistência e o patriotismo britânico.

Ao longo dos séculos, os cães usados para lutar contra touros desenvolveram, por seleção forçada, as principais características físicas que ainda vemos hoje:

  • Cabeça larga e pesada
  • Mandíbulas poderosas
  • Corpo robusto e musculoso
  • Baixa estatura
  • Focinho curto
  • Expressão forte
O buldogue inglês, como era em 1911. [Crédito da imagem: flickrinternetarchivebookimages

Embora hoje sejam animais dóceis, afetuosos e extremamente ligados aos tutores, sua aparência ainda carrega a herança de um passado violento.

O que antes era um cão criado para enfrentar touros, muitas vezes em combates que terminavam em morte, tornou-se um dos símbolos de lealdade e coragem da cultura britânica e uma das raças mais queridas ao redor do mundo.

O Bulldog moderno representa uma transformação histórica: de guerreiro brutal, moldado pela crueldade humana, para companheiro calmo, forte e carinhoso. Uma prova viva de como o tempo, a ética e a criação responsável podem ressignificar completamente o destino de uma raça.

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