Ano de transição marca novo ciclo da pecuária de corte em 2026 com menor oferta, preços em alta e pressão política e internacional sobre o setor
O ano de 2026 se apresenta como um ponto de inflexão para a pecuária de corte brasileira, que entra em uma nova fase de seu ciclo produtivo. Após um período marcado por abate intenso de fêmeas, aumento da oferta de animais e queda nos preços, o setor inicia uma recuperação, agora caracterizada por menor disponibilidade de gado, reposição valorizada e pressão por produtividade.
Ao longo dos últimos dez anos, a pecuária nacional atravessou diferentes fases do ciclo pecuário, em que oscilações na retenção ou descarte de fêmeas determinam a oferta futura de bezerros e boi gordo. Em 2021, o setor atingiu recordes históricos de preço da arroba, mas essa fase de alta foi sucedida por um forte descarte de matrizes, resultando em excesso de oferta entre 2022 e 2024, com consequente queda das cotações. Em 2025, sinais de reversão se consolidaram com a valorização da arroba e a redução da oferta de animais.
Para 2026, analistas como Caio Toledo (StoneX) apontam que a pecuária deve entrar firmemente na fase de alta do ciclo, com maior retenção de fêmeas e menor volume de abates. O abate recorde de mais de 40 milhões de bovinos em 2025 não deverá se repetir, e as estimativas para 2026 apontam para queda de até 5,3% na produção de carne bovina, segundo o USDA e o Itaú BBA.
A valorização do boi gordo foi evidente no segundo semestre de 2025, quando os preços atingiram recordes nominais em plena entressafra. A arroba encerrou 2025 com média de R$312, após ter ficado abaixo de R$260 no ano anterior. Em 2026, a tendência é de manutenção ou aumento desses preços, impulsionados pela menor oferta e pela demanda interna aquecida.
No entanto, é o custo da reposição que mais preocupa os pecuaristas. O bezerro teve valorização acima de 37% em 2025, com preço médio em torno de R$2.750, pressionando as margens dos sistemas de recria-engorda. Produtores apontam o bezerro caro como o maior desafio de 2026, superando inclusive questões políticas ou ambientais.
Mercado internacional também impõe novos desafios. A China, principal destino da carne brasileira, passou a adotar cotas de importação e sobretaxa de 55% para volumes acima do limite, o que pode reduzir as exportações brasileiras ao país. Outros mercados, como México e EUA, também impuseram restrições tarifárias ou reduziram cotas, exigindo dos frigoríficos uma readequação da estratégia comercial. Apesar disso, o Brasil segue competitivo globalmente, beneficiado por um real desvalorizado e oferta reduzida nos EUA, Austrália e Argentina.
As exigências ambientais e de rastreabilidade ganham mais peso, especialmente com a entrada em vigor da legislação europeia contra importação de produtos ligados ao desmatamento. Produtores sem regularização fundiária e ambiental correm o risco de perder acesso a mercados importantes, e os frigoríficos já começam a pagar bônus por animais rastreados.
Em ano eleitoral, a incerteza política e fiscal também gera instabilidade. A tributação do agro com a Reforma Tributária, as mudanças no câmbio, e possíveis medidas populistas ou intervencionistas tornam 2026 um ano de alta volatilidade. Mais de 40% dos pecuaristas apontam a instabilidade política como um dos maiores riscos para o setor da pecuária de corte, segundo pesquisa da HN Agro.
A profissionalização da gestão é a principal resposta aos desafios. O uso de tecnologia, rastreabilidade, estratégias de hedge e intensificação produtiva são apontados como caminhos para manter a rentabilidade num ambiente de margens apertadas. A adoção de boas práticas e a busca por maior eficiência serão decisivas para que o setor supere as pressões internas e externas.
Conclusão: 2026 marca a virada de ciclo da pecuária de corte brasileira, mas também impõe uma série de adaptações urgentes. A reposição escassa e cara, o novo mapa do comércio global de carne e a pressão por sustentabilidade colocam a atividade em um novo patamar de exigência. Os produtores que investirem em planejamento, eficiência e gestão têm diante de si uma janela de oportunidade para capturar valor num dos setores mais estratégicos do agro brasileiro.
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