Descubra como Sam Knapp usa física e engenharia para inovar no armazenamento de alimentos, garantindo vegetais frescos no inverno de -40°C do Alasca.
Em Fairbanks, no Alasca, a chegada do outono é anunciada no rádio com um tom de urgência: “É o aviso de dois minutos para o inverno”. A frase não é exagero. Nesta região, a janela de cultivo é breve — vai de meados de maio a setembro — e termina abruptamente quando o solo congela e os termômetros despencam para -40°C. Historicamente, isso significava o fim da produção local e o início da dependência de cadeias de suprimentos longas e frágeis. No entanto, um produtor decidiu reescrever essa regra através de uma tecnologia inovadora de armazenamento de alimentos.
Sam Knapp, proprietário da Offbeet Farm, não é um agricultor convencional. Ele utilizou sua formação científica para criar um sistema capaz de manter vegetais frescos muito além da temporada de neve, garantindo segurança alimentar para uma comunidade que, durante a pandemia de COVID-19, sentiu na pele os riscos de depender de comida importada de milhares de quilômetros de distância.
Uma nova abordagem para o campo
Antes de colocar as mãos na terra, Knapp dedicou-se à química e à física, trabalhando como engenheiro focado em modelagem térmica. Essa bagagem foi crucial quando ele decidiu aplicar o rigor científico ao armazenamento de alimentos em climas subárticos.
Diferente da tradição oral passada de pai para filho, Knapp recorreu ao Google Acadêmico. Ele mergulhou em estudos sobre as necessidades fisiológicas de cada vegetal, descobrindo gargalos que passavam despercebidos.
- O problema da cura: Ele identificou, por exemplo, que a abóbora de inverno precisa cicatrizar e endurecer a casca ao ar livre para se conservar bem. Porém, o outono úmido e gelado de Fairbanks impede esse processo natural.
- A solução: Para compensar a falta de condições climáticas, ele precisou desenhar um ambiente que controlasse artificialmente a umidade, algo que as adegas subterrâneas tradicionais da região não conseguiam fazer com eficiência por mais de dois meses.
O paradoxo térmico no armazenamento de alimentos

Em 2020, Knapp construiu sua estrutura de armazenamento em uma área de 0,6 hectares. O galpão, que repousa sobre formas de concreto especiais isolantes, desafia a lógica comum. A grande descoberta de Knapp foi gerenciar a “respiração” dos vegetais.
Após a colheita, as plantas continuam metabolizando carboidratos, um processo que gera calor como subproduto. A eficiência do isolamento projetado por Knapp é tamanha que cria um paradoxo térmico:
“No último inverno, houve uma vez em que estava -25 graus lá fora, e meus ventiladores de resfriamento ligaram”, relata o agricultor.
Mesmo sob frio extremo, ele precisa retirar o calor gerado pelos próprios vegetais para manter a temperatura interna próxima a 0°C, o ponto ideal para o armazenamento de alimentos de longa duração.
Viabilidade econômica e sustentabilidade humana

O sistema de Knapp prova que a tecnologia no campo não precisa ser inacessível. Com um investimento inicial de cerca de US$ 55.000 (construído pelo próprio agricultor), ele ergueu uma infraestrutura capaz de estocar entre 35.000 e 40.000 libras de produtos.
Atualmente, com 25.000 libras estocadas, ele atende 120 famílias através de um programa de Agricultura Apoiada pela Comunidade (CSA), estendendo suas vendas até março. Esse modelo transformou a dinâmica de trabalho na fazenda:

- Fim da corrida contra o tempo: Knapp não precisa colher e vender tudo desesperadamente em setembro.
- Saúde mental: A diluição das vendas ao longo do inverno evita o esgotamento físico (burnout) comum aos produtores da região na época de colheita. “Raramente me sinto esgotado pela agricultura”, afirma ele, destacando o equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Desafios persistentes e troca de saberes
Apesar do sucesso com repolhos — que chegam a durar até o verão do ano seguinte — o armazenamento de alimentos ainda impõe desafios. As cebolas, por exemplo, têm sido uma barreira técnica. Elas exigem exposição solar para a cura, algo escasso no curto verão subártico. Knapp segue em busca de variedades genéticas que resistam a esse ciclo de quase 24 horas de luz seguido por um outono úmido.
Knapp compilou suas descobertas e técnicas no livro Beyond the Root Cellar (“Além da Adega”), mas faz questão de manter a humildade. Ele reforça que, embora a ciência guie o projeto, metade do sucesso vem da “pesquisa árdua” e a outra metade das conversas com agricultores experientes da região. Para ele, inovar no Alasca é um misto de risco financeiro, engenharia precisa e cooperação comunitária.
Escrito por Compre Rural
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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