Conheça o homem por trás do maior confinamento de gado do mundo

Da aposta em 100 bois sem dinheiro ao comando de um império com mais de meio milhão de cabeças e o surgimento do maior confinamento de gado do mundo

Poucos nomes na história da pecuária norte-americana carregam tanto peso quanto o de Paul Frederick Engler. Nascido em 23 de agosto de 1929, em Stuart, no estado de Nebraska, ele se tornaria conhecido décadas depois como o “Rei do Gado Americano” — título que não veio por acaso. Engler não apenas construiu o maior confinamento privado de gado do mundo (Cactus Feeders, Inc.), como também ajudou a moldar a moderna indústria da carne bovina nos Estados Unidos, combinando escala, eficiência, inovação e visão de longo prazo.

Filho de Henry Paul Engler e Jenny Gill, Paul cresceu em um ambiente simples, marcado pelo trabalho desde cedo. Aos seis anos de idade, já ajudava o pai, dono de um posto de gasolina, lavando janelas e calibrando pneus. Foi nesse período que surgiu o primeiro contato mais direto com o gado. “Eu não gostava muito daquele trabalho, então meu pai me comprou uma vaca para ordenhar”, recordaria anos depois. Uma vaca virou duas, depois três — e assim começou uma trajetória improvável que mudaria a pecuária americana. Confira a história contada exclusivamente para o Compre Rural.

A veia empreendedora de Engler se manifestou ainda na infância. Aos 12 anos, trabalhando em um curral de leilão local, ele protagonizou um episódio que se tornaria quase lendário: deu o lance mais alto por 100 cabeças de gado sem ter dinheiro para pagar. O susto inicial deu lugar ao apoio da família. Embora a mãe tenha ficado furiosa, o pai enxergou ali um potencial raro. Juntos, foram ao banco e conseguiram um financiamento melhor do que o obtido até mesmo pelo chefe de Engler no leilão.

Esse episódio resumiu uma característica que marcaria toda sua carreira: coragem para assumir riscos calculados e confiança absoluta no próprio julgamento.

Engler concluiu o ensino médio com apenas 15 anos e ingressou na Universidade de Nebraska, em Lincoln. Sua capacidade de concentração e disciplina o levou a se formar em apenas sete semestres, concluindo o curso em 1951. Ele sempre destacou a importância daquele período, vivido em um campus ainda marcado pela presença de veteranos que retornavam da Segunda Guerra Mundial, o que, segundo ele, enriquecia o ambiente acadêmico com experiências e maturidade.

Foi, sem dúvida, uma ótima experiência”, afirmou ao relembrar seus anos universitários.

A partir dos anos 1960, Engler passou a transformar conhecimento em negócios de grande escala. Em 1960, fundou um confinamento de gado em Hereford, Texas, um passo decisivo para sua consolidação no setor. Em 1972, tornou-se executivo da Iowa Beef Packers, assumindo a chefia da divisão de carcaças da Associação de Produtores de Carne Bovina de Iowa — posição estratégica em um momento de profundas transformações na indústria da carne.

Da aposta em 100 bois sem dinheiro ao comando de um império com mais de meio milhão de cabeças e o surgimento do maior confinamento de gado do mundo
O confinamento Wrangler da Cactus Feeders em Tulia, Texas. Foto: Queenslandcountrylife

Mas o grande divisor de águas veio em 1975, quando Engler se mudou para Dumas, no Texas, e fundou a Cactus Feeders. O projeto nasceu ambicioso e rapidamente se tornaria referência mundial.

A Cactus Feeders, Inc. é hoje reconhecida como uma das maiores e mais avançadas operações privadas de confinamento de gado do planeta. Fundada em 1975, a empresa atua principalmente na engorda de bovinos e suínos até o peso ideal para o mercado, abastecendo a indústria alimentícia com proteína em larga escala.

