Cofundadora da Once Upon A Farm, Jennifer Garner transforma conexão com o campo em negócio de alto crescimento, atrai investidores em Wall Street e reforça tendência global por alimentos saudáveis.
A transição de celebridades para o mundo dos negócios não é novidade — mas poucos casos ganharam tanta relevância quanto o da atriz Jennifer Garner, que ajudou a transformar uma marca de alimentos infantis orgânicos em uma empresa avaliada em cerca de US$ 724 milhões (R$ 3,8 bilhões) após sua estreia na Bolsa de Nova York.
A Once Upon A Farm, sediada em Berkeley, na Califórnia, abriu capital na sexta-feira (6) com ações precificadas em US$ 18, levantando aproximadamente US$ 200 milhões (R$ 1,1 bilhão). O entusiasmo do mercado foi imediato: os papéis encerraram o primeiro dia com alta próxima de 17%, superando os US$ 21.
O movimento é considerado raro no setor de alimentos e sinaliza o apetite crescente dos investidores por empresas ligadas à saúde, bem-estar e nutrição — segmentos que ganharam força no pós-pandemia.
Fundada em 2011, a Once Upon A Farm já cogitava abrir capital anteriormente, mas decidiu adiar o plano para 2026. A espera coincidiu com um período de expansão acelerada.
No ano fiscal encerrado em setembro de 2025, a empresa registrou receita de US$ 225 milhões (cerca de R$ 1,2 bilhão) — crescimento superior a 40% em relação ao ano anterior e uma taxa composta acima de 60% desde 2018.
Hoje, a companhia é apontada como uma das principais responsáveis pela expansão da categoria de alimentos infantis nos Estados Unidos, respondendo por mais de 60% do crescimento incremental do segmento e por mais de 35% das novas compras.

Seus produtos — papinhas orgânicas refrigeradas e lanches infantis — estão presentes em cerca de 25 mil lojas, incluindo grandes redes como Target, Whole Foods, Kroger, Walmart, Publix e Wegmans.
Além disso, varejistas que destinam mais de 15% do espaço da categoria refrigerada infantil à marca registram aumento médio superior a 10% na receita, evidenciando o impacto comercial da empresa nas gôndolas.
Jennifer Garner entrou na companhia em 2017 como diretora de marca e passou a ser reconhecida como cofundadora, acumulando uma participação de aproximadamente 7%, avaliada em cerca de US$ 64 milhões (R$ 337 milhões) após a estreia na Bolsa.
Sua atuação foi central durante o roadshow com investidores, ajudando a reforçar a confiança na marca e a conexão emocional com os consumidores — especialmente famílias com crianças pequenas.
A presença da atriz também contribuiu para posicionar a empresa como uma alternativa moderna à alimentação infantil tradicional, apoiada na proposta de ingredientes naturais e rastreáveis.
No mesmo ano em que Garner ingressou no negócio, os fundadores Cassandra Curtis e Ari Raz trouxeram John Foraker para o cargo de CEO e cofundador. O executivo já havia liderado a Annie’s — marca orgânica que abriu capital em 2012 e foi vendida posteriormente à General Mills.
Foraker detém cerca de 6% da empresa, avaliados em aproximadamente US$ 57 milhões, enquanto os fundadores originais mantêm pouco mais de 1% cada.
Uma de suas primeiras decisões foi ampliar drasticamente a distribuição. Quando assumiu, a marca estava presente em apenas 350 lojas; em cerca de um ano, esse número saltou mais de 2.300%, chegando a aproximadamente 8.500 pontos de venda.

A estratégia era arriscada, já que grandes varejistas raramente concedem uma segunda chance a marcas novas. Ainda assim, cerca de 90% dessas lojas continuam comercializando os produtos, indicando forte aceitação.
Apesar da valorização e do forte avanço nas vendas, a Once Upon A Farm abriu capital operando no vermelho. A empresa registrou prejuízo de US$ 52 milhões (R$ 274 milhões) no último exercício, acima das perdas de US$ 19 milhões em 2022.
O aumento do déficit está ligado principalmente aos custos de expansão — como taxas pagas aos varejistas para garantir espaço nas prateleiras — e ao investimento em escala.
Para analistas, esse cenário é comum em empresas de crescimento rápido que priorizam posicionamento e participação de mercado.
Ao longo da última década, a companhia promoveu mudanças decisivas:
- Reformulação das embalagens com cores mais atrativas
- Destaque para receitas sem adição de açúcar
- Redefinição do público-alvo após identificar que 80% do consumo vinha de crianças maiores, e não de bebês
- Modernização da identidade visual, que voltou a impulsionar o faturamento
Em 2021, a empresa adotou o modelo de public benefit corporation, permitindo perseguir objetivos sociais e ambientais sem a pressão exclusiva por lucro de curto prazo.

Um dos pilares do negócio é a relação com produtores rurais. A Once Upon A Farm compra frutas e vegetais de agricultores certificados — principalmente nos Estados Unidos — seguindo padrões como o USDA Organic.
Parcerias com iniciativas voltadas à sustentabilidade e às condições de trabalho no campo reforçam a rastreabilidade e as boas práticas agrícolas, conectando a proposta de nutrição infantil saudável à origem dos alimentos.
Esse vínculo com o agro também é pessoal para Garner.
A atriz mantém uma ligação profunda com a vida rural. Em 2017, ela comprou a fazenda onde sua mãe cresceu, em Locust Grove, Oklahoma — propriedade adquirida originalmente por seus avós em 1936, durante a Grande Depressão, por apenas US$ 700.
Conhecida informalmente como “Farmer Jen”, Garner costuma compartilhar sua rotina agrícola, operando tratores e colhendo vegetais, enquanto promove um estilo de vida sustentável.
A fazenda familiar também fornece ingredientes como abóboras e mirtilos para receitas da Once Upon A Farm, fortalecendo a narrativa de produção “do campo ao prato”.
O mercado de alimentos infantis movimenta cerca de US$ 50 bilhões por ano no varejo. As categorias nas quais a empresa atua somam aproximadamente US$ 11 bilhões, enquanto o segmento orgânico pode chegar a US$ 79 bilhões em vendas anuais.
Mesmo com esse avanço, os produtos da marca estão presentes em apenas 4,8% dos lares americanos, indicando um potencial significativo de expansão.

Antes do IPO, a empresa havia captado cerca de US$ 98 milhões, incluindo uma rodada que avaliou o negócio em US$ 371 milhões — menos da metade do valor atual, evidenciando a rápida valorização.
Com o capital reforçado, a Once Upon A Farm pretende ampliar o portfólio e desenvolver novas refeições e lanches voltados à primeira infância, apostando na combinação entre conveniência e alimentação saudável.
A estratégia mira acompanhar as famílias desde a introdução alimentar até as fases posteriores da infância — consolidando a marca como referência em nutrição infantil.
Mais do que um IPO, a estreia representa um sinal claro de transformação no setor: empresas que unem rastreabilidade, conexão com o campo e propósito tendem a ganhar cada vez mais espaço entre investidores e consumidores.
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