Antes vistos apenas como um passivo ambiental, os dejetos bovinos da engorda intensiva – popularmente conhecido como a bosta do gado – passam a integrar estratégias de sustentabilidade, redução de custos e geração de receita nos confinamentos de gado no Brasil
A intensificação da pecuária de corte no Brasil trouxe ganhos expressivos de produtividade, mas também ampliou um desafio histórico: a destinação adequada dos dejetos bovinos nos confinamentos de gado. O que por muito tempo foi tratado apenas como problema ambiental e operacional começa a assumir um novo papel dentro da porteira.
Dados recentes do Benchmarking do Confina Brasil 2025, levantamento expedicionário da Scot Consultoria, mostram que o setor avança rapidamente na coleta, tratamento e reaproveitamento desses resíduos, transformando-os em ativo econômico e ferramenta de gestão de risco. “A faixa de preço pode ir de R$80,00/t a R$130,00/t para o esterco bruto, enquanto materiais compostados e enriquecidos podem oscilar entre R$100,00/t e R$200,00/t”, apontou a Scot.
Coleta deixa de ser exceção e vira padrão operacional
Segundo o estudo, 95,5% dos confinamentos de gado brasileiros já realizam a coleta dos dejetos bovinos, enquanto apenas 4,5% ainda não adotam essa prática. O dado revela uma mudança estrutural na gestão dos currais, impulsionada tanto por exigências ambientais quanto por ganhos diretos de eficiência operacional.
Além disso, 86,2% das propriedades contam com sistemas de drenagem estratégica, fundamentais para controle da umidade, redução de lama e melhoria do conforto animal, fatores que impactam diretamente o desempenho zootécnico.
Essa organização operacional é apontada como o primeiro passo de um processo mais amplo: o reaproveitamento dos dejetos.
Reaproveitamento cresce e revela potencial produtivo
Entre as propriedades que realizam a coleta, 91,2% reaproveitam os dejetos dentro ou fora da fazenda, demonstrando que a prática deixou de ser pontual para se tornar recorrente. O aproveitamento ocorre principalmente da fração sólida, utilizada por 98,7% das propriedades, enquanto a fração líquida é explorada por 36,1% — ainda com espaço para expansão, especialmente em sistemas integrados .
Figura 1. Proporção do uso de dejetos líquidos e sólidos (%).

A destinação mais comum é a aplicação em lavouras (78,7%), seguida pelo uso em pastagens (63,9%). Um dado que chama atenção é que 13,5% das propriedades já comercializam o excedente, evidenciando que o esterco deixou de ser apenas insumo interno e passou a representar fonte adicional de receita.

Fertilizantes caros aceleram a virada de chave
O avanço do reaproveitamento ocorre em um contexto estratégico. O Brasil importa mais de 94% dos fertilizantes utilizados na agricultura, e esses insumos representam 20% a 30% do custo de produção dos principais grãos, segundo dados da ANDA e da Conab. Em 2025, os preços dos principais fertilizantes apresentaram altas anuais expressivas, como ureia (+27,9%), sulfato de amônio (+32,1%) e MAP granulado (+32,8%), ampliando a pressão sobre os custos agrícolas .
Nesse cenário, o uso dos dejetos bovinos surge como estratégia de redução da exposição à volatilidade dos fertilizantes químicos, fortalecendo a autonomia do produtor e a estabilidade econômica das operações.
Figura 2. Destinos principais dos dejetos coletados dentro das propriedades (todos os tipos).

Mercado de até R$ 350 milhões ao ano
Estimativas da Scot Consultoria indicam que os confinamentos brasileiros produzem cerca de 2,7 milhões de toneladas de esterco bovino por ano, o que projeta um potencial econômico de até R$ 350 milhões anuais. Em janeiro de 2025, o preço médio do esterco bruto girava em torno de R$ 130,00 por tonelada, enquanto materiais compostados e enriquecidos alcançavam R$ 160,00/t, podendo variar de R$ 100,00/t a R$ 200,00/t, dependendo do nível de tratamento e da demanda regional.
Quando há enriquecimento com fósforo, o valor agregado tende a ser ainda maior, ampliando significativamente a rentabilidade do coproduto e reforçando o papel do confinamento dentro da lógica da economia circular.
Tabela 1. Preços médios de fertilizantes no Brasil, em R$/tonelada, sem o frete.

Dejetos bovinos: De passivo ambiental a ativo estratégico
Além do retorno financeiro, o reaproveitamento dos dejetos contribui para redução do impacto ambiental, menor dependência de insumos importados e fortalecimento da integração lavoura-pecuária, característica cada vez mais presente na pecuária de corte moderna. O que antes era visto como “bosta” passa a ser tratado como insumo estratégico, alinhando sustentabilidade, eficiência produtiva e geração de renda.
O movimento observado nos dados do Confina Brasil indica que o confinamento brasileiro não apenas evolui em escala e tecnologia, mas também em gestão inteligente de recursos, transformando desafios históricos em oportunidades concretas de lucro e competitividade no campo.
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