Atualmente, a Cactus Feeders:

  • Opera em pelo menos 10 fazendas, distribuídas entre Texas e Kansas
  • Possui capacidade estática superior a 500 mil cabeças de gado
  • É uma empresa 100% de propriedade dos funcionários, modelo que fortalece o engajamento e a cultura interna
  • Utiliza tecnologia avançada, como rastreamento por GPS, análise de dados e alimentação de precisão
  • Atua com foco rigoroso em saúde animal, eficiência produtiva e segurança alimentar

A empresa também teve papel decisivo na transformação da cadeia da carne bovina, influenciando a migração para operações maiores, mais integradas e altamente tecnificadas. Além disso, mantém parcerias com instituições e empresas de genética, como a ABS Global, buscando desenvolver animais com melhor desempenho em confinamento.

Foto: Paul and Virginia Engler College of Business

Ao longo de sua trajetória, Engler foi responsável por introduzir e difundir diversas práticas que hoje são padrão na indústria. Entre elas, destacam-se:

  • Precificação por fórmula, alinhando pagamento à qualidade da carcaça
  • Incentivos diretos para que produtores atendessem às exigências dos consumidores por carne mais saudável e de melhor qualidade
  • Participação acionária dos funcionários, algo raro no setor à época
  • Expansão internacional, com operações na Argentina a partir de 1998

Essas decisões ajudaram a posicionar a Cactus Feeders como referência global em eficiência e governança no confinamento de gado.

O impacto de Engler ultrapassou os limites do mercado. Ele recebeu inúmeras homenagens nacionais e estaduais, especialmente de sua alma mater. Na Universidade de Nebraska, foi nomeado ex-aluno ilustre, recebeu o Prêmio Builder, ingressou no Hall da Fama do Block and Bridle Club e integrou o conselho diretor da Fundação da Universidade de Nebraska.

Em 1996, Engler voltou ao centro das atenções ao liderar uma ação judicial contra Oprah Winfrey, após o programa “Oprah” exibir um episódio sobre segurança alimentar e doença da vaca louca, que havia devastado rebanhos na Inglaterra. Durante o programa, um convidado sugeriu que a doença poderia atingir os Estados Unidos, e Oprah declarou que aquilo a fez parar de comer hambúrgueres.

Não pude deixar de ficar furioso. Fiquei sentado lá e mal conseguia acreditar no que estava vendo”, disse Engler na época.

O Texas Beef Group entrou com a ação com base em uma lei conhecida como “difamação vegetariana”, que responsabilizava declarações falsas sobre a segurança dos alimentos. Embora o júri tenha decidido a favor de Oprah Winfrey, Engler afirmou posteriormente que não se arrependeu da iniciativa.

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Foto: Cactus Feeders, INC

Acho que fizemos um bom trabalho. Depois disso, passaram a ter mais cuidado ao contratar especialistas com autoridade”, afirmou ao Amarillo Globe-News, em 2011.

Hoje, com dois de seus filhos à frente dos negócios, Paul Engler dedica grande parte de seu tempo à filantropia. Em 2010, destinou mais de US$ 20 milhões à Universidade de Nebraska para criar o Programa de Empreendedorismo Agropecuário Engler, voltado ao desenvolvimento de lideranças e negócios sustentáveis na América rural.

O programa conta atualmente com 170 alunos e mais de 300 ex-alunos. Os resultados impressionam: 96% dos graduados transformaram seus projetos em empresas reais, gerando uma receita bruta superior a US$ 146 milhões, com impacto direto na economia de Nebraska e de todo o país.

Mais do que números ou escala, o título de Rei do Gado Americano reflete a capacidade de Paul Engler de enxergar a pecuária como um sistema integrado, onde tecnologia, pessoas, genética, mercado e responsabilidade caminham juntos. Seu legado permanece vivo não apenas nos confinamentos da Cactus Feeders, mas também nas comunidades rurais, nas universidades e na forma como a pecuária moderna é pensada nos Estados Unidos — e no mundo. E ai, gostou de conhecer a história do maior confinamento de gado do mundo? Compartilhe com um amigo.

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