Da dieta à fertilidade: por que a nutrição decide o futuro reprodutivo das éguas

Mais do que desempenho produtivo, a nutrição correta garante equilíbrio metabólico e segurança para a égua em todas as fases da reprodução.

O bem-estar da égua é o ponto de partida para qualquer sistema reprodutivo eficiente. Mais do que produzir potros, a equinocultura moderna exige manejo responsável, que respeite as necessidades fisiológicas do animal em cada fase da vida. Nesse contexto, a nutrição adequada deixa de ser apenas uma ferramenta produtiva e passa a ser um pilar essencial de saúde, conforto e equilíbrio metabólico da égua.

Nutrição e reprodução caminham juntas. Quando a dieta não atende às exigências do organismo, o corpo da égua entra em estado de adaptação, priorizando a sobrevivência em detrimento da fertilidade. Por isso, falhas nutricionais estão entre as principais causas de infertilidade, perdas embrionárias, abortos e nascimento de potros frágeis. O impacto não é apenas produtivo, mas também direto sobre o bem-estar do animal.

Todo médico-veterinário envolvido com reprodução precisa saber avaliar o estado nutricional da égua, corrigindo excessos ou deficiências antes que eles se transformem em problemas clínicos. Cada animal possui necessidades diferentes, de acordo com idade, categoria, fase reprodutiva, nível de atividade física e condição corporal.

A condição corporal ideal — nem magra, nem obesa — é um dos principais indicadores de bem-estar. Éguas magras apresentam alterações hormonais, cios irregulares e ovulação ineficiente. Já a obesidade aumenta o risco de distúrbios metabólicos, dificuldade no parto, retenção de placenta e queda na produção de leite.

Manter o escore corporal adequado significa respeitar os limites fisiológicos da égua, reduzindo estresse metabólico e favorecendo um ciclo reprodutivo mais natural e eficiente. Uma dieta bem formulada garante não apenas fertilidade, mas também saúde digestiva, imunidade e estabilidade hormonal, elementos diretamente ligados ao bem-estar animal.

Forragens de qualidade (volumoso)

A base da dieta deve ser composta por pastagens bem manejadas e feno de qualidade, fornecendo fibras essenciais ao trato digestivo. Em média, recomenda-se cerca de 1% do peso vivo em matéria seca, sempre evitando volumosos com mofo ou micotoxinas, que causam desconforto, inflamações e prejuízos reprodutivos.

Energia na medida certa

Carboidratos e gorduras são indispensáveis para sustentar a reprodução e o crescimento fetal, mas o excesso compromete o bem-estar, podendo causar laminite, obesidade e dificuldades no parto.

Proteínas de alta qualidade

Fundamentais para o desenvolvimento do potro, a manutenção muscular da égua e a produção de leite, especialmente no final da gestação e durante a lactação.

Vitaminas e minerais essenciais

Cálcio, fósforo, cobre, zinco, iodo, ferro e vitaminas do complexo B são determinantes para a formação óssea do potro e para a saúde da matriz. Tanto a deficiência quanto o excesso afetam o bem-estar — a superdosagem de iodo, por exemplo, pode causar bócio em potros.

As éguas entram em reprodução, em geral, a partir dos três anos de idade, quando já possuem maturidade corporal suficiente. A partir desse momento, o manejo nutricional deve ser ajustado conforme a evolução da gestação.

Primeira fase da gestação (até o 8º mês)

As exigências são apenas ligeiramente superiores à manutenção. Aproximadamente 1,4% a 1,7% de matéria seca em relação ao peso vivo costuma ser suficiente. Nesse período ocorre apenas 30% do crescimento fetal. Um volumoso de ótima qualidade, água limpa à vontade, mineralização adequada e mínima suplementação concentrada atendem às necessidades, garantindo conforto metabólico à égua.

Fase final da gestação (9º ao 11º mês)

Aqui está o maior desafio ao bem-estar. Cerca de 70% do crescimento do feto ocorre nos últimos três meses, exigindo grande esforço fisiológico da égua. A alimentação fetal passa a ser prioritária, e as demandas energéticas e proteicas aumentam significativamente.

Além de sustentar o crescimento acelerado do potro, a égua precisa formar reservas corporais, evitando perda excessiva de peso no início da lactação. Porém, a superalimentação compromete o bem-estar e pode provocar:

  • Dificuldades no parto e retenção de placenta
  • Metrites e complicações pós-parto
  • Potros frágeis, sujeitos à anóxia durante o nascimento
  • Redução do consumo voluntário na lactação, limitando a produção de leite

Uma suplementação concentrada bem ajustada no final da gestação contribui diretamente para o bem-estar da égua. Entre os benefícios estão:

  • Compensar a queda de apetite próxima ao parto
  • Estimular o desenvolvimento fetal adequado
  • Favorecer a produção de colostro de alta qualidade, rico em imunoglobulinas
  • Sustentar boa produção leiteira, essencial ao crescimento inicial do potro

Um bom estado corporal no momento do parto é um dos melhores indicadores de bem-estar: reduz riscos clínicos, melhora a recuperação pós-parto e aumenta a eficiência reprodutiva nos ciclos seguintes.

A má nutrição é uma das causas mais subestimadas de infertilidade em éguas. Dietas desequilibradas afetam diretamente o bem-estar e podem resultar em:

  • Redução das chances de fecundação
  • Cios não férteis
  • Falhas na fixação do embrião
  • Abortos e partos prematuros
  • Potros fracos, com maior risco de mortalidade neonatal
  • Menor longevidade reprodutiva da matriz

Estima-se que cerca de metade da energia consumida pela égua em reprodução seja destinada ao metabolismo basal, enquanto o restante sustenta o crescimento fetal e a produção de leite.

O cuidado não se limita ao cocho. Mudanças alimentares devem ser graduais, o exercício leve contribui para o equilíbrio metabólico e a exposição adequada à luz solar auxilia na regulação hormonal e na ciclicidade reprodutiva.

Em síntese, o bem-estar da égua começa na nutrição. Dietas personalizadas, ajustadas à fase reprodutiva e à condição corporal, garantem conforto fisiológico, reduzem riscos clínicos e permitem que a reprodução ocorra de forma mais natural e eficiente. Para o criador, isso se traduz em menos perdas, matrizes mais saudáveis, potros mais fortes e sistemas produtivos mais sustentáveis ao longo do tempo.

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