Curso sobre reforma agrária na UFSCar acende debate sobre viés ideológico e uso da estrutura pública

Iniciativa do curso sobre reforma agrária na UFSCar é apresentada como capacitação educacional, mas provoca críticas ao incluir militantes de movimentos sociais e expor posicionamentos hostis ao agronegócio nas redes

A partir de fevereiro de 2026, a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) dará início ao curso de extensão “Ensino de Ciências e Reforma Agrária”, uma capacitação gratuita, a distância e com certificação de 60 horas, voltada a professores da Educação Básica, educadores populares, licenciandos em Ciências da Natureza e, de forma explícita, militantes de movimentos sociais. A proposta, divulgada oficialmente pela instituição, afirma ter como objetivo central estimular debates sobre o papel do ensino de ciências na abordagem da reforma agrária no Brasil.

A iniciativa, no entanto, vai além do campo pedagógico e tem provocado forte repercussão fora dos muros da universidade, especialmente por associar uma instituição federal a uma pauta política sensível, marcada por conflitos históricos, disputas ideológicas e impactos diretos sobre a propriedade privada, o agronegócio e a segurança jurídica no campo.

O que diz a universidade e como o curso é apresentado

Segundo a divulgação oficial, o curso será realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática, com apoio da Pró-Reitoria de Extensão (ProEx). O conteúdo parte de uma pergunta norteadora: “Como o conhecimento científico pode nos ajudar a pensar os conflitos e soluções para o uso da terra no Brasil?”

Na prática, a proposta integra áreas como Biologia, Química, Física e Ciências da Natureza à discussão da reforma agrária, entendida como um conjunto de políticas públicas voltadas à redistribuição de terras, com base no Estatuto da Terra (Lei nº 4.504/1964). A justificativa apresentada destaca temas como justiça social, sustentabilidade, cidadania e uso social da propriedade.

As inscrições ocorrem de 5 a 30 de janeiro, com início das aulas previsto para 24 de fevereiro de 2026. O curso é totalmente online e gratuito, característica comum às ações de extensão universitária, cujo objetivo formal é aproximar a universidade da sociedade.

Curso sobre reforma agrária na UFSCar acende debate sobre viés ideológico e uso da estrutura pública

Militância, extensão universitária e o limite do papel institucional

É justamente nesse ponto que surgem as principais críticas. A própria comunicação do curso informa que ele é direcionado, entre outros públicos, a “militantes de movimentos sociais”, o que levanta questionamentos sobre o uso da estrutura de uma universidade federal para capacitação política ou ideológica.

O debate se intensifica ao considerar que parte desses movimentos tem histórico de invasões de propriedades privadas, ocupações irregulares de terras produtivas e depredação de prédios públicos, ações que frequentemente geram conflitos no campo, prejuízos econômicos e longas disputas judiciais.

Críticos apontam que, ao abrir espaço institucional para esse público específico, a universidade corre o risco de ultrapassar a fronteira entre extensão acadêmica e ativismo político, especialmente quando o curso não deixa claro como pretende abordar visões divergentes, como a do produtor rural, do agronegócio organizado e do setor produtivo que sustenta a economia do país.

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Imagem ilustrativa

Redes sociais expõem viés e aprofundam a controvérsia

A polêmica ganhou ainda mais força a partir do conteúdo publicado nas redes sociais associadas ao curso. Nos comentários das postagens, é possível encontrar manifestações abertamente hostis ao agronegócio, setor responsável por cerca de um quarto do PIB brasileiro, por grande parte das exportações e por milhões de empregos diretos e indiretos.

🗣️ Entre os comentários destacados por usuários estão frases como: “Importante até para combater extrema direita e fascismo muito frequente no Estado de SC”, associando o debate agrário a uma disputa ideológica explícita.

🗣️ Outro comentário, em tom crítico ao próprio curso, levanta uma questão central do debate agrário brasileiro: “Vão ensinar a plantar?”

A pergunta sintetiza uma crítica recorrente: a de que políticas de redistribuição de terras, quando não acompanhadas de assistência técnica, capacitação, crédito, infraestrutura e gestão, acabam resultando em baixa produtividade, abandono das áreas ou até revenda informal das terras para produtores já estabelecidos, reproduzindo a concentração fundiária que se pretendia combater.

Reforma agrária: entre o debate acadêmico e a realidade do campo

A reforma agrária é um tema legítimo de estudo, com base legal clara e importância histórica no Brasil. O próprio Estatuto da Terra estabelece princípios como função social da propriedade, produtividade e justiça social. No entanto, especialistas do setor produtivo ressaltam que o problema fundiário brasileiro é complexo e não se resolve apenas com redistribuição de terras.

O agronegócio moderno opera com tecnologia, ciência, gestão, logística e mercado, elementos que exigem capacitação técnica contínua. Sem esses fatores, assentamentos tendem a enfrentar dificuldades estruturais, baixa renda e dependência permanente de políticas públicas.

Nesse contexto, a crítica não se dirige ao debate acadêmico em si, mas à forma como ele é conduzido. Ao priorizar uma narrativa que aparenta criminalizar o agronegócio e romantizar conflitos agrários, o curso corre o risco de apresentar uma visão parcial, sem contemplar dados econômicos, produtivos e jurídicos essenciais para uma análise equilibrada.

mao feminina - mulher com graos de soja na mao - colheita de soja - fotao
Foto: Wenderson Araujo

O papel da universidade pública em debate

A controvérsia reacende uma discussão mais ampla: qual deve ser o papel das universidades federais em temas politicamente sensíveis? Instituições públicas de ensino têm a missão de promover conhecimento, pensamento crítico e pluralidade de ideias. Quando um curso de extensão parece adotar uma linha ideológica definida, a credibilidade acadêmica e a confiança da sociedade entram em xeque.

Para críticos, a universidade deve ser espaço de debate amplo, técnico e plural, onde diferentes visões — inclusive a do produtor rural, do agronegócio empresarial, da agricultura familiar e dos assentados — sejam analisadas com base em dados, ciência e realidade prática, e não apenas em discursos militantes.

O curso “Ensino de Ciências e Reforma Agrária” ainda nem começou, mas já se tornou um símbolo de um debate maior: os limites entre educação, política e ativismo dentro das instituições públicas, e até que ponto a estrutura do Estado deve ser utilizada para formar cidadãos críticos ou militantes ideológicos.

A resposta a essa pergunta, ao que tudo indica, continuará sendo discutida muito além das salas virtuais do curso.

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