Isolada há milênios, a raça Herdwick mantém genética quase selvagem, cria cordeiros nas montanhas e sobrevive sem cercas em um dos climas mais extremos da Europa.
Originárias da região central e oeste do Lake District, no noroeste da Inglaterra, as ovelhas da raça Herdwick são consideradas uma das mais antigas, resistentes e emblemáticas raças ovinas da Europa. Criadas há séculos nas áreas montanhosas mais altas do país, elas se desenvolveram sob condições extremas de frio, vento e alta precipitação, o que moldou um animal robusto, funcional e profundamente adaptado ao ambiente.
Durante grande parte da vida, os rebanhos pastam livremente nas terras comuns das colinas, sem cercas, sobrevivendo em áreas onde poucas raças modernas conseguiriam se manter. Essa convivência contínua com um ambiente hostil explica a versatilidade, a rusticidade e a impressionante capacidade de sobrevivência da Herdwick.
A aparência da Herdwick é resultado direto de séculos de seleção natural e isolamento genético. A raça apresenta pernas fortes e brancas, cabeça branca, e dimorfismo sexual evidente: os carneiros possuem chifres bem desenvolvidos, enquanto as ovelhas são mochas.
A lã é um dos traços mais marcantes. Pesada, densa e de dupla camada, ela é composta por uma lã interna fina e lanosa, responsável pelo isolamento térmico, e uma camada externa mais longa, áspera e resistente, que atua como proteção contra vento e umidade. Essa estrutura impede que a lã se abra ou se desprenda com rajadas de vento, algo comum em raças melhoradas.

É comum a presença de uma juba mais espessa ao redor do pescoço e sobre os ombros, reforçando ainda mais a proteção nas regiões mais expostas. Tanto machos quanto fêmeas devem apresentar rosto e patas livres de manchas, mantendo o padrão visual típico das ovelhas selvagens primitivas.
Estudos genéticos indicam que a Herdwick descende do antigo grupo de ovelhas Northern Pin Tail, introduzidas na Grã-Bretanha há cerca de 5.500 anos. Seus ancestrais mais distantes remontam à primeira domesticação conhecida de ovelhas, há aproximadamente 10 mil anos, quando animais do sudoeste da Ásia migraram para a Europa.
O isolamento geográfico das colinas de Cumbria permitiu que a Herdwick permanecesse geneticamente pouco influenciada por outras raças, conservando traços considerados primitivos e próximos do estado selvagem. Essa herança explica não apenas sua rusticidade, mas também comportamentos únicos de manejo.
Um dos aspectos mais singulares da Herdwick é seu fortíssimo instinto de retorno ao local de origem, conhecido como heafing ou agrupamento. Cada rebanho aprende, geração após geração, qual parte específica da colina lhe pertence, e as ovelhas raramente ultrapassam esses limites naturais, mesmo sem cercas.

Esse comportamento é tão consolidado que, historicamente, vender todo o rebanho quando um produtor se aposentava era considerado desastroso, pois as ovelhas perderiam sua referência territorial. Em muitas áreas, elas permanecem na terra mesmo quando a fazenda muda de proprietário, sendo vistas como uma extensão viva da paisagem e da cultura local.
A Herdwick é uma raça de maturação mais lenta, reflexo direto do ambiente severo onde foi moldada. Em contrapartida, apresenta longevidade acima da média, com ovelhas capazes de parir e criar cordeiros por muitos anos além do observado em raças comerciais.
Essa resistência se manifesta especialmente no inverno. Os ovinos Herdwick são reconhecidos por suportarem condições climáticas extremas melhor do que qualquer outra raça britânica, sobrevivendo a longos períodos de frio, vento intenso e chuvas constantes.
O calendário reprodutivo da Herdwick é cuidadosamente sincronizado com a curta estação de crescimento das pastagens do Lake District. O acasalamento ocorre geralmente em outubro, com os partos concentrados entre abril e início de maio, quando o capim começa a rebrotar.

Os cordeiros quase sempre nascem nas primeiras horas do dia, o que torna as manhãs intensas para os pastores. O manejo exige equilíbrio entre intervenção e observação, já que interferir em excesso pode causar estresse, enquanto a falta de acompanhamento pode resultar em perdas.
As ovelhas mais experientes costumam parir sozinhas, buscando locais abrigados. Já as mais jovens podem demonstrar insegurança, escolhendo áreas expostas ou demorando a permitir a mamada. Mesmo com um instinto maternal mais apurado do que o de muitas raças modernas, a Herdwick ainda demanda pastoreio especializado em terrenos montanhosos.
Um dos fatos mais curiosos da raça é que todos os cordeiros Herdwick nascem pretos, sem que haja uma explicação científica definitiva para isso. Com cerca de um ano de idade, a lã começa a adquirir um tom marrom-chocolate escuro, enquanto a cabeça se torna branca.
À medida que envelhecem, os animais desenvolvem a coloração típica da raça: uma mistura de cinzas, marrons, pretos e brancos, que se confunde com as encostas rochosas do Lake District e encanta visitantes da região.
Apesar de sua lã grossa, áspera e pouco delicada — frequentemente comparada à textura de uma esponja de aço —, a Herdwick encontrou usos variados ao longo da história, como tapetes, mantas rústicas e até aplicações agrícolas.
No entanto, o verdadeiro valor econômico da raça está na carne. Criados majoritariamente para produção cárnea, os ovinos Herdwick oferecem um produto associado à tradição, ao manejo extensivo e à sustentabilidade de um sistema secular.
Atualmente, cerca de 90% da população mundial da raça está concentrada em Cumbria, distribuída em mais de 230 fazendas, mantendo viva uma genética considerada quase selvagem. Mais do que um animal de produção, a Herdwick segue sendo símbolo cultural, ecológico e histórico de uma das paisagens mais emblemáticas do Reino Unido.
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