Família perdeu praticamente todo o rebanho leiteiro em poucos dias; autoridades investigam possível intoxicação por nitrito associada às condições climáticas e à pastagem consumida pelos animais.
Um episódio de forte impacto abalou o interior de Novo Xingu, pequeno município de cerca de 1,6 mil habitantes no norte do Rio Grande do Sul, na região de Palmeira das Missões. Em um intervalo de apenas três dias, uma família de agricultores perdeu praticamente todo o rebanho leiteiro da propriedade: 48 vacas em fase de lactação morreram de forma repentina e ainda sem causa oficialmente confirmada. A principal suspeita, segundo técnicos e autoridades, é de intoxicação por nitrito, possivelmente associada às condições climáticas recentes e à pastagem consumida pelos animais.
As mortes começaram a ser registradas na sexta-feira, 2 de janeiro, em uma propriedade localizada na Linha Cotia, no interior do município. Por volta das 5h30min, ao se preparar para conduzir o rebanho até a ordenha, o produtor rural Vanderlei Witter, de 44 anos, se deparou com uma cena inesperada: quatro vacas já estavam mortas no piquete. Outras, ainda vivas, apresentavam sinais graves, como salivação excessiva, respiração ofegante e dificuldade para se manterem em pé.
Em questão de minutos, a situação se agravou. Vacas começaram a cair pelo caminho e morrer rapidamente, sem que houvesse tempo hábil para intervenções eficazes. “Foi tudo muito rápido. Elas simplesmente começaram a cair e não reagiam”, relataram os produtores a técnicos que atenderam a ocorrência.
Diante da gravidade do quadro, a família acionou imediatamente médicos veterinários, técnicos de cooperativas, a Secretaria Municipal de Agricultura e parceiros da região. Ao longo do dia, diversas tentativas de atendimento emergencial e aplicação de medicamentos foram realizadas, porém nenhum dos protocolos adotados conseguiu conter a sequência de mortes.
O número de animais mortos continuou a aumentar. Na manhã do sábado, 3 de janeiro, Vanderlei encontrou mais 16 vacas mortas. No mesmo dia, equipes técnicas realizaram dez coletas de amostras sorológicas em vacas ainda vivas, na tentativa de identificar a origem do problema e evitar novas perdas. No domingo, 4 de janeiro, o total de óbitos chegou a 48 animais, praticamente todo o plantel leiteiro da propriedade.
A Inspetoria Veterinária de Constantina, responsável pela região, em parceria com empresas às quais o produtor é vinculado, coletou amostras de vísceras de dois animais mortos, além de água, ração e silagem. Também foram recolhidas amostras das pastagens consumidas pelo rebanho, incluindo Capim Sudão (aveia de verão), gramas Tifton e Papua. Todo o material foi encaminhado para análise laboratorial.
Segundo o secretário municipal de Agricultura, Sérgio Tasso, a principal linha de investigação aponta para uma possível intoxicação relacionada à pastagem. “A suspeita é de intoxicação por nitrito, em função dos dias seguidos de chuva e da falta de luminosidade, o que afeta diretamente o processo de fotossíntese das plantas”, explicou. De acordo com ele, essas condições podem favorecer o acúmulo de nitrato nos vegetais, que, ao serem ingeridos pelos bovinos, são convertidos em nitrito no rúmen, levando à morte por falta de oxigenação no sangue.
Ainda não há previsão para a conclusão dos exames laboratoriais. A preocupação das autoridades é que os resultados sejam inconclusivos, situação que já ocorreu em episódios semelhantes registrados anteriormente no Estado, dificultando a responsabilização e a adoção de medidas preventivas mais assertivas.
Além do impacto emocional, o prejuízo financeiro é expressivo. As vacas produziam, em média, entre 1.100 e 1.200 litros de leite por dia, garantindo uma renda mensal estimada entre R$ 80 mil e R$ 100 mil à família. Considerando apenas o valor dos animais, a perda ultrapassa R$ 600 mil. A isso se soma o impacto contínuo da interrupção da produção de leite, que compromete diretamente o sustento da família.
A propriedade pertence à família Witter há cerca de 30 anos e, além da atividade leiteira, também atua na suinocultura e no cultivo de soja. Segundo relatos, nunca havia sido registrado um episódio semelhante na área, o que aumenta a apreensão e a sensação de insegurança entre produtores da região.
Riscos de intoxicação por nitrato e nitrito
Diante do caso, técnicos e entidades do setor reforçaram o alerta a produtores de leite sobre os riscos de intoxicação por nitrato e nitrito em períodos de estiagem, excesso de chuvas ou longos intervalos sem sol. As orientações divulgadas foram formuladas pela Transpondo, em consonância com a literatura científica internacional e com a experiência prática acumulada no enfrentamento desse tipo de ocorrência, que se repete com frequência em diferentes regiões do país.
De acordo com o material técnico, o maior risco ocorre quando animais, especialmente de alta produção, entram subitamente em dietas com forragens verdes frescas cultivadas em solos com alto teor de nitrogênio, logo após estiagens severas ou períodos prolongados de baixa luminosidade. Nessas condições, a planta absorve o nitrogênio do solo, mas não consegue convertê-lo adequadamente em proteína vegetal, acumulando nitrato em excesso. No rúmen, esse nitrato é transformado em nitrito, que substitui o oxigênio na hemoglobina, levando os animais à morte por asfixia.
Entre as recomendações estão a suspensão temporária da adubação nitrogenada, a realização de transições graduais na dieta dos animais, o aumento da oferta de carboidratos não fibrosos, como o milho moído, e a priorização de volumosos de baixo risco. Também são apontados como fatores agravantes solos e dietas deficientes em enxofre e molibdênio, além do uso de determinados aditivos, como monensina sódica e ureia, em momentos críticos.
Os sinais clínicos mais comuns da intoxicação aguda incluem mucosas arroxeadas, sangue com coloração semelhante a chocolate, salivação intensa, dificuldade respiratória, tremores musculares, ataxia, prostração e, em casos mais graves, convulsões e morte rápida. A orientação, nesses casos, é interromper imediatamente a movimentação dos animais, suspender qualquer oferta de alimento, manter apenas água potável e acionar um médico veterinário com urgência.
Especialistas ressaltam que, em situações extremamente agudas, quando os animais já se encontram caídos, o tratamento emergencial pode envolver a aplicação intravenosa de azul de metileno, conforme descrito na literatura técnica internacional, mas alertam que a eficácia depende do diagnóstico rápido e da intervenção imediata.
Enquanto aguarda os resultados dos exames, a família Witter tenta assimilar a dimensão da perda e busca apoio para reorganizar a atividade produtiva. O caso acende um alerta em toda a região e reforça a necessidade de monitoramento constante das condições climáticas, do manejo das pastagens e da nutrição animal, especialmente em períodos de instabilidade ambiental.
Comovida com a situação, a comunidade local, juntamente com a Prefeitura de Novo Xingu, organizou uma campanha solidária para auxiliar a família na recomposição do rebanho e no cumprimento dos compromissos financeiros. As doações podem ser feitas via PIX, pelo número (55) 99923-2798, em nome de Ana Paula Werkhausen Witter.
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