Criado a partir da lida campeira no Rio Grande do Sul, o cão ovelheiro gaúcho combina rusticidade, inteligência e docilidade, sendo reconhecido como patrimônio cultural e genético do estado.
O Ovelheiro Gaúcho é mais do que um cão de trabalho: é um símbolo da cultura pastoril dos pampas brasileiros. Criado de forma espontânea e sem planejamento inicial, esse cão pastor nasceu da necessidade prática dos peões gaúchos em lidar com o gado e, principalmente, com as ovelhas que marcaram a economia e o cotidiano do Rio Grande do Sul. Sua resistência, agilidade e temperamento equilibrado o transformaram em peça-chave no manejo dos rebanhos, mas também em um companheiro fiel das famílias rurais e urbanas.
Ainda não reconhecido pela Federação Cinológica Internacional (FCI), o ovelheiro gaúcho já recebeu o selo oficial da CBKC (Confederação Brasileira de Cinofilia) e foi declarado, por lei, patrimônio cultural e genético do Rio Grande do Sul. Esse título reforça sua relevância como parte da história e da identidade local, além de valorizar sua presença nos campos e estâncias da região.
A história do ovelheiro gaúcho é marcada por duas principais hipóteses de origem. A mais difundida aponta que ele descende de cães de pastoreio sem raça definida, cruzados com border collies e rough collies trazidos pelos colonos europeus nos séculos XIX e XX. Esses cães, ao lado dos rebanhos de merino importados da Austrália e das práticas de manejo modernas, ajudaram a moldar o fenótipo e as habilidades do ovelheiro.

Uma segunda hipótese, baseada em estudos morfológicos e históricos, sugere que, além do collie, a raça teria recebido influência do Pastor Alemão e do Cão da Serra da Estrela, trazido por imigrantes portugueses após o Tratado de Madrid (1750) e a Guerra Guaranítica. Essa miscigenação, somada à seleção natural feita pelos próprios peões, resultou em um cão adaptado às duras condições do pampa, capaz de reunir rusticidade, inteligência e temperamento equilibrado.
Criado para trabalhar ao lado dos peões, o ovelheiro gaúcho é extremamente ágil, obediente e resistente. É um cão que late ao menor sinal de ameaça, funcionando como alarme natural, mas raramente ataca de forma agressiva. No manejo, sua inteligência permite aprender rapidamente comandos e executar tarefas complexas de pastoreio com tranquilidade e precisão.

O ideal, segundo criadores e campeiros, é que o cão apresente temperamento equilibrado: não deve ser apático nem precipitado, mas sim corajoso, atento e paciente, sabendo agir com firmeza quando necessário. Essa característica garante eficiência no manejo sem colocar em risco o rebanho.
Embora seja um cão de trabalho por excelência, o ovelheiro gaúcho conquistou espaço também nas cidades. Dócil, carinhoso e apegado aos donos, ele se adapta facilmente à vida em família, especialmente por seu convívio afetuoso com crianças. Essa versatilidade o transformou em um cão cada vez mais presente nos lares urbanos, sem perder suas raízes de guardião dos rebanhos.
Mais do que uma raça, o ovelheiro gaúcho representa a história da pecuária sul-brasileira e a relação entre homem, cão e rebanho nos pampas. Sua seleção, feita pela lida campeira e não por padrões estéticos, reforça o caráter funcional e cultural da raça. Hoje, ele se consolida não apenas como aliado dos criadores de gado e ovelhas, mas também como um símbolo vivo do patrimônio gaúcho.
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