Do primeiro Engenho Central à bioenergia moderna, municípios como Quissamã e Rafard preservam a arquitetura e a economia que moldaram a espinha dorsal do agronegócio brasileiro há mais de um século
Muitos municípios brasileiros não apenas possuem usinas; eles nasceram da moenda. Se hoje o Brasil é o maior produtor global, é porque no século XIX, vilas e povoados foram fundados sob a sombra das chaminés dos primeiros engenhos centrais.
Conheça as cidades que vivem em torno da produção de cana desde o Império e entenda como essa cultura agrícola moldou a identidade, a arquitetura e a economia dessas regiões.
Quissamã (RJ): O pioneirismo do primeiro Engenho Central
O marco zero da modernização sucroenergética no Brasil tem endereço certo: Quissamã. Em 1877, a cidade testemunhou a fundação do primeiro Engenho Central da América Latina. Financiado pelo Visconde de Araruama e pela elite agrária fluminense, esse empreendimento rompeu com o modelo dos antigos engenhos de banguê (movidos a tração animal ou hidráulica).
Segundo registros do IBGE Cidades e da Fundação Gilberto Freyre, Quissamã foi o palco de uma transição social profunda: a substituição do trabalho escravizado pela tecnologia a vapor. A arquitetura da cidade ainda hoje reflete essa era de ouro; os casarões e as imponentes chaminés de tijolos aparentes, estudados por Geraldo Gomes em “Engenho & Arquitetura”, são testemunhas de um tempo em que o açúcar ditava o ritmo do progresso fluminense.
Rafard (SP): A “Cidade Coração” e o selo da Família Imperial
Se Quissamã foi o berço tecnológico, Rafard representa a consolidação da cana no território paulista. Fundada em torno do Engenho Central em 1884, a cidade — carinhosamente chamada de “Cidade Coração” — exemplifica o conceito de cidade-empresa.
A profundidade histórica de Rafard é validada por visitas ilustres: a Princesa Isabel e o Conde d’Eu estiveram presentes nas instalações, reconhecendo o local como um pilar estratégico para o Império. De acordo com a historiadora Maria Thereza Schorer Petrone, a expansão canavieira em São Paulo, exemplificada por Rafard, foi responsável por financiar a infraestrutura ferroviária que, décadas depois, permitiria o surgimento do cinturão industrial paulista.
Campos dos Goytacazes e o berço de Pernambuco
Não se pode analisar as cidades que vivem em torno da produção de cana desde o Império sem citar os gigantes regionais:
- Campos dos Goytacazes (RJ): Durante o Segundo Reinado, Campos era o maior polo produtor do país. A transição dos engenhos para as usinas modernas criou uma aristocracia que moldou a política nacional. A documentação histórica da região detalha como o vapor permitiu que as usinas do norte fluminense competissem no mercado global de commodities.
- Pernambuco (Igarassu e arredores): Considerado o “berço da cana”, o estado preserva engenhos coloniais que, no Império, atingiram sua maturidade arquitetônica e produtiva. Em locais como Igarassu, a cultura da cana é o que Gilberto Freyre chamou de “base da formação social brasileira”, onde a casa-grande e a senzala deram lugar a cooperativas e usinas de bioenergia de última geração.
De 1877 a 2026: A sobrevivência através da tecnologia
O que faz essas cidades continuarem relevantes após dois séculos? A resposta está na capacidade de adaptação. Conforme dados da UDOP (União da Bioenergia), o setor evoluiu do açúcar bruto para um complexo de bioprodutos:
- Bioeletricidade: O bagaço, antes resíduo, hoje gera energia para cidades inteiras.
- Etanol de Segunda Geração (E2G): Utiliza resíduos da planta para aumentar a produtividade sem expandir a área plantada.
- Preservação: O Museu da Cana (Pontal-SP) mantém o acervo tecnológico que permite entender essa evolução, provando que a produção de cana desde o Império é uma linha do tempo ininterrupta de inovação.
Escrito por Compre Rural
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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